Se você habita o mundo chamado internet, já deve ter visto expressões relacionadas a Chernobil como sinônimo de algo ruim, chato ou de mau gosto. Chernobil virou o novo “tóxico” da vivência virtual. É um tal de “relacionamento de Chernobil” – ou Chernóbil, Chernobyl, Tchernobil ou Tchernóbil – pra cá, “família de Chernobil” pra lá e até “comida de Chernobil”. Ainda mais recentemente se criou o termo Cherno-qualquer-coisa (Chernofoods, para alimentos ruins, Chernofesta para eventos desagradáveis e assim por diante), como alusão a algo corriqueiro e desagradável.
O termo faz referência ao desastre ocorrido em 26 de abril de 1986 na Usina Nuclear de Chernobil, no norte da Ucrânia, próximo à fronteira com a Bielorrússia. Com classificação de nível 7 (a máxima) na Escala Internacional de Acidentes Nucleares o único com o mesmo nível é o de Fukushima I, no Japão, em 2011. A explosão em Chernobil ocorreu durante um teste de segurança em um dos reatores e liberou quatrocentas vezes mais material radioativo do que o bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial. Uma combinação de falhas resultou em condições de reação descontroladas e causou a explosão no reator. O fogo só foi contido no dia 4 de maio. A fumaça tóxica foi lançada por partes da União Soviética e Europa Ocidental.
O número total de vítimas até hoje é uma incógnita, mas a ONU estima 31 mortes diretas, mais 15 mortos indiretamente até 2011, além de seis mil casos de câncer de tireoide e quatro mil fatalidades a longo prazo no mundo soviético relacionados ao desastre. Com isso, a estimativa é de que foram de nove a 16 mil mortes devido à contaminação pela Europa, tornando esse o acidente nuclear mais desastroso da História. A cidade de Chernobil ainda é uma cidade fantasma e sobre o reator 4, onde ocorreu a explosão, foi construído um sarcófago para reduzir a dispersão dos restos de poeira e detritos radioativos.
Essa semana, lendo a obra “Vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nuclear”, da jornalista e escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, peguei-me refletindo sobre como grandes crimes, desastres e tragédias acabam virando, em algum momento, motivo de chacota ou referências infelizes na internet, como as que têm circulado nas redes sociais sobre Chernobil. O livro apresenta relatos de vítimas do desastre. Esposas de bombeiros mortos durante ou logo após a contenção do incêndio, soldados, vizinhos e até crianças que vivenciaram, de alguma forma, Chernobil.
Esse nosso costume de relativizar a dor do outro não é uma exclusividade do desastre nuclear ucraniano. Essa é só a bola da vez. Quem não ouviu alguém dizendo, em tom de brincadeira, que é um escravo, só porque está trabalhando muito? Já ouvi também que uma escola com uma educação rígida parecia um campo de concentração, em alusão ao nazismo. Esses são só alguns exemplos de como brincamos com as dores históricas de maneira desproposital e sem a dimensão do que isso representa. São situações em que vidas foram perdidas e famílias destruídas de uma hora para outra. Sempre que uma vida é perdida, a humanidade se destroi um pouco mais. E sempre que brincamos com essas mortes, nós nos perdemos de nosso próprio senso humano.
Um dos personagens entrevistados por Svetlana Aleksiévitch afirma “Para uns, Tchernóbil é uma metáfora, um símbolo. Para nós, é a nossa vida”. Então, nesse novo ano, que tal tentarmos parar de medir a dor do outro com a nossa régua, brincar com a história das minorias e, ao invés disso estudar os eventos que marcaram o mundo, ouvirmos e respeitarmos o próximo? Seria, também, um bom exercício imaginarmos outras pessoas brincando com as nossas dores. Praticar a tão falada empatia e refletir sobre como nos sentiríamos.

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