Quem não conhece Tamara Maria Flores pode achar que a frase é exagerada. Quando se está frente a frente com ela, compreende-se que é a realidade. Aos 34 anos, Tamara cria William Gabriel Pacini, 9 anos, um filho especial. A situação de Tamara e Willian é exemplo de algo infelizmente comum no Brasil: quando nasce uma criança com necessidades especiais, nem sempre o pai encara o desafio. Não são poucas as histórias de mães de crianças com deficiência que criam os filhos sozinhas.

Com pouquíssima participação do pai do menino, de quem é divorciada, é Tamara quem se multiplica para conseguir vencer as dificuldades. “Me sinto uma Mulher Maravilha. Quando olho pra ele, no fim do dia, e está dormindo, banho tomado, barriguinha cheia, eu penso que o dever daquele dia foi cumprido”, resume. Planejado, William tinha tudo para vir ao mundo saudável, mas um problema no parto o levou a ficar 28 dias na UTI. “Esperaram demais para desistir do parto normal e ir para a cesariana. Eu nem o vi, o levaram na hora em que nasceu”, relata Tamara. Ela teve alta, mas William foi transferido de Montenegro para o São Camilo, em Esteio, onde conseguiram vaga na UTI Neonatal. “Levava horas até chegar lá e via ele todo cheio de canos”, recorda a mãe.

William sobreviveu e veio para casa. Tempos depois, Tamara soube que as sequelas seriam para a vida toda. “Um dia, no banho, ele bateu a mão na parede salpicada e não chorou. Ali nós, eu e o pai dele, estranhamos”, recorda a mãe, citando fato ocorrido aos quatro meses de vida. A confirmação médica só veio com um ano e meio, quando ele fez uma tomografia e teve o laudo de paralisia cerebral. Depois, aos três anos, após uma crise, souberam que o menino sofria também de epilepsia de difícil controle, que só se manifesta no sono. “É Deus que chama e eu me acordo”, diz Tamara.

As dificuldades de saúde de Willian acabaram por interferir no casamento. “Querendo ou não, dava mais atenção ao filho”, conta. A proximidade do pai e do menino terminou. “Pai só é pai quando está com a mãe. Longe não. Apesar do Willian idolatrar o pai mesmo assim”, diz Tamara. Hoje ela diz que o antigo companheiro não aparece, mesmo se chamado por uma crise de William. “Paga pensão, quando paga. Chegou a ficar oito meses sem ver o filho, num período que nem a pensão pagou”, diz, relatando que a família chegou a passar dificuldades sérias, com apenas arroz para comer. “Comecei a vender o que tinha na casa”, diz a mãe. Esse período ocorreu quando William não recebia do governo os medicamentos de alto custo, e isso pesava no orçamento, mesmo com a pensão em dia. Hoje, por via judicial, Tamara recebe do governo a medicação.

Tamara era auxiliar de produção, mas abandonou a chance de uma carreira para cuidar do filho. Tudo que William precisa, busca oferecer com o valor da pensão e do benefício do INSS. Nada “extra” o pai fornece. “Páscoa, Natal… nada disso existe. Era para ele ter vindo buscar o filho nesta Páscoa. Não veio”, conta ela. Com idade mental de quatro anos e meio, William não entende o que se passa. “Eu nunca vou cortar esse vínculo. Ele é pai”, finaliza. Em meio a dificuldades, o menino vai aprendendo, evoluindo e crescendo cercado pelo amor e dedicação da mãe. Todo o esforço é retribuído por William, com o carinho que demonstra por ela.

Na escola e na vizinhança
Dizem que, aos olhos da mãe, o filho será uma eterna criança. No caso de Tamara e William não é diferente. Aliás, as diferenças servem apenas para reforçar laços. Como toda criança, William “dá trabalho” e tem seus momentos de teimosia. Se não quer, cruza os braços e diz um sonoro não. Daí é preciso alguma negociação. Mas, com jeito, Tamara sabe como lidar com o filho, oferecendo limites e amor ao menino. Ser mãe, é bom lembrar, nem sempre é só sorrisos. Há os momentos difíceis. Talvez por isso, Tamara não pense em aumentar a família junto do atual companheiro, com quem William tem uma boa relação. “Não pretendo ter mais. Nem penso nisso”, comenta.

É que, por sua condição especial, William exige bastante atenção, da mãe e também do atendimento escolar para conseguir se desenvolver. O menino estudava na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Professora Maria Josepha Alves de Oliveira, da localidade de Porto dos Pereiras, onde, como destaca Tamara, sempre foi tratado com bastante zelo pelas professoras e diretora. Após bastante espera, no entanto, William recebeu vaga na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), instituição à qual ainda está se adaptando.

“Ele às vezes não quer fazer alguma atividade ou não fica sentado, diz não pra algo que pedem. Na outra escola, já sabiam como lidar com ele”, relata a mãe. Na nova instituição, há a dificuldade de mudanças no horário, já que lhe foi sugerido que William ficasse na escola um período reduzido. “Pediram que ele fosse mais para o meio da tarde, pela integridade dele e dos outros. Mas nesse horário é ruim porque tenho outras coisas pra fazer e também pelo custo, já que não consigo o transporte”, argumenta a mãe. Algumas reuniões ainda devem ocorrer para ajustar os horários educacionais de William. A mãe espera que ele siga na escola de Porto dos Pereiras, onde já estava adaptado e, vá para a Apae fazer um atendimento específico. Todos desejam que ele consiga desenvolver suas habilidades da melhor maneira possível.

Na vizinhança, o menino é aceito por todos e anda livremente. Ele brinca com as outras crianças e só não circula mais porque a mãe teme pela sua segurança. “Não deixo mais ele ir longe. Mas é por medo de algum estranho. Seria assim, mesmo que ele não tivesse nenhuma deficiência”, garante Tamara.

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