Quem me conhece sabe que estou sempre aberto a mudanças de posicionamento conforme novas evidências vão se apresentando. Estou sempre aprendendo. Ainda assim, existem dois assuntos sobre os quais, por hora, esgotei o filosofar e, nesse momento, não há nenhuma evidência no mundo que me faça questionar meu posicionamento. Um deles, sobre o qual vou falar hoje, é a legalização do aborto.

Quando decidi falar sobre o assunto, pensei que poderia perder muitos leitores, mas hoje sei que meus leitores são, de fato, muito inteligentes e de virtudes superiores ao ponto de não chegar a uma conclusão diferente da que cheguei. Afinal, não existe, até onde pude observar, conclusão mais humana.

Comecemos com ela: sou a favor da legalização do aborto. “Ah, então você é a favor do aborto!”. Não disse isso; disse que sou a favor da legalização do aborto. “Ah, então você é contra o aborto!”, também não disse isso. Confuso? Claro que não. Como eu poderia ser a favor ou contra algo que não tem impacto nenhum em mim? Algo que nunca farei e, obviamente, nunca precisarei decidir? Quem sou eu para querer julgar o que uma mulher faz ou deixa de fazer com seu corpo? “Ah, mas é uma vida!”. Não, meu caro, são duas! São duas vidas que têm grande chance de serem perdidas durante um aborto ilegal no fundo de um quintal, pois o aborto acontecerá, legalizado ou não. “Mas aí tem mais é que morrer mesmo!”, disse você, protetor da vida? Pois saiba que a legalização do aborto já se provou incrivelmente eficiente na diminuição destes, como visto em países mais desenvolvidos (e me refiro ao intelecto das pessoas que julgam) que o nosso.

Em países onde o aborto é legalizado, ele é feito em condições de higiene e permite que a vida da mãe seja mantida com muita segurança. “Ah, mas a vida da criança não tem valor?”. Se para você que julga, essa escolha parece horrível, para a mãe que escolhe, certamente é pior ainda. E, por mais que sua concepção julgadora, baseada em senso comum e não em evidências, ache que a mulherada vai sair fazendo filho e abortando como se trocasse de bolsa, esse não é o caso. A maioria esmagadora de abortos tem histórico de violência, seja estupro ou “estupro velado”, onde a pessoa é coagida de diversas formas a ter relações sem reciprocidade. Em países onde o aborto é legalizado, a queda no número destes se dá, principalmente, porque as clinicas legais contam com equipes de psicólogos e acompanhamento clínico que, em grande parte das vezes, acaba dissuadindo a mãe de praticar o aborto. Quando acontecem se dão quase exclusivamente por serem oriundos de estupros violentos, como o caso dessa semana, da menina de dez anos que, diferente dos “protetores da vida humana” que a condenaram, não vai poder ir para casa descansar de noite, provavelmente pelo resto da vida.

A legalização do aborto é comprovadamente a forma mais eficaz de salvar mais vidas, acreditem ou não. E não sou eu quem diz, é a estatística mesmo. E é por esse motivo, simples e, de fato, muito prático, que sou a favor da legalização do aborto, já que, sobre o aborto em si, eu não sou ninguém para julgar se está certo ou errado. Afinal, nunca fui estuprado violentamente por um homem mais velho para saber… Você já?

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