Para identificar o problema, é preciso ficar atento aos sintomas muitas vezes negligenciados pelos médicos

Desde muito cedo – diferente dos homens – as mulheres iniciam um ritual anual de visita à ginecologista para garantir não só a saúde, mas também o bem-estar sexual. No entanto, mesmo diante de constantes transformações sociais, a sexualidade da mulher e seus desdobramentos permanecem verdadeiros tabus. Como consequência desse comportamento, surgem as dúvidas e medos em relação às alterações ou perturbações no seu ciclo de resposta do prazer feminino, as chamadas disfunções sexuais, que impedem a vivência de uma vida sexual satisfatória e gratificante.

Desde 1983 a Organização Mundial de Saúde (OMS) já relatava que a sexualidade humana e uma boa vida sexual fazem parte dos 4 pilares na saúde do indivíduo, os quais interferem diretamente na qualidade de vida da população. Para entender mais sobre as disfunções sexuais, a especialista em fisioterapia pélvica, Luisa Meurer, explica que é preciso compreender primeiro sobre sexualidade feminina e sua função.

“Sexualidade feminina é uma interação de vários fatores: emocionais, culturais, psicossociais. Há uma relação direta com a forma como a mulher se reconhece, como ela se sente, como se identifica com sua identidade de gênero, como está sua satisfação física e emocional, entre outras respostas envolvidas”, disse a fisioterapeuta. “Já a função sexual é um ciclo de resposta psíquica e física que pode sofrer interferências, dividida em 4 fases: desejo, excitação, orgasmo e resolução.”

De acordo com a especialista, as disfunções sexuais referem-se às alterações ocorridas em alguma dessas fases da resposta sexual. “Algo só poderá ser considerado como uma alteração ou disfunção quando entendemos qual é o funcionamento esperado”, acrescentou Luisa.

Esse tipo de problema afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Há estimativa que entre 40 a 50% das mulheres em algum momento da vida possam apresentar algum tipo de disfunção, o que gera um grande impacto na qualidade de vida e nas relações interpessoais.

No Brasil, a prevalência de disfunção sexual chega a atingir 49% das mulheres na faixa etária dos 18 anos ou mais, e 67% das mulheres na meia-idade (40 a 65 anos) apresentam alguma alteração diretamente relacionada com as fases do ciclo de resposta sexual.

Conheça cada fase desse ciclo e entenda sua importância:

Desejo sexual:
está relacionado o quanto a pessoa pensa em sexo de maneira prazerosa, de forma espontânea ou a partir de um determinado estímulo, seja pelo parceiro ou por fantasias sexuais. Considerada a primeira resposta, a qual vai se intensificando e passando para a resposta da excitação.

Excitação sexual:
está mais ligada as respostas na região íntima. O primeiro sinal de excitação sexual é o surgimento da lubrificação vaginal, além de alterações como o aumento dos pequenos lábios e do clitóris. Caso o estímulo sexual for mantido e a mulher se sentir inserida no contexto e sentir prazer, como resposta haverá um pico máximo na excitação que irá culminar com o orgasmo.

Orgasmo:
a mulher sente intensas e rítmicas contrações na região genital em decorrência das contrações da musculatura dessa parte do corpo, sendo que a primeira é mais intensa e em seguida ocorrem outras com menor intensidade. Da mesma forma, há uma descarga hormonal e uma grande ativação cerebral durante esta fase, assim, o orgasmo pode ser alcançado por duas maneiras: clitoriano e ou com penetração vaginal.

Resolução sexual:
etapa em que o organismo feminino volta ao seu estado inicial. Nesta fase as mulheres podem ser novamente estimuladas e há a possibilidade de orgasmos múltiplos, diferente da resposta sexual masculina em que o homem precisa esperar mais tempo para tal finalidade.

