A maioridade é encarada por muitos jovens como a “libertação”, a independência. Tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), ir às festas com classificação para 18 anos sozinho, responder por si só. Tudo isso parece encantar os jovens da atualidade. Tá certo que os tempos mudaram (muito), nem sempre funcionou e funciona dessa forma. Por vezes, a vida do adolescente que num piscar de olhos se torna adulto, continua a mesma, só com um ano a mais nas costas.

Gabriele de Carvalho, 17 anos, é a prova de que, muitas vezes, é necessário ter grandes responsabilidades antes mesmo dos 18 anos. Já na infância, aos 9 anos, ela perdeu a mãe em um acidente de carro e teve de ajudar a cuidar do seu irmão, que tinha 4 anos. Seu pai, marinheiro, fica mais fora de casa em função do trabalho. “Sinto falta de uma imagem materna na minha vida, mas minha família sempre esteve muito próxima, meu pai me deu muito auxílio”, diz. “E eu também tenho uma tia muito próxima, que considero quase mãe”, complementa.

É lógico que, com a mãe ao lado dos filhos, tudo fica mais fácil. Para Gabriele, não teria sido diferente. “Em alguns momentos, eu pensava que, se ela estivesse aqui, a vida seria mais ‘prática’”, acredita. Mas ela deixou os filhos cedo e, segundo a garota, isso também exigiu uma responsabilidade e compromisso maiores para com a família e, principalmente, com o irmão.

No quesito maioridade, a jovem acredita que só há uma vantagem: liberdade. Pessoalmente, a razão principal é para tirar a CNH, poder comprar um veículo e se deslocar a outros lugares sem depender de ônibus ou de carona. “Mas ainda assim acredito que os adolescentes, em geral, anseiam em sair debaixo da aba dos pais, o que muitas vezes não acontece por não terem responsabilidade”, pondera.

Outro motivo para essa euforia, segundo Gabriele, é poder entrar em festas sem ter de pedir assinatura dos pais. “Eu sou ciente das coisas que faço e falo para o meu pai, mas ele ainda é responsável por mim e precisa me deixar ir a vários lugares por eu ter 17 anos. Então, completar os 18 significaria responder por mim mesma”, acrescenta. “Mas não é preciso chegar à maioridade para ter liberdade. Basta ter consciência dos atos e ser responsável”, conclui.

“Eu não vejo os 18 anos ligados diretamente à liberdade, à responsabilidade. Conheço pessoas que dizem ‘Só vou poder fazer tal coisa quando tiver 18’, e entendo que alguns pais sejam mais controladores até lá”, ressalta Marlon de Andrade. No entanto, ele, que já completou os 18, afirma que a liberdade flui naturalmente. Crescendo, as responsabilidades surgiram, o Ensino Médio terminou, a vida exigiu, de certa forma, uma evolução pessoal.

A ansiedade da maioria dos adolescentes que estão na margem dos 18 varia muito, para Marlon, mas ele não nega que queria: pô, legal chegar lá, maior de idade, mas nunca fui tão ansioso, porque sempre soube que não mudaria muita coisa. Porém, ele acredita que a responsabilidade tem de começar já aos 16 e 17, não só aos 18. “Na verdade, isso só serve para que o dever e o direito de responder por si sejam estabelecidos por lei”, analisa.

A maioridade acrescenta algumas possibilidades e obrigações, como poder fazer a Carteira, e aos homens, o alistamento militar. “Mas, de resto acho que nada muda radicalmente. Coisas como bom comportamento precisam existir sempre, independentemente de ser de maior ou não”, aponta.

William Souza, de 18 anos, é direto nesse sentido: muda nada, exceto pela grande probabilidade de ser preso e pela grandiosa alegria de ter a CNH. Fotógrafo desde final de 2013, ele conta que mesmo a profissão não lhe deu uma liberdade muito diferenciada da que já tinha, somente exigiu um pouco mais de responsabilidade e de experiência, é claro.

Maioridade no século 20


Esse um monte de coisas que dá pra fazer depois da maioridade nem sempre existiu. Em meados de 1950, os benefícios de se fazer 18 anos eram outros, nada parecidos com os de agora. E é exatamente isso que afirma Jandira Sarmento da Silva, de 64 anos.
Ela conta que o entusiasmo de chegar à “vida adulta” quando ela era adolescente, era pelo fato de poder se casar. “Não tínhamos condições de estudar, Título de Eleitor, que dirá Carteira de Habilitação”, explica. “O motivo de tanta euforia entre o grupo de amigos era ter uma festa de casamento, e não a tal liberdade de que tanto se fala hoje”, finaliza.

Saiba mais
De acordo com o artigo nº 5 da Lei da Maioridade Civil, alterado em 2002, a menoridade cessa aos dezoito anos completos, quando a pessoa fica habilitada à prática de todos os atos da vida civil.

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