Estudo do Inca e do Ministério da Saúde teve como foco bebês com menos de um ano. Foto: Reprodução Internet

A proibição do fumo em locais públicos no Brasil evitou, em 16 anos, a morte de 15.068 crianças com idade inferior a um ano, contribuindo para a redução da taxa de mortalidade infantil. Isso porque os pequenos não ficaram expostos à fumaça com diversos elementos tóxicos. O dado está no estudo “Legislação de Ambientes Livres de Fumaça de Tabaco e Mortalidade Infantil”, lançado pelo o Instituto Nacional de Câncer (INCA) e o Ministério da Saúde.

O tabagismo passivo está relacionado a várias doenças na infância, como asma, bronquite, pneumonia e otites aguda e crônica, isso sem falar na síndrome de morte súbita. No mundo, o tabagismo passivo causa cerca de 880 mil mortes por ano, sendo que aproximadamente 54 mil ocorrem entre 0 e 4 anos.

O Distrito Federal e os estados brasileiros implementaram gradativamente, de 2000 a 2012, as chamadas “leis do ambiente livre da fumaça do tabaco”, com diferentes graus de proibição. Enfim, em 2014, foi regulamentada a lei federal de 2011, vetando o fumo em lugares fechados de uso coletivo. Em Montenegro, uma lei municipal restringindo a prática nos restaurantes, lojas e bancos foi sancionada em 1997. A proposta do então vereador Roberto Braatz foi aprovada por 9 a 1 na Câmara.

A redução da mortalidade infantil foi maior nas unidades da federação nas quais foram implementadas leis mais restritivas. Caso todas tivessem adotado, desde o início, a proibição total, outras 10.091 mortes de bebês com idade inferior a um ano teriam sido evitadas de 2000 a 2016.

A epidemiologista Liz Almeida, chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca e uma das autoras do estudo, destaca o fato de, antes da lei de ambientes livres de tabaco, bebês e crianças inalavam fumaça de cigarro em qualquer lugar com shoppings, supermercados, salões de festa, transportes públicos e restaurantes. “Os próprios pais e outras pessoas fumavam ao lado dos carrinhos de bebês, sem restrição. Agora, a exposição à fumaça do tabaco não ocorre mais nos locais públicos fechados, mas continua dentro das residências”, ressalva.

Pneumologista Luiz Carlos Corrêa da Silva

Medicamentos e mudança de comportamento
Parar de fumar está longe de ser uma tarefa fácil. Estatísticas apontam que menos 6% das pessoas conseguem ficar sem fumar depois de ano na primeira tentativa. O pneumologista e coordenador do Fumo Zero AMRIGS (Associação Médica do Rio Grande do Sul), Luiz Carlos Corrêa da Silva, explica que dois fatores estão relacionados ao tabagismo.

O primeiro é a dependência química, causada pela nicotina principalmente. O tratamento, em regra, é por reposição, com nicotina medicamentosa, disponível em adesivo, goma de mascar e pastilha no Brasil. Em outros países há, inclusive, inalável. A questão genética também influencia em diferentes graus.

A segunda é comportamental, sendo necessário, em primeiro lugar, motivação. Praticar exercícios físicos – o mais indicado é caminhada -, e manter uma dieta saudável contribuem para atingir o objetivo. Fatores como ansiedade e depressão, aponta o médico, estão entre os que levam ao vício. “As pessoas se acostumam a fazer uma sequência, a gente chama isso de gatilho. Toma um cafezinho, fuma, se incomoda, fuma, fica feliz, bebe e fuma. Isso faz parte da sociabilidade e do ambiente onde a pessoa convive”, explica. Em alguns casos, também é indicado psicoterapia com médico ou psicólogos, com capacitação no tema.

Uma dificuldade é a questão da ambivalência. O indivíduo pode se propor à meta de nunca mais por um cigarro na boca, mas, por outro lado, fica no inconsciente a ideia de precisar deixar para trás um hábito prazeroso. Isso costuma causar recaídas. O Projeto Fumo Zero foi iniciado em 2003 na AMRIGS, tendo como focos a proteção do fumo passivo, a prevenção do tabagismo, para evitar que o jovem inicie e se torne dependente, e o tratamento, para auxiliar os fumantes a pararem. O trabalho tem o apoio de todas as entidades e sociedades médicas interessadas no tema e da mídia.