Dor durante a relação sexual não é normal
“Quando perdi minha virgindade, com meu primeiro namorado, foi horrível, achei que precisaria de mais confiança na pessoa para ter relação sem dor”, disse uma paciente da fisioterapeuta pélvica Luisa Meurer, que preferiu não se identificar. “Acho que somente um ano depois de estar namorando com meu esposo percebi que não era normal.”

Desconforto na hora do sexo, alterações nas regiões íntimas e dores durante as penetrações. Esses são alguns sintomas muitas vezes negligenciados pelos médicos e encarados com sofrimentos pelas mulheres. Estudos têm demonstrado incidências alarmantes sobre disfunções sexuais femininas, revelando que 33% das mulheres apresentam diminuição de desejo sexual, também denominado de desejo hipoativo.

Além disso, a falta de informação e a forma como questões relacionadas à sexualidade da mulher são tratadas dificultam o diagnostico precoce e o início do tratamento correto.

“No meu caso, o médico anterior disse que era só para eu relaxar que não tinha nada alterado”, recorda a paciente, que reforça a importância de procurar ajuda profissional. “Se for preciso, trocar o ginecologista, pois alguns desconhecem e estão

Para quem enfrenta o problema, sentir dores nas regiões íntimas é um sintoma recorrente

desatualizados.”

Ler bastante sobre o assunto e não desistir está entre as recomendações de quem conhece o problema de perto. “Estou com meu parceiro, hoje marido, há 7 anos e sempre procuramos, de alguma forma ajuda de outras pessoas. No momento estou fazendo fisioterapia pélvica por indicação do meu outro ginecologista, e entre as minhas muitas tentativas essa está dando certo, claro com muita paciência e ajuda do meu esposo”, relata a paciente.

Atenção aos sintomas
Embora existam diversas disfunções sexuais, algumas são mais comuns entre as mulheres. Saiba quais e aprenda a identificá-las:

Dispareunia:
sua incidência apresenta grande variação, sendo definida como uma dor genital associada à relação sexual, principalmente durante a penetração. Esta disfunção pode acontecer em qualquer fase da vida causando sofrimento e dificuldade no relacionamento.

Vaginismo:
dificuldade recorrente ou persistente em haver algum tipo de penetração em canal vaginal (mesmo a mulher tendo desejo e resposta sexual adequada), espéculo (exame ginecológico), dedo e absorvente interno. O vaginismo é uma contração involuntária da musculatura do assoalho pélvico no seu terço inferior, sempre que houver alguma tentativa de penetração no canal vaginal, em resposta protetora ele se fecha.

Vulvodínia:
sintomas normalmente citados e identificados são: dor em queimação, ardência vulvar de intensidade e ritmo variados, vermelhidão, sensação de fisgada na região. Normalmente nesta disfunção há uma alteração na sensibilidade vulvar, piorando os sintomas ao contato. A dor pode ser constante ou ocasional e durar meses ou até mesmo anos. Normalmente está disfunção torna o contato íntimo extremamente desconfortável e até mesmo andar de bicicleta, usar calça justa pode incomodar.

No Brasil, a prevalência de disfunção sexual chega a atingir 49% das mulheres na faixa etária dos 18 anos ou mais.

As causas são indefinidas
As causas ainda não estão bem definidas, podendo ser multifatoriais: dor neuropática, fatores genéticos, disfunções na musculatura do assoalho pélvico, alterações hormonais, alterações nas terminações nervosas da região vulvar. Além disso, questões psicológicas e sociais também podem influenciar diretamente.

Buscando ajuda médica

Luisa Meurer, especialista em fisioterapia pélvica

É importante buscar ajuda de um ginecologista caso os sintomas de alguma disfunção sexual apareça. O especialista irá avaliar se o caso tem alguma relação física ou se é puramente psicológico e passará o tratamento mais adequado para o problema. Nesse caso, é necessário um apoio multiprofissional, sendo fundamental uma interação entre as especialidades: ginecologista, fisioterapeuta pélvico, psicólogo especializado em sexualidade e nutricionista, entre outros.

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