Vi essa pergunta há alguns dias e confesso que me chamou à atenção. Me peguei questionando sobre quantas séries, filmes, novelas e até desenhos animados são baseados em obras literárias. Aos mais experientes, Gabriela, novela da TV Globo, foi inspirada na obra de Jorge Amado; assim como Dona Flor e seus Dois Maridos, do mesmo autor. No ano passado, a Turma da Mônica saiu dos quadrinhos para as telas do cinema.

Nas plataformas de ‘streamings’, são infinitos os exemplos de livros que viram filmes e, principalmente, séries. Game of Thrones foi um sucesso estrondoso ao ponto de a série ter uma sequência bastante diferente dos extensos livros escritos por George R.R. Martin. Em sua terceira temporada na Netflix, a série Anne Withan E foi baseada no romance da escritora canadense L. M. Montgomery, publicado em 1908. Após o sucesso do programa televisivo, inclusive, Anne de Green Gables figura entre os livros mais vendidos na Estante Virtual no primeiro semestre de 2020.

Esses são apenas alguns dos exemplos de obras que foram televisionadas e caíram no gosto do público. São sucesso também Cinquenta Tons de Cinza, Crepúsculo, Capitu (novela baseada em Dom Casmurro), Gossip Girl, Orange is The New Black, Harry Potter, Para Todos os Garotos que Já Amei, entre tantos outros. Até o Sítio do Pica Pau Amarelo, uma das maiores construções do renomado autor brasileiro Monteiro Lobato, foi parar nas telinhas, com a Emília saracoteando e causando muitas confusões diante dos olhos de crianças de várias gerações.

As adaptações sempre geram discussões entre os fãs. Há quem prefira ler, criando seu próprio mundo a partir das descrições feitas pelo autor. Eles se opõem àqueles que gostam mais de assistir à obra tendo o enriquecimento visual proporcionado pela produção cinematográfica.
Alguns intelectuais mais conservadores podem questionar as adaptações, principalmente de livros considerados clássicos, alegando que diminuem ou simplificam as histórias. Para estes, as grandes obras da literatura são quase intocáveis, restando a nós, meros mortais, apenas a apreciação de tais criações.

Concordo com o respeito à integridade da obra! Eu mesma adoro ler primeiras edições, sobretudo, de literatura brasileira clássica. É como se estivesse olhando para Bentinho e Capitu da forma como o próprio Machado de Assis projetou.
Todavia, não se pode desconsiderar a contribuição dessas interferências visuais na formação de novos potenciais consumidores de literatura clássica. A visão de que as obras são intocáveis desconsideram aquelas pessoas que deixam de acessar esses títulos justamente por sua construção rebuscada e, muitas vezes, longe da realidade gramatical e discursiva atual. É importante que as pessoas, especialmente os jovens, criem gosto pela literatura.

Em um mundo formatado e noticiado pelos 280 caracteres das redes sociais, manter atenção por páginas e páginas é um desafio diário. E por que isso não pode começar pelas telas? A prova de que as produções televisivas funcionam como chamariz aos novos leitores está nos dados de vendas a cada novo sucesso nas telinhas ou nas telonas. Ainda antes de Anne de Green Gables, Harry Potter foi um grande exemplo de série que integrou jovens do mundo todo ao universo da literatura. O quinto livro entrou no topo da lista de ‘best-sellers’ na Grã-Bretanha mais de cinco meses antes de chegar às lojas. Os dois primeiros filmes já haviam sido lançados e eram sucesso de bilheteria.

Que mal há em apresentar obras literárias através de filmes e séries? Estas podem ser belas portas para o mundo da literatura. O que falta, muitas vezes, é a construção de um caminho leve para conteúdos mais complexos. Que sejamos esse caminho então! Indicando novas experiências de acordo com o gosto literário (ou de séries), e não esboçando preconceito literário de acordo com nossas experiências pessoais. E aí, já pensou em assistir a um livro durante o fim de semana?

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