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A mortalidade pelo câncer de mama tem sido reduzida em vários países com programas organizados de rastreamento.
Foto: Fotógrafo Salomão Cardoso

Para a última matéria da série sobre o Outubro Rosa em 2020, mês de prevenção ao câncer de mama, o Jornal Ibiá convidou os médicos Mariana Kotz Müller e Enrico Mattana Müller para falarem sobre o tema. Os profissionais atuam tanto em Montenegro, no Hospital Montenegro e na Clínica Imavida Diagnóstica, quanto em Porto Alegre, na Clinoson.

Jornal Ibiá- O câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre mulheres no Brasil e no mundo. Quais fatores podem ser apontados como causadores ou colaboradores para o surgimento da doença?
Mariana Kotz Müller – De fato, o câncer de mama é o mais incidente em mulheres no mundo, representando cerca de 24% do total de casos em 2018, com aproximadamente 2,1 milhão de casos novos. Para termos uma noção de sua magnitude, o câncer de mama é a quinta causa de morte por câncer em mulheres e a causa mais frequente de morte por câncer em mulheres. No Brasil, se excluírmos os tumores de pele não melanoma, o câncer de mama também é o mais incidente em mulheres de todas as regiões. Para o ano de 2020 foram estimados 66.280 casos novos, o que representa uma taxa de incidência de 43,74 casos por 100.000 mulheres, sendo pesquisa do INCA, o Instituto Nacional de Câncer Do Brasil.
O câncer de mama não tem uma causa única, mas sim são diversos fatores que estão relacionados ao aumento do risco de desenvolver a doença, tais como: idade, história reprodutiva, fatores endócrinos, comportamentais, ambientais e fatores genéticos/hereditários.

– Como prevenir, indo além do autoexame? Qual profissional deve ser procurado inicialmente?
Enrico Mattana Müller – É importante também falarmos sobre o autoexame. Por definição, ele é o procedimento em que a mulher observa e palpa as próprias mamas e as estruturas anatômicas acessórias, visando a detectar mudanças ou anormalidades que possam indicar a presença de um câncer.
Em geral, recomenda-se que a periodicidade do autopalpação seja uma vez por mês e uma semana após o término da menstruação, caso a mulher esteja no período reprodutivo. Apesar da grande difusão do ensino do método de autoexame na segunda metade do século 20, há dois grandes ensaios clínicos que além não conseguirem comprovar sua eficácia, demonstraram existência de riscos à saúde associados à sua prática. Assim devido consistência dos resultados nos últimos dez anos, o ensino do autoexame deixasse de ser recomendado no meio acadêmico e pelos programas de rastreamento na maior parte do mundo.
Ainda que tenha sido desestimulado na última década, não se deve subestimar a importância de a mulher permanecer alerta para o aparecimento dos primeiros sinais e sintomas do câncer de mama e procurar uma avaliação médica o mais cedo possível. Contudo, o autoexame não substitui os exames periódicos. A mulher, especialmente entre os 40 aos 74 anos, deve consultar regularmente o médico, ou seja, pelo menos uma vez ao ano. Na consulta médica, o profissional irá conversar com a paciente para conhecê-la, a fim de definir qual o grau de risco em que a paciente se enquadra, para determinar qual a melhor estratégia de exames complementares deverá ser adotada.

JI- Qual a importância de um diagnóstico precoce?
MKM- A mortalidade pelo câncer de mama tem sido reduzida em vários países com programas organizados de rastreamento. Um programa organizado de rastreamento favorece o diagnóstico precoce. E a detecção precoce beneficia as mulheres de várias formas: sendo através de cirurgias menores; aumentando as possibilidades de cura, reduzindo os custos finais do tratamento e mantendo ativa uma faixa importante da população feminina. Desta forma, são fundamentais todos os esforços que favoreçam o diagnóstico precoce do câncer de mama. É fundamental o acompanhamento médico periódico.

“É importante falarmos sobre o autoexame”, diz Müller. Fotos: Fotógrafo Salomão Cardoso

