Desde muito jovem sei que tenho em meu sangue uma mistura muito forte de diversas etnias: alemão, italiano, indígena, judeu… Hoje, claro, tenho um pouco mais de informações sobre esses sangues e sei agora que tenho ascendência indígena Kaingang e, claro, de Judeus, tanto Asquenazita (no meu caso judeu-alemão) quanto Sefardita (Judeu da península ibérica).

Essa mistura de sangues é típica do Brasil, que sempre teve facilidade para a miscigenação e não leva muito a sério essa coisa de linhagem sanguínea. Infelizmente, como ônus, isso também pode fazer com que certas tradições familiares sejam perdidas com o tempo, como é o meu caso. Não tenho em minha família quaisquer resquícios do judaísmo além do sangue que corre nas minhas veias. Não varremos a casa dos cantos para o centro, não ascendemos velas aos sábados e nem ceamos a Pessach, isto é, a Páscoa original, quem dirá as celebrações de Sukot, Chanucá, Yom Kippur e tantas outras.

Porém, um termo que aprendi desde cedo a não usar, e realmente acredito que nunca usei e, de certa forma, incomodo-me muito ao ouvir, é “judiar”. Expressão muito comum aqui no Sul do Brasil. “Não judie da criança!”, grita a mãe ao ver o filho ser maltratado. Judiar, ou “tratar como judeu”, é um termo que possui nele as mesmas características de outras palavras tanto debatidas hoje, como “denegrir”, por exemplo; que, pejorativa ao povo de origem preta, traz em si um preconceito enraizado difícil de engolir. Judiar, ou tratar como judeu e, por isso, fazê-lo sofrer, é muito chato de ouvir. E falo por mim, que mal me identifico com essa parte do meu sangue, porque, de fato, sinto-me mais gaúcho, de um modo geral, do que alguma das etnias que sei que trago em mim. Então imagine como deve ser para um Judeu ouvir esse tipo de coisa, vindo de um povo que realmente sofreu. Um povo que foi expulso, caçado com crueldade e quase exterminado diversas vezes ao longo da história. E não me refiro aos tempos bíblicos, nem ao holocausto (que já seria suficientemente terrível), mas sim a toda a perseguição durante a idade média, durante a inquisição espanhola… e por aí vai. Os Judeus espalhados pelo mundo não o estão por vontade própria. Se pudessem, estariam todos em Israel, certamente. Não é a toa que toda a Pessach é finalizada com “no ano que vem, em Jerusalém”.
Palavras são poderosas, e mal usadas, podem destruir alguém. E essa é uma verdade que sempre soube existir e, por isso, faço o possível para medir minhas palavras sempre que abro a boca. Às vezes falo besteira? Claro que sim. É uma vigília constante. O importante é tentar o máximo que puder.

Por isso aprenda, leia, descubra o que está acontecendo no mundo. Afinal, ele evolui. E você? Vai acompanhar? O ser humano está aprendendo constantemente e, assim, novas formas de expressão vão surgindo, mais amigáveis, mais humanizadas, realmente. E velhas expressões pejorativas vão sendo extirpadas, com muito bom gosto, do nosso meio linguístico. E isso é bom, pois a língua é um reflexo do povo que a fala. E, quando nunca mais ouvirmos termos preconceituosos sendo usados discriminadamente, até ingenuamente como muito ocorre, saberemos que estamos diante de um povo mais humano. Por isso, aprenda, cresça e evolua.

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