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A doação de sangue, algo vital para a sobrevivência de milhões de pessoas por todo o planeta, precisa avançar no Brasil com urgência. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o ideal é cada país ter entre 3% e 5% de sua população como doadora frequente. Aqui o índice fica em 1,8%, enquanto em alguns países da Europa atinge cerca de 7%.

Com o objetivo de alterar esse preocupante cenário, surgiu em junho de 2014, o Junho Vermelho, idealizado pelo Movimento Eu Dou Sangue. Primeiramente realizada em São Paulo, a campanha atingiu nível nacional e, atualmente, envolve todos os Hemocentros do País. Durante a iniciativa, a cor vermelha ilumina instituições públicas e privadas, prédios históricos e monumentos em diferentes regiões.

Debi Aronis, fundadora do Eu Dou Sangue

Junho também tem o Dia Mundial do Doador de Sangue, celebrado no dia 14 junho, nessa sexta-feira. O mês, costumeiramente, registra baixas temperaturas, aumento na incidência de infecções respiratórias, temporada de provas em universidades e escolas e marca o início das férias escolares. Isso tudo ocasiona quedas significativas nos estoques dos bancos de sangue, públicos e privados.

Embora as pessoas fiquem menos propensas a saírem de casa, a rotina dos hospitais não se torna mais tranquila. Continua acelerado, por exemplo, o atendimento de vítimas de acidentes de trânsito e da violência urbana até os portadores de doenças que requerem transfusões sanguíneas com frequência. Entre elas o câncer, anemia falciforme e outras patologias, incluindo os procedimentos cirúrgicos de alta complexidade, como transplantes e cirurgias cardíacas.

As fundadoras do Movimento Eu dou Sangue, as irmãs Debi Aronis e Diana Berezin, tiveram uma motivação bastante particular para se engajarem na causa. Em 2001, o pai delas, Francisco Dziegiecki, teve câncer de pulmão (30 anos após deixar de fumar) e precisou receber várias transfusões de sangue durante as sessões de quimioterapia.

“Nós descobrimos que não era tão fácil quanto imaginávamos. O Banco de Sangue pedia para, se a gente pudesse, repor o sangue utilizado. E tentávamos mobilizar as pessoas e dizia ‘ah tá, se der eu vou’ e, muitas vezes, não iam.

Além disso, o pai delas sempre foi muito envolvido com as questões comunitárias e ações de voluntariado. As irmãs, por isso, viram na criação do movimento uma forma de homenageá-lo. Francisco faleceu no mesmo ano, vítima da doença.

Dois anos depois, Debi teve um câncer ósseo e precisou tirar uma parte da fíbula da perna direita e também precisou de transfusão de sangue. “Quando a enfermeira entrou no quarto para dizer que eu tinha usado X bolsas de sangue e se a gente pudesse repor através de algum conhecido, eu olhei para o meu marido e comecei a chorar. A enfermeira não entendeu porque eu estava chorando, porque a cirurgia já tinha sido feita, até perguntou se eu era testemunha de Jeová, porque eles não permitem doação”, conta, aos risos. “Para mim, naquele momento como o fechamento de um ciclo, não tem como explicar exatamente”, explica. Neste caso, foi mais fácil conseguir voluntários.

Fundadora conhece o tema
Apesar de não ser da área da saúde, a escritora Debi Aronis tem muito conhecimento sobre doação de sangue. Cita como um dos maiores problemas o fato de não haverem doadores frequentes. “Não adianta levar um milhão de pessoas para fazer uma doação ao mesmo tempo. Sangue tem prazo de validade. Uma bolsa de sangue gera quatro hemocomponentes diferentes, porque eles são separados. Então é separada a parte vermelha, hemoglobina, do plasma. Do plasma, ainda se tira um pouco de plaquetas”, ensina. “A bolsa de sangue de hemácias, por exemplo, tem prazo de validade de três meses. A de plasma congelada a -180 graus tem validade de um ano. As plaquetas duram cinco dias. Então, precisamos estar sempre repondo para os estoques dos bancos de sangue não ficarem defasados”, argumenta.