JI- Exames como ultrassonografia de mama e mamografia são indicados a mulheres a partir de qual faixa etária e de quanto em quanto tempo?
EMM- Como dito anteriormente, a avaliação da mulher deve começar com uma consulta médica, onde o médico irá conversar com a paciente para conhecê-la, a fim de definir qual o grau de risco que a paciente se enquadra, baixo ou alto.
Alguns dos principais grupos de mulheres classificadas como alto risco são: mulheres com mutação dos genes BRCA1 ou BRCA2, ou com parentes de 1° grau com mutação provada; mulheres com risco ≥ 20% ao longo da vida, calculado por um dos modelos matemáticos baseados na história familiar; mulheres com história de terem sido submetidas; mulheres com diagnóstico de síndromes genéticas que aumentam o risco de câncer de mama (como Li-Fraumeni, Cowden e outras) ou parentes de 1° grau acometidos. Para essas o rastreamento deve ser individualizado caso a caso, podendo incluir começo do rastreamento mamográfico aos 30 anos.
A maioria da população feminina encontra-se classificada como baixo risco. É importante salientar que há divergências entre o entendimento do rastreamento, nesse grupo, do câncer de mama entre as posições do Ministério da Saúde (MS), o que impacta em pacientes que tem seu atendimento pelo SUS e das sociedades médicas.
O Ministério da Saúde recomenda o rastreamento de baixo risco seja feito com a mamografia em mulheres com idade entre 50 e 69 anos. A periodicidade do rastreamento recomendada pelo MS é bienal, ou seja, de dois em dois anos. Contudo, seu manual cita que periodicidade bienal não deve ser entendida como um intervalo rígido, mas sim um valor aproximado.
As sociedades médicas publicaram em 2017 uma recomendação conjunta (composta pelo Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, da Sociedade Brasileira de Mastologia e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) para o rastreamento do câncer de mama, onde defendem: rastreamento anual com mamografia para as mulheres entre 40 e 74 anos, preferencialmente com técnica digital; a partir dos 75 anos recomendam o rastreamento com mamografia, preferencialmente digital, para as mulheres que tenham expectativa de vida maior que 7 anos, baseada nas comorbidades.
Quanto à ultrassonografia mamária, não existem dados que deem suporte para o rastreamento do câncer de mama com a ultrassonografia isolada. A ultrassonografia deve ser considerada como adjunta à mamografia nas mulheres com mamas densas.

JI-A possibilidade de recuperação de mulheres com câncer de mama é alta? E o que deve ser feito para que a doença não reincida?
MKM- Sim, é considerada de até 95% se a doença é detectada cedo. Contudo, independentemente da taxa de sobrevida e do estadiamento, as implicações físicas e psicossociais decorrentes do adoecimento geralmente estão presentes. Esse fato que exige um tratamento multidisciplinar da equipe de saúde, com um plano de cuidado voltado à reabilitação da mulher. Trata-se de um processo global e dinâmico orientado para a recuperação física e psicológica da mulher acometida pelo câncer, tendo como objetivo tratar ou atenuar as incapacidades causadas pela doença e tratamento, a reintegração social e a qualidade da sobrevida. Uma boa adesão ao tratamento está associada a menor taxa de progressão da doença.

JI- Algumas mulheres têm adotado a mastectomia preventiva como forma de evitar o surgimento de um possível câncer de mama. Essa prática é indicada? A que grupo de mulheres se recomenda?
EMM – Esse é um tema polêmico. A adenomastectomia bilateral, que é nome científico da cirurgia, pode ser considerada uma medida profilática. Ou seja, é uma prevenção em casos de risco aumentado para câncer de mama. A técnica usada, basicamente, consiste na retirada das glândulas mamárias, deixando pele, aréolas e mamilos. Importante lembrar que essa cirurgia pode ter complicações.
A cirurgia pode ser indicada em pacientes com história familiar, onde parentes de primeiro grau, mãe ou irmã, apresentam o câncer principalmente por volta dos 50 anos de idade ou menos, especialmente em mulheres com mutação dos genes BRCA1 ou BRCA2, ou com parentes de 1° grau com mutação provada. De acordo com o instituto americano, o National Cancer Institute, a mastectomia profilática em mulheres que carregam uma mutação do gene BRCA1 ou BRCA2 pode ser capaz de reduzir o risco de desenvolver câncer de mama em 95%. Em mulheres com um forte histórico familiar de câncer de mama, a mastectomia profilática pode reduzir o risco de desenvolvimento de câncer de mama em até 90%.

JI- Comente um pouco sobre o câncer de mama em homens, por favor.
MKM- O câncer de mama também acomete homens, porém é muito raro, representando apenas 1% do total de casos da doença. Dentre os sinais e sintomas do câncer de mama em homens temos: protuberância ou inchaço, geralmente (mas nem sempre) indolor; pele ondulada ou enrugada; retração do mamilo; vermelhidão ou descamação da pele da mama ou do mamilo; inchaço nos linfonodos axilares. O diagnóstico do câncer de mama masculino é feito da mesma maneira que o feminino, através de mamografia e ultrassonografia. A diferença é que, como os homens têm menos tecido mamário, o nódulo geralmente é mais facilmente palpável e mais próximo do mamilo. O tratamento da doença pode incluir cirurgia, quimioterapia, radioterapia e hormonioterapia.

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