Lá nos anos 1950, um rapaz começa a procurar emprego. Queria ser desenhista. Ele ouviu que deveria desistir. O menino conseguiu uma vaga em jornalismo e foi aprimorando a forma de contar histórias. Aos poucos, foi criando um universo próprio; protagonizado por quatro crianças que ao longo de 60 anos comemoram seus sétimos aniversários. Um coelho azul fofo, e que impõe respeito; cachorros, gatos e até um anjinho que desce das nuvens pra brincar com as crianças fazem parte desse lugar mágico.

O mundo criado por esse rapaz é tão grande que nele cabem todas as crianças, de qualquer lugar do mundo. E é tão especial que cria vida em uma pequena folha de papel; ou em alguns quadrinhos. Nele há um sítio na roça, bairros, cidade grande, pré-história e até outros planetas. Tudo na ponta de um lápis mágico, que há mais de seis décadas rabisca linhas até o infinito na imaginação de inúmeras gerações.

Quantos de nós não aprendemos a ler através das páginas de Turma da Mônica, do Cebolinha, do Chico Bento, do Cascão e da Magali? Já pensou em quantas e quantas vezes Maurício de Souza ouviu por aí que alguém o considera como um pai? Inclusive, este é o tema de uma crônica postada pela filha dele, Marina, que conta sobre o ciúme gigantesco que tinha do pai quando era criança. Ela achava inaceitável que outros o considerassem como um pai. Quando criança, não tinha ideia do impacto que ele causava na vida das pessoas, então olhava feio para as crianças que o abraçavam. Mas também sabia que isso fazia dele, ‘O PAI DELA’, alguém tão especial quanto a gente pode imaginar.

Essa semana, Maurício de Souza completou 85 anos. Faltam palavras para homenagear o criador de um mundo tão grande e mágico, que é capaz de fazer várias gerações permanecerem crianças, vivendo suas aventuras no Bairro do Limoeiro ou no Sítio da Vila Abobrinha. Lembro de, quando criança, sentar no quarto do meu padrinho, num piso de tábuas de madeira, ao lado da janela e recostada na cama. Era o meu momento. Ali eu pegava os seus gibis, entrava no bairro do Limoeiro e vivia todo o tipo de aventuras. Mônica era minha inspiração. Minha melhor amiga e um exemplo de que eu poderia ser o que quisesse.

Ela tinha sete anos, um coelho de pelúcia e era a Dona da Rua. Não levava desaforo pra casa e ninguém ousava tirar seu título. Ela brincava no campinho com os meninos – assim como eu, inclusive. Consegue imaginar como, lá nos anos 90; quando as meninas eram ensinadas a serem ‘Barbies’ perfeitas, maquiadas e magras, vivendo para a beleza; a Mônica foi uma importante inspiração de como ser independente e poderosa? Ela certamente foi importante fator de ‘empoderamento’, que saiu da cabeça e das vivências daquele menino que foi incentivado a desistir de desenhar.

O Monicaverso é tão vasto e importante para várias gerações, que se tornou um fenômeno no Brasil. Para se ter uma idéia, em 2011 a DC Comics declarou em seu blog que o primeiro volume do reboot dos quadrinhos da Liga da Justiça era o mais vendido do mundo naquele ano, com 200 mil exemplares. A nota logo foi desmentida pelo blog americano Bleeding Cool. Acontece que, no mesmo ano, a edição 34 da ‘Turma da Mônica Jovem’ vendeu 500 mil; e esgotando nas bancas.

Para mim, que cresci dentro do seu universo, ver Maurício de Souza no Instagram compartilhando momentos do seu dia a dia ou até lembranças de tantas décadas, são como pílulas diárias de felicidade. É até emocionante. Com um jeitinho que não é de influenciador digital, pensado para gerar engajamento e segurar o público; mas com a fofura de um vovô falando com seus milhares de netos de coração. Assim ele nos leva, entre uma lembrança do estúdio nos anos 60 e uma fotografia da bacia de Jabuticabas que ganhou de alguém ontem, ainda mais para o seu mundo.

Que bom que aquele menino não desistiu de desenhar. Imagina o mundo sem o Bairro do Limoeiro, os planos infalíveis e as milhares de coelhadas?

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