30% de aumento
A campanha Junho Vermelho, que já foi alçada à categoria de lei em vários estados, como no Rio Grande do Sul, e cidades do Brasil, busca chamar a atenção para a importância da doação regular de sangue. O sucesso da iniciativa é comprovado pelos números registrados durante as outras edições. Em 2018, o Movimento Eu Dou Sangue calculou, extraoficialmente, que houve aumento de 30% das doações no mês de junho, em relação a 2017.

Reinaldo agradece pela graça alcançada também com a colaboração dos amigos, colegas de trabalho e até desconhecidos

“Um gesto humano, fraterno”
O jornalista e repórter do Jornal Ibiá, Reinaldo Alnei Ew, sentiu na pele a importância da doação de sangue. Na tarde de 12 de outubro de 2017, dia de Nossa Senhora Aparecida, ele recebeu a notícia tão aguardada de ter sido encontrado um doador para, finalmente, conseguir realizar o transplante de rins. Ele sofria de glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF). A doença causa insuficiência renal crônica.

O procedimento ocorreu na madrugada do dia 13, no Hospital Dom Vicente Scherer, no Complexo Santa Casa de Porto Alegre. E assim que entrou na fila de espera, a instituição já pediu que convocasse doadores para colaborar com o estoque do banco de sangue. O mínimo sugerido é um grupo de 20 pessoas, meta alcançada com sobra, graças à consciência dos amigos e familiares, organizados através do Facebook.

“O ano de 2017 marcou minha vida pela notícia que precisaria de um transplante de rins. Se isso já era preocupante, estar ligado nas máquinas de Hemodiálise três vezes por semana era depressivo. Mas é interessante saber que, naquele momento, entre outros apoios importantes, os voluntários que foram doar sangue em meu nome na Santa Casa foi um acalento. Um gesto humano, fraterno, que veio de algumas pessoas totalmente desconhecidas. Foi um ‘abraço’ que renovou minha esperança, dando novo ânimo para seguir firme naqueles dias incertos”, comenta, agradecido.

Outro aspecto relevante é como o Sistema Único de Saúde (SUS) é exemplo nesses casos. O rim veio de um doador de 57 anos de Curitiba, no Paraná. O tratamento também foi todo gratuito, em uma instituição referência. Atualmente, Reinaldo está recuperado, voltou ao trabalho e leva uma vida normal, administrando os medicamentos conforme as indicações médicas.

Fator cultural, desconhecimento e falta de disposição de sair de casa são causas

Diversos motivos fazem as pessoas não contribuírem
Derbi Aronis ressalta existir uma série de motivos para a resistência de algumas pessoas em doar sangue. Uma delas ela atrela a questão cultural, ligada à história recente do País. “Apesar de vivermos em uma sociedade violenta, que pode ser comparada a uma guerra civil, a guerra mesmo nós, brasileiros, graças a Deus, nunca vivemos. Em países da Europa, que participaram da I e II Guerras, e outras guerras regionais, os índices de doação são muito altos, porque as pessoas ainda se lembram como era necessário”, explica. Aqui também não há terremotos, por exemplo. “Temos tragédias suficientes, mas não que acabem envolvendo para esta necessidade”, resume.

Outros aspectos são o desconhecimento, medo de agulha e a dificuldade de ir até o hemocentro sair do conforto do lar ou do trabalho para realizar a ação. “Porque toma tempo. Ainda que a doação seja rápida, é preciso se deslocar até o banco de sangue, responder a um questionário, fazer uma triagem até doar sangue”, salienta. Isso é mais complicado em cidades do porte de São Paulo, por exemplo, onde a ação leva em média duas horas.
A fundadora do Movimento salienta a importância de aumentar o número de doadores frequentes. “Se cada pessoa colocasse no seu calendário anual, ‘eu vou doar sempre no meu aniversário’, ou no ‘aniversário dos meus filhos, no Natal’. Marca na sua agenda anual algumas datas que são relevantes para você e usa como forma de homenagear alguém”, conta.

