Andressa Kaliberda
Jornalista

Com um punhado de balas de iogurte nas mãos, um sorriso no rosto, o inseparável chapéu, calça social e um belo paletó, feito sob medida. Assim meu falecido avô recebia as crianças em sua carroça, na estradinha próxima à sua propriedade – a casa dele era a última daquela estrada de terra, no interior de uma pequena cidade do Paraná.
Isso já faz quase 30 anos, mas eu lembro como se fosse hoje do seu sorriso e da paciência com que esperávamos a carroça apontar no topo da lomba. Então, saíamos correndo em uma disputa para ser a criança mais útil para o “Seu Simão”. Antes da casa dele, haviam duas porteiras no meio da estrada, dessas bem características de interior mesmo, que serviam para que o gado não fosse muito longe, caso fugisse de alguma propriedade ao longo do caminho. Corríamos para abrí-las e pegar uma carona na velha carroça puxada por lindos cavalos muito bem cuidados. Quem o ajudasse (e isso significava todos que estavam na corrida até o veículo) ganhava um punhado de balas. Ainda tínhamos, como recompensa, descobrir em primeira mão tudo o que ele havia comprado na cidade. Era um grande momento!
Mais tarde, enquanto ajudávamos com os afazeres da casa, meu avô sentava no caixote de lenha, ao lado do fogão, puxava algumas palhas de milho secas e um pouco de açúcar e, entre lições de ucraniano e discussões sobre política ou economia, derretia os cristaizinhos brancos, transformando-os nos melhores doces do mundo. As balas de açúcar eram enroladas em palhas de milho e serviam como presentes para quem ajudara no trabalho da roça e da casa.
Com a mudança da estação, lá ia o meu avô plantar flores logo ao amanhecer ou no finalzinho da tarde. Esse era um hobbie seu. Ele dizia que elas tinham que ser plantadas nesses horários em dias quentes. Assim, as mudas “descansavam” antes de pegar um sol forte e tinham mais chance de crescerem. Suas idas à roça eram diárias. Mesmo em domingos e feriados, ele ia visitar e conversar com as plantas. Mas as flores, essas recebiam carinho especial. Eram momentos importantes aqueles de plantar e colher.
Seu Simão era um homem extremamente simples. Com pouca escolaridade, mas com uma sabedoria que poucas pessoas têm. Leitor ávido de jornais, lia inclusive os editais publicados. Ouvia Voz do Brasil e assistia a programas informativos na TV. Sabia muito sobre temas que poucos conseguem discutir com tanto conhecimento. Com certeza seus ensinamentos e debates bem argumentados me fizeram escolher o jornalismo com bastante orgulho.
Mas, apesar desse interesse do meu avô pela informação, um dos maiores aprendizados que tive com ele, certamente, foi a arte de valorizar pequenos momentos. Essa característica o acompanhou por toda a vida e, mesmo na sua simplicidade, fez com que coisas do dia a dia, como a carona na sua velha carroça ou uma bala de açúcar, tivessem o sabor mais delicioso do mundo.
Neste fim de semana, dedicado a homenagear aqueles que já se foram, vale também a reflexão sobre o que estamos fazendo para deixar nossa marca nas pessoas queridas. Seu Simão, com certeza, fez muitas coisas diariamente para que coisas simples, como plantar uma flor, derreter açúcar no fogão ou ajudar alguém, se transformassem em momentos únicos, dignos de uma bela cerimônia para serem executados. Com ele, aprendi que a vida é cheinha de momentos importantes. Nós é que deixamos eles passarem em branco.

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