Há alguns dias me deparei com a notícia de que o filósofo alemão Jürges Harbermas recusou um prêmio de um milhão de Diharms (R$ 1,4 milhão, na conversão). O reconhecimento é concedido nos Emirados Árabes Unidos a intelectuais de destaque mundial. Aos 91 anos, Habermas é um dos mais proeminentes pesquisadores da sua área. O filósofo e sociólogo é vinculado à teoria crítica desenvolvida na Escola de Frankfut. Sua contribuição à comunicação e à política é inquestionável, e o prestígio, merecido.
Vale lembrar que inicialmente o filósofo havia aceitado a homenagem, que depois considerou “um erro que estava corrigindo”. Mas o que levou o pesquisador a negar o polpudo valor? Segundo palavras dele mesmo, “não estava informado sobre o estreito vínculo entre a instituição que concede o prêmio em Abu Dhabi e o sistema político de lá”. Oficialmente, o prêmio é concedido pelo Sheikh Zayed Book Award, autodenominado uma “iniciativa cultural independente”. Há, de fato, uma comissão que escolhe juízes anônimos para nomear vencedores, mas constam autoridades de Abu Dhabi como tendo administrado o prêmio.

Acontece que há denúncias de tortura, como no caso do estudante de doutorado Matthew Hedges, que foi acusado de espionagem. O britânico foi preso em Dubai após viajar para os Emirados Árabes para realizar entrevistas sobre política exterior e a estratégia do país em segurança, tema da sua pesquisa. Posteriormente, Hedges recebeu o perdão de uma pena de prisão perpétua. Há outro fato controverso: os Emirados Árabes Unidos proíbem os partidos políticos e sindicatos, e têm a mídia local intimamente ligada ao governo com grande parte, inclusive, estatal.

É simples concluir que, tendo Habermas escrito textos muito influentes sobre direitos humanos, moralidade e democracia, não haveria sentido ele aceitar o prêmio de um país em que o herdeiro está sob investigação por acusações de tortura. Seria, no mínimo, incongruente com seu discurso. Esse fato, inclusive, gerou debates na Alemanha.

Mas há de se considerar que o prêmio é gordo e faria diferença na vida de qualquer um. Agora te pergunto: você aceitaria? Eu, sinceramente, não sei. A questão aqui é que a moralidade é sim algo a ser aplaudido e devemos ter, no mínimo, ações que coadunem com aquilo que pregamos, como foi o caso de Habermas. Mas até onde a moralidade consegue ir se não houver dinheiro para sustentá-la, sobretudo em um lugar onde viver é cada dia mais caro? É difícil pensar em recusar uma verdadeira bolada quando somos expectadores de tantas incertezas sociais. Mas o meu conforto vale a tortura de outro ser humano? Esses questionamentos não precisam ser feitos apenas nos casos tão extremos quanto esse. Pelo contrário. Devem fazer parte do nosso dia a dia nas pequenas ações. Comprar em um lugar que tem responsabilidade social e ambiental, por exemplo, é um ato de moralidade. Mas é preciso considerar que muitos desses produtos, por terem mais cuidados – sociais e ecológicos –, acabam sendo menos acessíveis. Entende? É importante pensarmos em sermos nossa melhor versão. Mas nem sempre é possível fazermos tudo o que acreditamos, simplesmente porque não podemos bancar.

Valores morais não devem ser vendidos, sob risco de um dia as injustiças se voltarem contra nós e estarmos sozinhos no deserto de uma falta de comprometimento instituída. Mas, então, perceba o mal que causa a desigualdade do alicerce deste sistema. Ela torna bem difícil condenar o ser humano que rouba “um prato de comida”. Os valores morais devem ser balizados ao lado das condições sociais e humanas que perpassam a sociedade na qual estamos inseridos. Defender posturas éticas é uma obrigação. Assim como ponderar as posturas de quem toma decisões conduzidas por suas mazelas é questão de consciência tão grande quanto.

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