“Bandeira branca, amor
Não posso mais
Pela saudade
Que me invade
Eu peço paz”

Quando Dalva de Oliveira imortalizou esse clássico da música popular brasileira em 1970, com sua voz inconfundível, certamente não imaginava que mais de 50 anos depois o sentimento de impotência, saudade e o clamor por tranquilidade seriam ainda tão latentes. Naquele momento, a música despretensiosamente falava sobre amor, saudade e sobre a dor de não estar com “aquela pessoa”.

Hoje, as motivações são outras, mas a saudade aperta, o amor dói e ficar junto parece algo tão distante e intangível quanto os descaminhos dos enamorados de outrora. Hoje não hasteamos a bandeira branca para que a dor do amor passe e a saudade deixe de invadir o peito. Hoje, hasteamo-la num grito desesperado de socorro frente à imensa crise sanitária que vivemos.

Quem diria que 50 anos após Dalva de Oliveira nos encantar com sua voz, entoando Bandeira Branca, seria uma bandeira preta a nos fazer perder a paz com tanta saudade daqueles que amamos? Jamais imaginaríamos, há pouco mais de um ano, que estaríamos em uma situação em que ver as pessoas que amamos, comemorar nosso aniversário ou dar aquele abraço gostoso em quem realizou uma grande conquista seria impossível (ou, ao menos, bastante inconsequente).

A bandeira preta está hasteada sobre boa parte do nosso Estado e ela acende um baita sinal de alerta. Mesmo que ela esteja travestida de vermelho em uma cogestão que nos faz crer – falsamente – num abrandamento da situação, a realidade é de falta de leitos nos hospitais, contágio cada vez mais crescente da Covid-19 e a reclusão (mais uma vez) das pessoas consideradas de grupos de risco. Essas, que já estão há tantos meses sem sequer ver seus familiares; agora voltam à estaca zero pela falta de cuidados e responsabilidade da maioria que acarreta na contaminação até de quem está tentando se preservar, dentro das condições que lhe são possíveis.

A bandeira preta é como aquela caveira presente em frascos de venenos. Ela significa risco. Não apenas risco de pegar “uma gripezinha” ou a necessidade de “ficar em casa sem fazer nada”. É risco de morte mesmo! Risco de superlotar os hospitais com pacientes Covid e fazer inexistir leitos até mesmo para quem tenha qualquer outra comorbidade (como um infarto, por exemplo).

Pois é! Já pensou nisso? O novo coronavírus causa ainda mais óbitos do que aqueles que entram nas estatísticas – tão questionadas por negacionistas cegos por seus credos infundados. O vírus também é capaz de matar pessoas que sequer o contraíram, mas que foram vítimas do afogamento do sistema incapaz de absorver a inconsequência de muitos e a má sorte de outros tantos. E a culpa é de todos nós, que pensamos apenas em nosso próprio umbigo enquanto há idosos, pessoas com comorbidades e profissionais da saúde estendendo a sua bandeira branca e clamando por paz, já que não podem mais viver com tantas incertezas e com saudade do seu antigo normal.

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