Ela ressalta a importância de realizar o ato de amor. “Sangue não tem raça, não tem sexo, não tem religião, não tem time de futebol. Doar sangue é um ato de cidadania. E cidadania não é só bater panela e sair em manifestação da esquerda e da direita, não faz diferença. Você está fazendo algo para o bem comum, ajudando quem você nem conhece”, ressalta.

Onde é possível doar
Os hospitais de Montenegro recebem sangue do Hemovale, em Lajeado. O hemocentro fica localizado junto do Hospital Bruno Born, na Avenida Benjamin Constant, 881, no Centro. O telefone é (51) 3748-0442. O horário de atendimento é das 7h30min às 14h de segunda-feira a sexta-feira, sem fechar ao meio-dia. E, aos sábados, das 7h30min às 11h. A doação leva por volta de 40 minutos. É indicado que após a coleta a pessoa permaneça no local por mais 15 minutos e faça um lanche. Depois, ela deve evitar fazer esforço físico por 12 horas.

Quem preferir também pode doar em hemocentros de outras cidades. Em Porto Alegre, vários hospitais fazem coleta. O hemocentro do Complexo Hospitalar da Santa Casa atende de segunda-feira a sexta-feira, das 7h30min às 18h e aos sábados das 7h30min às 12h. A Santa Casa de Porto Alegre fica localizada na Av. Independência, n° 75. O telefone é 3214-8025.

Fique atento
Para doar é preciso pesar no mínimo 50 kg.
Estar alimentado e evitar alimentos gordurosos 3 horas antes da doação também é indicado.
É preciso apresentar documento com foto.
A frequência máxima é de quatro doações anuais para o homem e de três doações anuais para a mulher. O intervalo mínimo deve ser de dois meses para os homens e de três meses para as mulheres.
* Para os menores de 18 anos, é necessário o consentimento dos responsáveis e, entre 60 e 69 anos, a pessoa só poderá doar se já o tiver feito antes dos 60 anos.

Veja alguns mitos que devem ser esclarecidos:
1 – Diabéticos não podem doar sangue?
Mito: Diabéticos podem doar sangue sim, desde que a doença esteja controlada apenas com alimentação ou hipoglicemiantes orais.
2 – Posso doar sangue todo mês?
Mito: A doação de sangue deve ser realizada com intervalo mínimo de 60 dias para homens e 90 dias para as mulheres. Nosso corpo precisa de um prazo para se recompor totalmente após a doação.
3 – Idosos não podem doar sangue?
Mito: Desde 2013, houve aumento na idade máxima dos doadores de sangue pelo ministério da saúde. Atualmente, é permitido a doação de sangue por pessoas que possuam entre 16 e 69 anos.
4 – A doação de sangue é proibida a pessoas que possuem piercing e tatuagem?
Mito: Apenas pessoas com piercing na cavidade oral ou órgãos genitais não podem realizar a doação, pois são locais mais suscetíveis a infecções do que outras áreas do corpo. Após a realização de tatuagens ou colocação de piercing nas demais regiões do corpo, a doação pode ser feita após um ano, pois é o tempo adequado para manifestações de doenças contagiosas que possam ser transmitidas pela agulha.
5 – Quem doa sangue uma vez terá de doar para sempre, pois a doação pode “engrossar” ou “afinar” o sangue?
Mito: Se você doar uma vez, não será obrigado a doar sempre, essa é uma decisão voluntária. Da mesma forma, a doação não influencia na consistência do sangue.
6 – Quem usa remédios contínuos não pode doar sangue?
Mito: Uso de medicamentos será analisado. O importante é informar o tipo de remédio que faz uso contínuo ou se usou algum medicamento, como analgésicos ou anti-inflamatórios, nos últimos dias. Quem toma anticoncepcional, anti-hipertensivo (a maioria deles) ou diurético, pode doar normalmente.

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