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Setembro é um mês importante para cuidar do bem mais precioso: a saúde mental. O Setembro Amarelo é uma campanha brasileira realizada desde 2015 pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), com o apoio do Conselho Federal de Medicina e da Associação Brasileira de Psiquiatria.

O nono mês do ano foi escolhido, pois desde 2003 o dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a cada 40 segundos uma pessoa tira a própria vida no mundo. Em 2016, o Brasil registrou 6,5 suicídios a cada 100 mil habitantes. Já o Rio Grande do Sul, no ano seguinte superou a média nacional, com 12,7 casos a cada 100 mil habitantes. De acordo com o psiquiatra da unidade de Saúde Mental do Hospital Montenegro, Ricardo Silveira, o Brasil é um dos dez países em que as taxas de atentados contra a própria vida são as mais altas. “Uma preocupação no caso do Brasil é que as taxas de suicídio no mundo estão diminuindo, e no País está aumentando. De 2010 a 2016, que foi a última verificação, aumentou 7%.”

O psiquiatra e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Hélio Rocha, revela com ajuda de estudos que quase a metade das pessoas que cometeram suicídio procurou algum tipo de atendimento médico pelo menos 30 dias antes do ato. “A rede de saúde precisa reconhecer os sinais de um comportamento suicida, fazer esse diagnóstico e saber agir. Deve-se fazer com que a pessoa se sinta aberta para falar, ela quer ser compreendida, e uma pergunta quando bem feita vale por muitas outras que não foram feitas”, explica o psiquiatra.

Psicóloga Juliana Kuhn afirma que o tratamento para a depressão é importante

Depressão deve ser tratada com atenção e suicídio, prevenido
Apesar de ser abordada como tabu, a depressão é uma das doenças mentais mais prevalentes na sociedade atual. De acordo com a psicóloga Juliana Kuhn, pessoas com depressão têm características específicas, o que não quer dizer que estejam depressivas. “A depressão pode se manifestar de diversas maneiras, como apatia, cansaço, sentir-se menos esperançoso. Alterações no sono, perda de interesse em atividades que antes davam prazer também são características importantes. Devemos olhar para essas características como um sinal de alerta para cuidarmos melhor da saúde, visto que elas só sinalizam um adoecimento quando aparecem em conjunto e em grande intensidade.”.

Depressão não pode ser tratada como frescura, merece atenção. Foto: Reprodução Internet

Apesar de ter cura, a depressão, se não for tratada, pode se tornar uma doença crônica. As pessoas acometidas podem passar longos períodos se sentindo bem mas, apenas um episódio pode acabar desestabilizando o paciente. Por isso, o tratamento é importante. “A melhor alternativa é o cuidado integral, não usar somente uma estratégia. Um bom exemplo é fazer psicoterapia. O uso de medicamento sob orientação médica e a realização de exercícios físicos também é uma combinação que pode ser eficiente para o tratamento da depressão.”, enfatiza a psicóloga.
Juliana lembra ainda que existem fatores que podem aumentar o risco de desenvolver a depressão, mas a presença destes fatores não contribui de forma integral para a doença. “Viver situações de perda (de um ente querido, de emprego), problemas financeiros, uso abusivo de álcool e outras substâncias, ter vivido situações de violência, de abuso, ter doenças crônicas, sofrer preconceito e/ou discriminação, entre outros, são alguns fatores que podem ser nocivos à saúde mental.”

Além da depressão, o uso abusivo de álcool e outras drogas pode potencializar a ideação suicida, alertam os médicos. Foto: Reprodução Internet

Abuso de álcool e drogas também é ameaça à saúde mental
Nem sempre o suicídio ou a tentativa está ligado à depressão, como normalmente relacionamos. Giovane dos Santos, psicólogo do Hospital Sagrada Família, de São Sebastião do Caí, afirma que doenças como dependência de álcool e entorpecentes também contribuem para o quadro suicida. “Ao fazer o uso de drogas, a pessoa pode se tornar dependente química, agravando o quadro de saúde mental. Quando percebe, caiu numa armadilha, agora sendo escrava de uma droga, além dos problemas anteriores de saúde.”

Estudos indicam que o suicídio relacionado ao uso de álcool gira em torno de 21% dos casos. É o segundo fator, depois das doenças psiquiátricas, que leva ao aumento de suicídios. “O abuso do álcool e das drogas pode intensificar alguma intenção suicida que a pessoa tenha, ou até colocá-la em risco impulsivo. Ela pode tomar atitudes impulsivas sob o efeito de drogas, e uma delas pode ser uma atitude impulsiva suicida”, afirma Jaqueline Porto, psicóloga responsável pelo Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Novo Horizonte, em Montenegro.

