Foto: mikoto/Pexels

As redes sociais nos abriram um mar de possibilidades. Podemos, agora, falar sobre tudo e sobre nada, com todo mundo ou com ninguém. Basta digitar o que estamos pensando e clicar em publicar. Num instante, aquilo está disponível a quem estiver disposto a consumir o conteúdo. E aquele que enviou a mensagem permanece protegido pelas telas de seus computadores ou smartphones. O conteúdo pode ser relevante, informativo, sagaz ou apenas uma postagem para entreter a nossa bolha social. As redes sociais são democráticas e o tipo de conteúdo produzido/consumido é a perfeita expressão disso. É incrível quando usadas com sabedoria e respeito ao próximo.

Em 2015, o escritor e filósofo Umberto Eco afirmou, em um evento no qual ele recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, Norte da Itália, que as redes sociais deram voz a uma “legião de imbecis”. Segundo o escritor, “normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”. Pareceu drástico à época, embora concordemos com o autor quando ele afirmou que a internet permitiu o direito à palavra a quem antes falava apenas em um bar, sem prejudicar a coletividade e agora essas pessoas falam tanto e a tanta gente quanto qualquer grande pensador ou comunicador.

Mas, embora as palavras de Umberto Eco tenham sido duras, elas têm seu fundo de verdade, sobretudo quando vemos as pessoas se utilizando das mídias digitais para destilar seu ódio sem filtro e gratuitamente. Vide as fake news que antes não passavam de fofoca entre vizinhos e agora se disseminam rapidamente com apenas alguns cliques. A proteção da tela criou uma legião de indivíduos que agora sentem-se no direito de ofender outros cidadãos despropositadamente e, inclusive, agredir com palavras ou ações simplesmente por se desgostar daquilo que viu ou ouviu.

Essa semana vivemos uma situação em que uma repórter nossa foi duramente ofendida quando abordou – muito educadamente – uma pessoa para fazer uma matéria acerca de um problema que aquele indivíduo estava tendo. Total falta de respeito e educação com alguém que procurava dar atenção à angústia de um cidadão. A hostilidade com que a mensagem foi recebida foi tamanha que deixou a profissional incrédula com o que estava recebendo na rede social pela qual contatou a fonte. Desnecessário e muito mal educado.

Poucos dias antes, durante o fim de semana, uma professora da Fundarte foi agredida fisicamente quando filmava uma manifestação, da qual discordava, em Porto Alegre. Violência gratuita, apenas por discordância de pensamento político.
As duas situações foram completamente lamentáveis e escancaram o quanto os nervos à flor da pele, associados à sensação de impunidade, criam seres incapazes de se fazer entender pelo argumento ao ponto de partirem para a violência – física ou verbal – como forma de impor suas vontades e provar uma superioridade inexistente.

Em um dos casos, a incapacidade de fornecer informações deu lugar à agressão verbal. Na outra situação, a falta de maturidade para lidar com o diferente fez com que a violência física fosse usada. Essas situações fazem com que a fala de Umberto Eco, que há quatro anos parecia drástica demais, seja involuntariamente confirmada pelos próprios atores nela citados.

Está na hora de repensar as ações e garantir o respeito a quem quer que seja. Afinal, respeito é um dos pilares de uma sociedade democrática e, felizmente, ainda vivemos em uma democracia.

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