Fotos: reprodução internet

“(…) E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela se esquece…”
Nos versos da canção Clarisse, de Renato Russo, o artista descreve um fenômeno cada vez mais presente na vida de adolescentes ao redor do mundo: a automutilação. Definido como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo, sem intenção suicida e por razão não social ou culturalmente compreendidas, o problema preocupa os profissionais da psicologia.

Apesar de ser amplamente difundido pela internet, no campo científico o tema não possui muitos estudos, o que chamou a atenção da psicóloga montenegrina, Mara Cristiane von Mühlen. “Se você procurar sobre o assunto nas redes sociais, irá perceber uma grande quantidade de grupos e páginas que estimulam a prática através de desafios, entre eles, quem faz o corte mais profundo ou a maior poça de sangue”, revela Mara, especialista em Psicopatologia e Dependência Química.

“Nesse cenário, existem muitos aspectos envolvidos, como por exemplo, a questão de pertencimento, que geralmente acontece quando um adolescente pratica a automutilação como forma de se sentir aceito por determinado grupo. Em outros casos, há questões relacionadas a conflitos familiares, falta de comunicação e problemas individuais”, explica a profissional, que está desenvolvendo uma pesquisa sobre o assunto em Montenegro.

No Brasil, não existem estatísticas oficiais sobre o fenômeno, contudo, estudos internacionais chegam ao mesmo número e indicam que 20% dos jovens sofrem desse mal em todo mundo. Segundo o Centro de Valorização da Vida (CVV), a maior prevalência vai da pré-adolescência até a idade do adulto jovem, ou seja, dos 12 até os 30 anos. Em relação a gênero, os estudos apontam que há uma inclinação maior entre as meninas, mas, em alguns países, essa estatística é igual para ambos os gêneros.

São muitos e variados os meios que podem ser utilizados na automutilação, sejam com lâminas de barbear, facas, queimaduras, tesouras, mordidas, entre outros. Nas lesões praticadas repetidamente, existe, na maioria das vezes, uma forma de controlar determinadas emoções.

“Nesse sentido, a dor física ajuda a aliviar a dor psíquica, já que quando você tem uma dor física muito forte, o cérebro libera endorfina [substância que atua como analgésico] e ajudar a amenizar as duas dores de uma só vez”, explica a especialista. “Temos que começar a nos questionar sobre o que tudo isso representa e tentar entender o que quer mostrar essa geração que fere o próprio corpo para aliviar um sofrimento”.

Montenegro terá pesquisa sobre o assunto
Diante da escassez de dados e estudos científicos sobre o fenômeno, a psicóloga Mara Cristiane está desenvolvendo uma pesquisa detalhada sobre o tema em Montenegro. Intitulado “Prevalência e função da automutilação não suicida entre adolescentes escolares da rede pública municipal de Montenegro”, o projeto de Mestrado busca analisar os comportamentos mal-adaptativos dessa faixa etária no município.

A especialista conta que o interesse pelo tema surgiu a partir de um trabalho realizado em uma escola de Canoas, onde fazia atendimentos psicológicos aos alunos. “No grupo que eu trabalhava, formado por aqueles estudantes com históricos de agressividade e indisciplina [os considerados problemáticos], comecei a perceber os constantes relatos de automutilação”, disse Mara. “Isso me chamou atenção, então levei a ideia para minha orientadora que aceitou a proposta”.

O estudo consiste em fazer um mapeamento na cidade sobre o problema através da aplicação de questionários para todos os alunos do 5º ao 9º ano da Rede Municipal de Ensino. No total, serão 1.403 estudantes com idades entre 10 e 19 anos.

“Por isso a importância de os pais assinarem os termos de consentimento para que os filhos possam participar do estudo”, ressaltou Mara. “Como parte do processo, iremos fazer um cruzamento de dados para saber o que está influenciando esses jovens para que seja feito algo frente ao problema.”

Para que o levantamento seja o mais próximo possível da realidade, é necessário que todos os alunos participem. “Eu só vou entender o percentual da cidade em relação à automutilação se todos os alunos participarem, já que a ideia é mapear aqueles que estão fazendo em comparação aos que não estão”, observou a pesquisadora.

Buscando ajuda
Conforme a literatura da psicologia aponta, melhorar a comunicação entre pais e filhos é essencial para lidar com o problema, além disso, dar mais espaço para que os adolescentes digam o que pensam, sentem e gostariam. “Isso não significa tirar limites, mas sim olhar, conversar e ser presente na vida dos adolescentes”, observa Mara.
Em relação à prevenção, é fundamental a ajuda psicológica, seja na rede pública de saúde ou privada. “O importante é oferecer os suportes necessários para qu

A depressão, assim como traumas, abusos e falta de habilidades sociais de comunicar sentimentos estão entre as causas do problema.

e esses adolescentes se sintam seguros e capazes de enfrentar o problema”, completou a psicóloga.

Fatores associados
De acordo com a especialista, não existe uma causa e efeito quando se trata de automutilação entre os adolescentes, mas sim fatores associados que ajudam a compreender um pouco mais o problema. “Depressão pode estar envolvida, assim como traumas, abusos, falta de habilidade social para comunicar sentimentos e de espaços de diálogos com adultos, como pais e professores”, disse Mara Cristiane von Mühlen.

Apesar da definição, a automutilação não suicida pode levar a morte, como explica a psicóloga. “Por se tratar de ferimentos, entre os meninos as consequências podem levar ao suicídio, uma vez que eles possuem mais força e fazem cortes mais profundos”, alerta Mara.

Conforme as análises preliminares da pesquisa, através dessa prática os adolescentes buscam chamar atenção dos pais, aliviar um sofrimento ou externar uma carga de raiva. “Eles não estão conseguindo canalizar esses sentimentos para uma coisa assertiva e acabam ferindo o próprio corpo”, explica Mara.

Na busca das raízes do problema, as dúvidas ainda disparam frente às poucas certezas, contudo, as transformações sociais dos últimos anos podem ajudar a compreender a mudança no perfil dos adolescentes. “Atualmente, essa faixa etária não possui muitas formas de extravasar e recebe uma bomba de informações prontas através de celulares, o que pode refletir sobre os diferentes significados de vida”, completou a psicóloga.

Atenção aos sintomas
Todas as práticas de se machucar de propósito exige atenção especial. Entre as sintomas mais recorrentes estão os cortes nas pernas, nos braços, espetadas de agulhas no corpo, isolamento, mudança repentina de grupos na escola, roupas inadequadas em relação clima, entre outras características.

“Muitas vezes os adolescentes usam roupas compridas [mesmo no calor] para esconder os ferimentos de pessoas próximas, por isso, é de extrema importância ficar atento aos sinais do problema”, orienta a psicóloga.

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