Irmãos de Caroline e os colegas da Banda Marcial marchando pelas ruas de Montenegro

Chega setembro e já é possível ouvir sons diferentes pela cidade e também no interior. Ecoam aos nossos ouvidos o ritmo forte e marcante dos bumbos, da bateria e o bater dos pratos, que emitem os sons metálicos. O que ouvimos são as bandas marciais das escolas e polícias ensaiando intensamente as batidas e melodias que farão parte da marcha dos desfiles de 7 e 20 de setembro.

Estes grupos também aliam movimentos corporais em suas apresentações, repetindo a tradição há muitos anos. Alunos esperam ansiosos pelos desfiles e adultos relembram como eram estes eventos no passado, prestigiando as novas gerações. No século passado, os atos ocorriam de maneira simples, mas os uniformes e instrumentos mais elaborados foram sendo a tônica da marcha.

No entanto, os desfiles que sempre reuniram grande público, com o passar do tempo, perderam aquele sentido de “grande momento do ano”, fazendo que o público prestigie menos a marcha dos alunos e entidades. Porém, nem por isso estes eventos deixaram de acontecer e ainda despertam orgulho e paixão em quem está lá para mostrar o amor à pátria e ao Estado.

A empresária montenegrina Caroline Ritter lembra bem dos desfiles que aconteciam nos anos 1970 e 1980. Ela conta que tinha muita vergonha de estar na rua marchando, mas participava. “Cheguei a ser integrante da Banda Marcial da escola São José e lembro que os ensaios aconteciam na rua da escola, durante a semana anterior ao desfile”, recorda.

Caroline participava desde pequena dos desfiles da Semana da Pátria, juntamente com os seus irmãos. Foto: Arquivo Pessoal/Caroline Ritter

Caroline sente saudade da época em que a tradição era respeitada e as pessoas valorizava a atividade e a tradição. “Dois irmãos meus também participaram de bandas marciais e usavam um uniforme branco com vermelho, em um tecido jeans. Parece que estou sentindo aquela textura do chapéu que eles tinham”, afirma a empresária.

Ensaios pelas estradas de terra, no ritmo certo
No interior e nas cidades que se emanciparam de Montenegro, os desfiles cívicos também aconteciam, mas a simplicidade era a marca. A apresentação de uma banda era um raro luxo. Professora aposentada, Margarida Endres lecionava na Escola Marcílio Dias, na comunidade de Macega, interior de Maratá. O município ainda era Brochier do Maratá, no final dos anos 1980 e no início dos 1990.

Cavalarianos durante o desfile pelas ruas centrais de Maratá, no início dos anos 1990

Naquele momento, os ensaios ocorriam na estrada de terra em frente à escola. Os alunos, com passos treinados, apresentavam o que aprendiam pelas ruas centrais de Brochier e também em Maratá. “A Banda Marcial da Brigada Militar de Montenegro conduzia os alunos somente na cidade. Nos ensaios, a marcha era sem acompanhamento de instrumentos”, recorda.

Margarida fala da simplicidade com que as atividades eram feitas na época. “Era ´chique´ e foi a melhor época de nossas vidas, pois transformávamos o pouco em muito e tudo ficava bonito. A gente se realizava, pois as dificuldades eram grandes naquele tempo, mas as crianças se divertiam a faziam festa”, recorda.

Margarida e Roberta (ao lado, segurando a faixa) desfilando com os colegas, em Brochier. Foto: Arquivo Margarida Endres

As palavras da professora são confirmadas pela ex-aluna Roberta Endres, que estudou em Macega e hoje é formada em Letras Português/Alemão, pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Roberta vive no país europeu, mas guarda na memória os momentos de preparação e de marcha no dia 7 de setembro. Os eventos da Semana da Pátria eram tão importantes que os ensaios começavam bem antes. “Tínhamos que decorar o hino e marchar no mesmo ritmo. Quando a bateria tocava, todos tinham de começar com o pé direito”, revela. Segundo a marataense, as criações de materiais para uso no desfile ocorriam em aula e os ensaios aconteciam na estrada, perto da escola.

Estudantes da antiga Escola Marcílio Dias esperando para iniciar a homenagem à pátria

Conforme a ex-aluna de Margarida, os alunos auxiliavam na confecção de chocalhos, cartazes, tiaras de flores e saias de papel crepom. “Adorávamos hastear as bandeiras e também a escolha das crianças que faziam isso era bem especial e demandava muita responsabilidade. Gostava bastante de ser escolhida”, admite Roberta. As meninas usavam meia-calça branca e sapatilhas da mesma cor, porque tinham de seguir um padrão.

“Eu adorava, porque tinha aquela festividade e todos cantavam o hino juntos, a bandeira era hasteada com sincronia. Era bem legal, pois víamos que os professores, no meu caso a Margarida, faziam com que a gente levasse a sério a Independência do Brasil”, conclui.
Em Montenegro, os desfiles ocorriam na Ramiro Barcelos, sempre acompanhados por um grande público, especialmente de familiares dos alunos.

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