“São pacientes que apresentam risco maior. Quando o paciente tem depressão, é tratada somente a depressão. Quando o paciente é depressivo e também é usuário de álcool ou drogas, ele é um paciente com risco muito maior. A orientação é de prevenção. Acredito que espaços como o Setembro Amarelo consegue ajudar mais na conscientização das pessoas”, acrescenta a também psicóloga do Caps, Jaqueline Silva.

Percentual de crianças e jovens adultos com ideação suicida cresceu na última década. Foto: Reprodução Internet

É crescente suicídio entre crianças e jovens adultos
Nos últimos anos, a incidência de tentativas de suicídio por crianças e adultos jovens cresceu vertiginosamente. No mundo, o suicídio é a terceira causa de morte entre 10 e 14 anos. E aumentando muito a taxa de suicídio entre adultos jovens, de 15 a 29 anos. O sentimento de abandono, experiências com abusos físicos ou sexuais, desorganização familiar, vida online, junto com a fluidez de informações são alguns dos fatores que aparecem como motivadores.O cyberbullying também contribui muito para o suicídio entre os jovens.

Para Silveira, é necessário mais atenção ao comportamento dos jovens. “É uma doença facilmente reconhecida, facilmente diagnosticada. Os familiares estão notando, por exemplo, o adolescente se comportando diferente, mais deslocado, triste, fica só no quarto, está se cortando. Isso denota uma possibilidade de se atentar para o risco de suicídio”. Giovane acrescenta que o diálogo é importante. “É preciso tomar cuidado com as informações, depoimentos e desabafos nas redes sociais e internet, pois muitas vezes podem potencializar o agravamento do quadro. A maneira mais segura para obter ajuda é o diálogo com a família e a busca de profissionais capacitados tecnicamente para tratar uma pessoa que apresente ideação suicida ou risco de suicídio”, ressalta o psicólogo do Hospital Sagrada Família.

Os dados são tão alarmantes que a campanha do Setembro Amarelo deste ano, realizada pelo Ministério da Saúde em parceria com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos é focada em jovens de 15 a 29 anos. A intenção é estimular o jovem a compartilhar momentos com a família e amigos, conversar mais, fortalecendo a importância do diálogo. A iniciativa também reforça a necessidade de se atentar aos sintomas da depressão e de buscar ajuda. “A depressão muitas vezes é vista como excesso de drama e esse estigma é amplificado nas redes sociais, ambiente onde as pessoas estão sempre sorrindo, sem revelar seus problemas pessoais. Por isso, precisamos trazer as pessoas para o mundo real e falar de saúde mental.” declarou o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Entre 2015 e 2018, o Sistema Único de Saúde registrou um aumento de 52% nos atendimentos ambulatoriais relacionados à depressão e suicídio. Na faixa etária do público-alvo da campanha, o aumento foi de 115%. Esse crescimento pode ser consequência de uma maior procura das pessoas por assistência ou do aumento de casos na população.

Na região, há ajuda especializada
Ao identificar sinais de risco, as pessoas próximas e familiares devem ser acolhedoras e manter o diálogo aberto, oferecendo ajuda e incentivando as pessoas a buscar tratamento com profissionais de saúde. Na região, o Hospital Montenegro conta com 26 leitos em sua Unidade de Saúde Mental. Já o hospital Sagrada Família, em São Sebastião do Caí, conta com 32 leitos SUS e 20 leitos particulares e convênios em seu Centro de Saúde Mental.
O Centro de Atenção Psicossocial de Montenegro funciona com a política de portas abertas. Com cerca de mil atendimentos mensais, não é necessário o encaminhamento de um profissional. Lá acontece o acolhimento, feito por um profissional técnico (psicólogo, assistente social ou um profissional da enfermagem). No acolhimento, a pessoa é ouvida e através do relato, é decidido se o caso é realmente para o Caps (pessoas com transtorno mental grave, sofrimento mental grave e usuários de drogas e álcool em uso problemático são atendidas via Caps). Casos leves e moderados são encaminhados ao Ambulatório Interdisciplinar de Saúde Mental na Secretaria da Saúde.

Equipe do Caps Novo Horizonte está preparada para o atendimento a quem necessita. Foto: Arquivo Jornal Ibiá

Além destes serviços, também existe o Centro de Valorização da Vida (CVV). O centro presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo e anonimato. No estado, o telefone é 188, a ligação é sem custo e funciona 24 horas. O serviço também funciona pelo site cvv.org.br. O CVV está presente em 21 estados mais o Distrito Federal, com aproximadamente 3400 voluntários.

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