Essa semana, arrumando nosso pequeno e nascente jardim Zen, aquele clássico, com pedrinhas brancas e estátuas do Buda, pensei para mim como andam as instituições religiosas hoje em dia. O quanto esse mesmo mestre, como tantos outros, estaria decepcionado.

Siddhartha, o Buda, em especial, era contra a institucionalização da sabedoria e da criação de dogmas. Esse foi um dos motivos para ter abandonado diversas vertentes religiosas durante sua busca pelo entendimento da vida. Tanta era a sua dedicação à descoberta individual, sem hierarquização que, de início, ele sequer queria ensinar sobre as nobres verdades que havia entendido. O Buda não queria criar uma religião, mas seus seguidores criaram, e, pior, institucionalizaram-na com dogmas, rituais e hierarquias.

Não muito tempo depois, outro grande mestre nasceu no oriente médio e também não tinha ideia de criar uma religião. Jesus, que andou e pregou sua palavra entre os mais diferentes grupos, sempre prezou pela libertação da lei humana, focando apenas nos ensinamentos de Deus. A institucionalização dos ensinamentos de Deus era chamada de “Obras da Lei”. Eram leis e regras criadas pelos sacerdotes Saduceus e Fariseus ao longo de anos. Essas leis, disfarçadas de leis de Deus, controlavam e oprimiam o povo Judeu e, segundo Jesus, afastando-os da verdadeira Lei, a qual ele vinha para dar pleno entendimento. E, veja bem, entendimento, não cumprimento. A Lei é perpétua, pois Deus não muda.

Por isso a Lei de Deus não deve ser vista como um dogma. Ela é a verdade de como a vida funciona, tal como as nobres verdades entendidas por Buda são as verdades de como a vida funciona. São ensinamentos e entendimento de como as coisas agem, de forma crua e real, sem a distração e a opressão de dogmas, regras e vestimentas engraçadas. Instituições religiosas são coisas humanas, não espirituais.

Recordo-me muito da frase atribuída ao escritor africano Alik Shahadah: “A religião é uma garrafa com um rótulo; a espiritualidade é o que está dentro dela. Muitos brigam pela garrafa, mas poucos bebem seu conteúdo”.

Hoje existem diversas vertentes de cada uma das grandes religiões conhecidas. A Igreja Católica possui, pelo menos, 23 denominações autônomas, com seu próprio rito, isto é, sua própria interpretação de como deve ser seguida a Lei (O que nada mais são do que “Obras da Lei” modernas). As Igrejas Protestantes possuem ao menos 12 denominações, onde cada uma tem também sua própria “Obra da Lei moderna”. E ainda existem as Igrejas Ortodoxas com mais de 16 ritos, além das Igrejas Restauracionistas, como os Mórmons, Testemunhas de Jeová e Adventistas. E ainda podemos incluir nessa lista, com algumas ressalvas, o Espiritismo Brasileiro.

E acima eu só citei os “cristãos”; porque mesmo o budismo possui mais de cinco escolas, como a Mahayana, Vajrayana, Hinaiana, Tibetano, Zen e o Shingon. Assim como o Islã também se ramifica em cinco grandes vertentes, como o Sunismo, Xiismo, Carijitas, Sufismo e o fundamentalista, que muitas vezes é o mesmo radicalista.

E então? Quem está certo? Qual a visão correta? De quem você vai beber o conteúdo?
Eu sinto muito, mas na prática, é fechar os olhos e pegar uma das garrafas da prateleira, porque todos eles têm certeza de que estão certos e todos tiveram diversas “experiências espirituais” que comprovam isso. Não há como definir o melhor ou pior tratando-se de vertentes e instituições religiosas. A religiosidade em si é algo lindo, mas a religião institucionalizada complica demais as coisas.

Há muitos anos um velho amigo me disse: “No início havia a espiritualidade, e todos viviam em harmonia; então veio o diabo e, odiando tudo aquilo, inventou a religião”.
Por isso, lembre-se de que todos trilham seus próprios caminhos, lutam suas próprias batalhas. Então aprenda a ser mais tolerante, seja mais humano.

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