Andressa Kaliberda
Jornalista

Você já reparou como o supermercado pode ser um terreno fértil para uma bela interação social? Arrisco dizer que renderia, inclusive, grandes estudos sobre comunicação e cultura. Uma ida à padaria ou ao açougue nos diz muito sobre onde estamos e sobre quem somos. Afinal, pedir uma cuca com linguiça ou um potinho de ambrosia para a sobremesa só é possível aqui no Sul. Essa semana, por exemplo, promoções de carnes e cervejas anunciadas em verde, vermelho e amarelo – cores da bandeira sul-rio-grandense – estampavam anúncios por praticamente todos os mercados do Estado. E isso só acontece por aqui.
É nos corredores, entre produtos de limpeza e alimentos, que podem surgir as conversas mais interessantes. O mercado é um local propício para furarmos a nossa bolha social. Um comentário sobre o preço do pão de alho, por exemplo, pode ganhar adeptos e se tornar uma discussão acalorada sobre os mais diferentes temas – de churrasco a futebol, política, economia ou receitas bem gostosas. Um assunto leva ao outro e assim, em uma teia de temas que se constrói à medida que mais pessoas vão chegando e dando sua opinião livremente, as bolhas vão sendo furadas.
O mercado é um ambiente democrático. Tem crianças, idosos, pessoas gordas, magras, baixas, ricas, pobres e de todos os lugares. Afinal, todos precisaram dar aquela passadinha para pegar uma mistura ou tirar um dia no mês para fazer o rancho. E, nessas andanças entre as gôndolas, tem ainda aquelas pessoas oferecendo amostras de produtos. E pasmem, essas pessoas são, muitas vezes, tratadas com grosserias, embora só estejam fazendo seu trabalho. Por ali, provando um quitute ou uma bebida, é possível ouvir histórias que nunca imaginaríamos. E, mais uma vez, temos a oportunidade de conhecer os indivíduos mais interessantes que poderiam cruzar nosso caminho. Basta um ouvido atento, um olhar simpático e um comentário, que pode ser sobre o melhor chá para as noites de Inverno ou sobre o preço dos tomates (que está diminuindo, finalmente!).
O supermercado parece, em partes, com as redes sociais virtuais. Você chega em um sala, faz um comentário aleatório e, quando vê, está cercado de pessoas discutindo um assunto que já nem é mais o tema inicial da conversa. Isso pode gerar conflitos e também pode motivar grandes amizades, que se transportam para a vida offline. A diferença é que, nos supermercados, as relações em rede não são protegidas por uma tela e, por isso, as palavras são medidas e a cordialidade tende a se manter. Essa ética social, em geral, tem sido esquecida nas redes digitais. Mas não deveria.
Por trás da tela, há pessoas reais, com sentimentos, opiniões, alegrias e dores que precisam ser respeitadas. Uma observação social no supermercado pode servir de parâmetro para as interações que protagonizamos nas redes. O preço do tomate pode ser o pontapé inicial para o compartilhamento de um molho delicioso e único; mas é impensável que alguém seja julgado politicamente simplesmente por comentar o óbvio. Essa lógica deveria ser transportada para todas as relações, dentro e fora do ambiente web para que, assim, as estruturas sociais não sejam comprometidas por uma cultura recém criada de animosidade virtual.

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