Substâncias tóxicas estão sendo liberadas com rapidez no País. Foto: Pixabay

O consumo de alimentos com agrotóxicos pode levar a graves problemas de saúde. Integram a lista tonturas, cólicas abdominais, náuseas, vômitos, dificuldades respiratórias, tremores, convulsões, desmaios, coma e até mesmo a morte. As intoxicações crônicas — aquelas causadas pela exposição prolongada ao produto — podem causar paralisias, lesões cerebrais e hepáticas, tumores, alterações comportamentais, entre outros. Em mulheres grávidas, podem levar ao aborto e à malformação do bebê.

O assunto é tema de debate há anos, mas ganhou mais destaque no Brasil após as medidas tomadas no governo Bolsonaro para a liberação de novos defensivos agrícolas, seguindo uma tendência iniciada em 2010. As substâncias são utilizadas, principalmente, no combate a pragas nas lavouras.
Para o engenheiro agrônomo com mais de 25 anos de atuação em atividades de extensão na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Sebastião Pinheiro, o caminho a ser adotado é exatamente o oposto do traçado pelo Governo Federal. Isso passa pelo consumidor assumir o papel de protagonista na discussão e exigir o direito à alimentação saudável e qualidade de vida.

Pinheiro afirma existir, no mundo inteiro, mas especialmente no Brasil, uma falta de atenção à saúde. “Todo mundo está sendo exposto a uma quantidade absurda de venenos, tóxicos perigosos, e não existe uma preocupação de governo, Estado e órgãos públicos. Então, as pessoas têm que começar a exigir uma mudança e a fazer a sua alimentação de uma forma diferente”, defende.

Sebastião Pinheiro aponta falta de preocupação do Estado com o assunto. Foto: Divulgação

Atualmente, existem diversas alternativas à produção com o uso de defensivos agrícolas. Entre elas estão farinhas de rochas (regular a acidez), biofertilizantes (adubo orgânico líquido), biochar (melhora as características físicas do solo) e agrohomeopatia (homeopatia na agricultura). “O envenenamento que está acontecendo no mundo inteiro é sistemático. Se você quiser comer bem, precisa construir este comer bem. E nós estamos fazendo isso, partindo para uma agricultura onde as pessoas possam proteger a sua saúde, da sua família e criar um sistema alternativo de comercialização”, salienta.

No Rio Grande do Sul, onde há cerca de 600 feiras orgânicas, isso é realidade há mais de 40 anos e cresce em ritmo acelerado no País. “Apesar de que as empresas que vendem veneno e os governantes que participam desta corrupção não querem isso. Querem que a gente continue comendo veneno para vender mais remédio, dar crescimento econômico etc, etc”, crítica.

Sebastião também ressalta ser necessária a conscientização de certos responsáveis pela produção e venda de produtos orgânicos. “Em alguns supermercados (de Porto Alegre), o quilo do arroz orgânico está R$ 30,00, um absurdo”, revela. A proposta deve ser diferente, na visão dele, a de proporcionar a possibilidade de compra também dos cidadãos menos privilegiados.

Consumo de produtos sem agrotóxicos preserva a saúde

Especialista critica liberação de novos produtos
O agrônomo Sebastião Pinheiro diz estar assustado com a permissão para o uso de cada vez mais substâncias tóxicas no pais. De acordo com o Greenpeace, desde o início do mandato de Bolsonaro, 290 produtos foram liberados. Isso não chega a ser exatamente uma novidade, pois a tendência iniciada ainda durante o governo Lula.

O especialista é firme ao fazer uma análise das ações tomadas até aqui. “A postura dele é de uma pessoa despreparada, incompetente, que não tem interesse em seguir as normas internacionais. Estamos trabalhando em ausência total de Estado com responsabilidade. Estão sendo coisas absurdas nesta área de alimentos, agrotóxicos e a agricultura. Uma ministra (da Agricultura, Tereza Cristina) vem a público dizer que os venenos aqui são mais seguros do que os usados em outros países. Quando o mundo todo já se diminuiu muito uso de veneno no mundo, no Brasil não há aplicação da lei”, acusa.

Em entrevista à agência Brasil nessa semana, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, argumentou que a liberação de agrotóxicos não coloca em risco a saúde dos consumidores nem o meio ambiente. Segundo ela, a liberação de registro para que novos produtos sejam usados no País foi acelerada, mas as exigências continuam as mesmas.

“Não mudou nada, o que mudou, somente, foi a celeridade. Foi colocado mais gente no Ministério da Agricultura, pesquisadores da Embrapa que vieram ajudar essa fila [de pedidos de registro]. Foi colocado mais gente no Ministério de Meio Ambiente, também a fila anda. E a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] resolveu pegar esse assunto em que o Brasil está muito atrasado em relação a outros países”, disse após participar da abertura do Congresso Brasileiro do Agronegócio.

Montenegro recebe palestra sobre agroecologia nesta segunda-feira
Sebastião Pinheiro palestra sobre “Agricultura Agroecológica: Produtores e Consumidores Conscientes para uma Alimentação Saudável”, nesta segunda-feira, dia 12, às 19h30, em Montenegro. O encontro gratuito acontece no Café da Família Kettermann, junto à Igreja Episcopal Anglicana de Montenegro (rua Osvaldo Aranha, em frente à Casa do Produtor Rural). O evento é uma realização do Foro Regional de Agroecologia.

A fala do engenheiro agrônomo e escritor terá como base a sua obra mais recente “Agroecologia 7.0 – Bombeiro Agroecológico”, que inclusive será lançada no evento. O autor iniciou carreira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1990, na Pró-Reitoria de Extensão Universitária; e, posteriormente, no Núcleo de Economia Alternativa da Faculdade de Ciências Econômicas, enquanto também militava junto a movimentos sociais da terra.

