Há muitos anos eu tive um vizinho que, todos os dias, ouvia o mesmo CD. Porém, ouvia em parcelas, porque deixava tocar somente uns quinze segundos de cada música. Parecia não ter paciência para ouvir todas elas por completo. Eu, e muitos amigos meus, pelo contrário, temos a tendência de ouvir uma mesma música até desgastá-la. Para, somente então, seguir para uma próxima.

Nos dias de hoje vemos muitas crianças e jovens diagnosticados com TDAH. Não sou eu, um mero mortal, que vou dizer se o psicólogo está, ou não, certo. Não é minha área, não cabe a mim. Porém, o que posso dizer, é que o mundo de hoje é rápido; É dinâmico e, acima de tudo, completamente poluído. Excesso de informação, de imagem, de som, de referências, de tudo! E, pior, com a velocidade alucinante da troca e da disponibilidade da informação, tudo parece ser “para ontem”. Isso, sem sombra de dúvidas, causa uma sobrecarga no sistema cognitivo de qualquer adulto, imagine de um jovem em desenvolvimento. Assim, como eu disse, não vou dar uma de psicólogo, mas posso afirmar que esse excesso, boa coisa não faz.

A dificuldade de se concentrar, de focar em um assunto, tarefa ou projeto, parece ser o molde padrão dos jovens de hoje. E, em um mundo confortável, com tudo estando literalmente na ponta dos dedos, qualquer dificuldade é um pretexto para desistir. “Não consigo”, “Não sei o que fazer”, “não é prá mim”. Poucos são os que encaram o desafio e, mesmo com todos os percalços, continuam e, assim, desenvolvem-se muito. E isso é crescimento.

Eu venho de um mundo, do fim de uma época onde a criança ainda produzia alguns próprios brinquedos. E isso me rendeu a criatividade frutífera que sei que tenho hoje. Tínhamos que ser imaginativos. Os jovens de hoje, de um modo bem generalizado, se encarassem as dificuldades de ontem, passariam os dias chorando, em choque, sem saber o que fazer. Sem um vídeo no YouTube para ensinar, ou um ebook com tutorial para baixar. Infelizmente a facilidade produz pessoas frágeis. E deveria ser o contrário. A facilidade deveria gerar tempo para que as pessoas pudessem investir em si mesmas e se tornarem emocionalmente mais fortes, mais habilidosas e mais criativas.

Esse excesso de informação não gera conhecimento porque o jovem não tem paciência para organizá-la, para entendê-la. Ele só sabe o fato, como uma enciclopédia ambulante, porque pode pesquisar no Google em questão de segundos. Porém, não faz ideia do que fazer com aquela informação. Ela é inútil para ele na grande maioria dos casos. É o jovem que consegue lhe dizer uma frase inteira em mandarim sem nunca ter estudado sequer um dia o idioma, mas não sabe como dizer “oi, tudo bom com o senhor?” para um estranho com quem precisa, por algum motivo, ter um contato. Muita informação, pouco conhecimento, menos ainda crescimento. E essa curva negativa de desenvolvimento cognitivo parece ser uma tendência forte, e nos deixa a visão assustadora de que, se as crianças são o futuro do mundo, o mundo vai se tornar cada vez mais um oco intelectual cheio de anedotas gravadas nas memórias eletrônicas de todos.

Isso não pode acontecer. Por isso estimule seus filhos, os jovens que conhece, a buscar mais profundidade no que aprendem; desenvolver a paciência e, acima de tudo, separar informações relevantes das inúteis, daquelas que podem gerar conhecimento das que somente servem para perder tempo. E assim, sim, haverá um mundo melhor lá na frente.

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