De um garotinho que, com dois anos e dois meses, passou a acompanhar o time em campo até se tornar o “mascotinho” oficial, ao chefe do Executivo municipal, todos na cidade possuem algum laço com a equipe. Com uma narração passional, Rafael Henzel, 43 anos, passou a ser mais do que um comandante do microfone esportivo da rádio Oeste Capital ao se tornar um dos sobreviventes da tragédia e o primeiro a voltar a trabalhar.
Ivan Carlos, 56 anos, principal nome do time de narradores da rádio Super Condá, é um especialista em Chape. Nos próximos meses, completará 1.000 jogos transmitidos do Verdão em 31 anos de carreira.

Mas há também anônimos que torcem e trabalham para que o clube volte fortalecido depois de tudo o que ocorreu, como Selita Toscan, 60 anos, comerciante. Juntamente com uma série de voluntários, ela providenciou a confecção de um lote de 200 origamis, com mensagens de apoio, que foram entregues aos jogadores no vestiário antes do jogo contra o Palmeiras, no sábado.
Para Rafael, o aprendizado que ficou é de não potencializar os pequenos problemas, “não fazer uma tempestade em um copo d’água”. Ele recorda que a ligação com a Chape passou a ficar mais estreita a partir de 2011, quando retornou à cidade e comprou o futebol da rádio, passando a acompanhar unicamente a Chapecoense, dentro e fora de casa.

A esperança é que, quando a bola rolar, aos poucos, o sentimento de perda muito grande seja afastado. O torcedor está interessado no que está sendo feito…
Ivan Carlos – narrador da rádio Super Condá, que vai completar 1.000 jogos transmitidos da Chape

“Eu vi o escudo da Chapecoense sangrar, com a camiseta suja no barro”, aponta Rafael. Ele acredita que precisa levar a mensagem de reconstrução do time e que, com o início de uma nova temporada, a cidade irá renascer.

Também narrador, Ivan Carlos aponta que o clube e a crônica esportiva passam por um momento de reconstrução e que há uma expectativa grande na cidade em relação ao time. O narrador acredita que, em algumas posições, o grupo atual estará reforçado em relação ao que foi dizimado, embora não tenha a mesma base que aquele possuía. “A esperança é que, a partir do momento em que a bola rolar, aos poucos, o sentimento de perda muito grande seja afastado. O torcedor está interessado no que está sendo feito e não no que aconteceu há quase 60 dias”, completa.

O prefeito Luciano Buligon destaca que Chape tem uma gestão transparente, é um clube unido e leva o espírito de cooperativismo e associativismo, tão presente em Chapecó, ao pé da letra. “Quando o clube ascendeu à 1ª divisão, nós passamos a gostar de futebol”, resume o chefe de Executivo, que em diversas ocasiões viajou juntamente com a delegação.

Mascote oficial, Carlos Miguel Garcia, o Carlinhos, cinco anos, é uma atração à parte nos jogos. Com um cocar, o garotinho, que está na escolinha de futebol e sonha em repetir os passos do ídolo Danilo, assume o papel de Índio Condá. A alegria e o sorriso de Carlinhos são pura inspiração para todos.

Os novos guerreiros estão prontos

Um dos personagens de destaque na recuperação, o técnico da Chape, Vagner Mancini, defende que neste processo de recuperação o grupo precisa ser forte emocionalmente. Por isso, deve ficar muito atento dentro e fora de campo, nos momentos em que estiver atrás no marcador. “A preocupação é que isso não atrapalhe o rendimento”, comenta o treinador. Ambientado com o clube e a cidade, ele acredita que o torcedor do Verdão do Oeste já voltou a sorrir, mas a missão do clube nesta temporada tem muitas batalhas pela frente.

O técnico diz que o tamanho do desafio é proporcional à vontade de ajudar, e que as dificuldades estão em todos os cantos do clube, da cidade, mas que é preciso passar por cima com energia positiva e alto astral. “Qualquer um que chegasse aqui teria o maior desafio da carreira porque ninguém passou por isso. São desafios que mexem com a gente”, pontua o técnico.

O diretor de futebol, João Carlos Giovanaz, o Maringá, lembrou que os jogadores trazidos na remontagem do grupo foram escolhidos a dedo, ao se pronunciar na apresentação do atacante Wellington Paulista, ex-Ponte Preta, e do lateral-direito João Pedro, ex-Palmeiras. “Quem for bem este ano aqui terá um futuro brilhante aqui ou em um clube maior, porque a visibilidade será muito grande”, prevê.

Wellington lembrou que, antes mesmo do acerto final com a Chape, já demonstrou comprometimento com a nova casa, iniciando a preparação física antes do início da pré-temporada. “O meu empresário veio me dizer que tinham algumas propostas e uma delas exigia muita responsabilidade. Perguntei que clube era e ele disse que era a Chape. Acertamos os valores e nem quis saber os outros interessados”, destaca o atacante.

O jogador lembrou que, em sua chegada, encontrou um grupo chateado e cabisbaixo, mas, aos poucos, tem ajudado a levantar o astral. Afirmou que o grupo é bom e todos querem vencer. “Todos têm que correr e suar sangue em busca de resultado”, afirma.

Em processo de recuperação, o zagueiro Neto acompanhará do lado de fora o retorno do time a campo. A previsão dele é voltar ao futebol em seis meses. “A saudade é grande. O meu próprio filho não fala nada de bola. É preciso esperar o tempo certo”, resume.

Neto diz que o grande aprendizado de tudo que passou é ter fé em Deus, fazer o melhor, porque mais importante que deixar bens materiais é deixar um exemplo. “Um ser humano sem fé é fadado à morte. A vida passa muito rápido, tem que se agarrar com Deus”, coloca.

Já o vice-presidente administrativo e financeiro da Chape, Ivan Tozzo, destaca que a projeção é fechar o ano com 15 mil sócios. Hoje são 10 mil, sendo que antes da tragédia o número alcançava 8 mil associados. “Nós ganhamos muitos torcedores”, acrescenta.

Vendas em alta, sempre
Comprar material esportivo da Chape ou mesmo uma lembrança do clube na loja oficial, situada do outro lado da rua em que fica a Arena Condá, é um verdadeiro desafio. Isso porque a tragédia fez explodir as vendas de produtos oficiais e licenciados. O gerente da loja, Samuel Kappel, 20 anos, diz que a procura havia aumentado antes da tragédia por conta da campanha. “As vendas aumentaram 90% depois da tragédia”, informa. O item mais procurado é a camisa de jogo.

O uniforme oficial da temporada 2017 deve ser lançado neste primeiro trimestre. Fornecedora oficial, a Umbro não está conseguindo atender tamanha demanda. Neste ano, o escudo ganhou um novo design. As tradicionais quatro estrelas acima do escudo foram retiradas. No lugar dela, ficou apenas uma, simbolizando a conquista da Sul-Americana. Outra foi colocada dentro do escudo, em homenagem às vítimas da tragédia. “Já teve uma ocasião em que vendemos todo o estoque em um só dia”, afirma. O clube não informa quanto fatura por ano em ações de marketing e vendas de material oficial.

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