A autoria foi dividida com o geólogo Valcyr Carpenedo, doutor em Agronomia, docente na Escola Estadual Técnica de Agricultura de Viamão (ETA); e do geólogo Solón Barreto, pioneiro na produção de farinha de rocha (MB-4) da América.

O Foro é uma organização da sociedade civil, com participação de profissionais liberais, agricultores orgânicos e biodinâmicos, consumidores e membros da Emater. Há mais de um ano o Foro se reune em toda segunda segunda-feira, no salão da Igreja. Inicialmente, visava somente a venda direta entre produtores e consumidores, mas o mesmo foi se ampliando em virtude da temática que envolve questões muito além da mera relação de consumo. Hoje o debate tem aprofundamento em questões relativas à saúde, economia solidária, organização comunitária, saneamento e sustentabilidade.

Duas técnicas
Farinha de rochas
A principal função é regular a acidez que evolui durante todo o processo de fermentação, além de contribuir com outros minerais úteis. Na medida em que o solo recupera sua composição em grande quantidade ou porcentagem de matéria orgânica, ele exercerá um efeito tampão e regulador de PH do terreno cultivado.

Foto: Internet

Biochar
Melhora as características físicas do solo (estrutura e textura) o que facilita a distribuição das raízes, a aeração, a absorção de umidade e de calor (energia). O seu alto grau de porosidade beneficia a atividade macro e microbiológica da terra, ao mesmo tempo que funciona como um tipo de ‘esponja sólida’ em que possui a capacidade de reter, filtrar e liberar gradualmente nutrientes úteis às plantas, diminuindo as perdas quando, uma eventual lavagem da terra acontecer.

Exposição em pode levar até a morte
O uso inadequado e o consumo em excesso de agrotóxicos expõe os consumidores a diversos riscos à saúde. A especialista em Nutrição Clínica, Oncológica, Enteral e Parenteral, Cristiane Junges, cita a alimentação saudável e a ingestão frequente de água como formas de atingir maior qualidade de vida.
A profissional ainda salienta o fato de uma dieta sem defensivos agricolas permitir a absorção dos nutrientes dos alimentos sem nenhuma sustância química. Nesta entrevisa, Cristiane fala, entre outros assuntos, sobre o porquê de os produtos orgânicos serem mais caros e faz uma análise sobre o número de produções onde a agroecologia é valorizada Brasil. Confira:

Jornal Ibiá- Quais os benefícios de uma dieta sem agrotóxicos à saúde?
Cristiane Junges – Para investir em nossa saúde, nada melhor que ter uma alimentação saudável e praticar atividade física. É importante nutrir-se de cinco a seis vezes ao dia com uma alimentação rica em proteína, carboidrato, frutas e verduras. Com isso, também há adequada entrada de fibras, auxiliando no funcionamento do trânsito intestinal. Lembrando que o banho é uma prática diária, também precisamos nos limpar internamente, tomando de 25 a 30 ml de água por quilo de peso. Esta recomendação, torna-se ainda mais valiosa quando conseguimos ingerir alimentos livres de agrotóxicos. Desta forma, recebemos a riqueza nutricional sem nenhuma substância que possa trazer dano à saúde.

JI- Por que o uso desses elementos prejudica a saúde? Que tipos de problemas podem ser causados?
Cristiane Junges – É comum o uso de agrotóxicos na agricultura, geralmente, usados para evitar algum tipo de praga em uma plantação. Esses produtos acabam sendo utilizados inadequadamente, gerando riscos à saúde das pessoas. As mortes e intoxicações pelo uso desses produtos acabaram tornando-se uma grande preocupação e problema de saúde pública. Os riscos são grandes e podem ocasionar problemas em curto, médio e longo prazo, a depender da substância utilizada e do tempo de exposição ao produto.
É importante, dar-se conta que a intoxicação por agrotóxicos pode ocasionar tonturas, cólicas abdominais, náuseas, vômitos, dificuldades respiratórias, tremores, irritações na pele, nariz, garganta e olhos; convulsões, desmaios, coma e até mesmo a morte. As intoxicações crônicas — aquelas causadas pela exposição prolongada ao produto — pode gerar problemas graves, como paralisias, lesões cerebrais e hepáticas, tumores, alterações comportamentais, entre outros. Em mulheres grávidas, podem levar ao aborto e à malformação do bebê.

JI- De uma maneira geral, o número de produções que valorizam a agroecologia é considerado positivo, na sua avaliação, ou precisa crescer muito?
Cristiane – A agroecologia visa a criação de uma produção de alimentos que seja socialmente justa, economicamente viável e ecologicamente sustentável. Sendo um princípio básico o uso consciente de recursos, que evita o desperdício. Percebe-se que aqui não aparece a lucratividade, bem como o enriquecimento tão perseguido pela nossa sociedade. Então, na minha percepção ainda há a necessidade da consciência maior do nosso ambiente e uma visão do futuro, levando este pensar adiante.

JI- Por que produtos orgânicos costumam ser mais caros?
Cristiane Junges – Há várias razões para isso, tais como o fornecimento destes alimentos é limitado em relação à demanda por eles. Os custos de produção tendem a ser maiores, porque eles exigem mais trabalho por unidade de produção. O manuseio pós-colheita de quantidades relativamente pequenas desses alimentos têm um custo mais elevado especialmente durante o processamento e transporte. A cadeia de comercialização e distribuição de produtos orgânicos é um tanto ineficiente e os custos são mais elevados, porque são relativamente distribuídos pequenos volumes.

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