Problemas em 700 milhões no mundo
As crianças, especialmente as mais novas, são muito prejudicadas quando expostas à poluição tabagística ambiental. Isso ocorre, frequentemente, em função do convívio com fumantes. Um estudo da Organização Mundial da Saúde, envolvendo 700 milhões de crianças que vivem com fumantes em casa (cerca de metade das crianças do mundo), mostrou que elas apresentaram um aumento de incidência de pneumonia, bronquite, exacerbação de asma, infecções do ouvido médio, síndrome da morte súbita infantil, além de uma maior probabilidade de desenvolvimento de doença cardiovascular na idade adulta. Nos casos em que a mãe é fumante, estima-se uma chance maior para infecções respiratórias e de ouvido médio do que nos casos em que a mãe não é fumante.
A inalação direta da fumaça proveniente da queima do tabaco e a exposição ao fumo passivo causam mais de 90% dos casos de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), e mais de 85% dos casos de câncer de pulmão. A fibrose pulmonar também tem forte relação com o tabagismo. Infecções são mais frequentes em fumantes. A tuberculose ocorre três vezes mais em fumantes.

Cigarros aumentam casos de asma, bronquite e pneumonia, entre outras doenças

Brasil é o segundo país no controle do tabagismo
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil foi o segundo país, apenas superado pela Turquia, no cumprimento de metas para o controle do tabaco e do tabagismo em espaços públicos e no auxílio a quem quer parar de fumar. Dados de 2018, obtidos pelo Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) mostraram que o tabagismo reduziu, mas persiste, principalmente, entre aqueles com menor escolaridade e baixa renda.

Os fumantes têm mais tosse, pigarro, falta de ar, infecções respiratórias, problemas bucais, e nasais, com o tempo, alto risco de câncer de pulmão, enfisema, fibrose pulmonar, entre outras.

Além disso, fumar é responsável por 29% das doenças cardiovasculares e aumenta em cerca de 25% o risco de morte por doença coronariana (angina e infarto) e por acidente vascular cerebral (AVC). O hábito também eleva em três vezes o risco de infarto agudo do miocárdio (IAM) e, em quatro, a possibilidade de morte súbita do indivíduo por causa cardíaca.

Ex-vereador Roberto Braatz

Lei em Montenegro surgiu por experiência do autor em banco
O vereador Roberto Braatz pensou no Projeto de Lei para restringir o fumo em Montenegro por sua experiência como servidor do Banco do Brasil, onde trabalhou por 29 anos. Até a década de 90, era comum pessoas fumando dentro da instituição. A fumaça causava desconforto. Os não-fumantes, sem responsabilidade nenhuma pela situação, estavam com a saúde em risco. O perigo era ainda maior para quem, como Braatz, passava boa parte dos dias dentro da agência.

Ele também se inspirou no debate sobre o assunto em Porto Alegre. Hoje, ressalta se sentir orgulhoso por ter contribuído para melhorar a qualidade de vida de muitos montenegrinos. Segundo ele, várias pessoas abandonaram o vício graças à lei. Também cita a iniciativa como precursora, inclusive servindo como exemplo para municípios da região.

Nas ruas, com em quase todo tema político, a população ficou dividida com a novidade. “Alguns donos de restaurantes ficaram agradecidos. Queriam pedir para as pessoas não fumarem e não tinham argumentos antes da lei. Outros reclamaram bastante por medo de perderem clientes”, lembra. Braatz critica o fato de esses comerciantes pensarem mais na questão financeira, deixando de lado o risco de sérios danos à saúde, inclusive a deles.
No banco, também houve descontentamento de parte dos colegas fumantes. Não faltaram narizes torcidos e caras sisudas para o vereador. Mas, com o tempo, houve a aceitação.

Perigo: 85% dos casos diagnosticados da doença são causados pelo fumo

Cigarro é responsável pela maioria dos cânceres de pulmão
O câncer de pulmão é o segundo mais comum em homens e mulheres no Brasil e o primeiro no mundo desde 1985, tanto em incidência quanto em mortalidade. Cerca de 13% de todos os casos novos de câncer são de pulmão. No fim do século XX, o mal se tornou uma das principais causas de morte evitáveis. Cerca de 85% dos casos estão associados ao consumo de derivados de tabaco, inclusive de forma passiva. A taxa de sobrevida relativa em cinco anos para a doença é de 18% (15% para homens e 21% para mulheres). Apenas 16% são diagnosticados em estágio inicial, quando a taxa de sobrevida de cinco anos é de 56%.

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