Em 7 de maio, o Rio Caí em Pareci Novo estava seco (à esquerda), para, no dia 9 de julho invadir a praça central de Pareci (à direita), bem como ruas e casas no Vale. Fotos: Arquivo Jornal Ibiá

O primeiro e o início do segundo semestre deste ano submeteram os gaúchos ao contaste entre dois cenários extremos. No começo do ano, o Rio Grande do Sul foi assolado por seis meses da mais severa estiagem dos últimos anos, onde o Rio Caí, por exemplo, teve redução assustadora de seu nível em cidades mais altas do Vale. Então, logo depois, chuvas contínuas transbordarem os rios, provocando uma enchente igualmente prejudicial. Um fenômeno anormal, mas que, graças à influência do ser humano, deve se tornar banal. Quem garante isso é um especialista na área.

O professor Francisco Eliseu Aquino, 50 anos, tem mestrado em geologia marinha antártica pelo Programa de pós-graduação em Geociências e tem doutorado em mudanças climáticas pela Ufrgs. Entre suas pesquisas está o monitoramento de massas de gelo e mudanças ambientais globais. Atualmente, prioriza pesquisas entre as conexões climáticas entre a região Antártica e a América do Sul, em especial o Sul do Brasil e eventos extremos. Participa e desenvolve pesquisas desde 1994 no Programa Antártico Brasileiro (17 expedições de campo).

O professor geólogo Francisco Eliseu Aquino é Diretor do Centro Polar e Climático do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Ele integra pesquisas com ênfase em meteorologia e climatologia polar e subtropical, eventos extremos e outros; nesta divisão científica que trouxe estudos recentes a respeito da seca em 2020.

O cientista revela que nos meses de outubro e novembro de 2019 boa parte do Estado já apresentava condição de estiagem. Isso permitiu que fossem superados, em muito, os prejuízos resultantes da última grande estiagem, que havia ocorrido no ano de 2012. “Chama atenção que, ao analisarmos o comportamento da precipitação nas regiões de Porto Alegre, Santa Cruz do Sul e Lajeado, identificamos um aumento de 5% a 10% na precipitação, quando comparamos com períodos de 1961 a 1990 e 1991 a 2017”, revela o cientista. Desta forma o que o estudo concluiu é que está chovendo em maior volume sobre o Estado, porém, não de forma bem distribuída, aumentando os extremos de períodos secos e curtos períodos de chuva intensa.

Há um desequilíbrio de energia no planeta

A explicação está na ação do ‘homem’, inclusive no ataque aos Biomas da Mata Atlântica e da Floresta Tropical, sobretudo na área correspondente à Floresta Amazônica. O professor Aquino explica que extremos climáticos globais estão se intensificando, impulsionados pelo desequilíbrio de energia na superfície do planeta e a intensificação de efeito estufa na atmosfera. Estas distorções têm como efeito alternar a circulação atmosférica global e regional, fortalecendo fenômenos metrológicos extremos, inclusive fortes ventos.

Como exemplo de implicação em nossa região, assim como em todo o Rio Grande do Sul – em especial as Regiões Geográficas Intermediárias de Porto Alegre e Santa Cruz do Sul/ Lajeado, ele ressaltou outra vez os períodos de falta de chuva e os curtos eventos de intensa precipitação. “Às vezes, a chuva de um mês ocorre em menos de 48 horas. É muito! E nos demais 29 dias não há nenhuma”, explica.

Em 2006, a equipe do professor publicou artigo sobre aumento da chuva no RS, que mesmo atualizado revela alterações sensíveis. Os dados apontam para um incremento de 8% na precipitação anual sobre o território gaúcho. Os desvios médios sazonais foram de 17% no outono, 9% na primavera, 7% no verão e 2% no inverno.

Enchente resulta do natural e da ocupação
Os meteorologistas apontam o aquecimento anormal na superfície do mar para explicar o período de chuva em excesso no Sudeste e Sul do Brasil. Então, o pesquisador da UFRGS destaca que essa anomalia da circulação oceânica (distribuição de águas mais aquecidas) é esperada no fluído do marítimo, ainda que não seja um evento fixo. Porém, Aquino confirma que, ultimamente, os oceanos têm andando mais quentes. Logo, seus efeitos estão sendo amplificados, e com uma tendência de se manter nas próximas décadas.

Em relação às enchentes constantes, o professor concorda que a selagem artificial do solo das cidades tem parcela de contribuição, ao evitar a absorção pela terra e escoar todo o volume em direção aos leitos. Segundo ele, registros históricos através de jornais dos últimos 120 anos no RS permitiram à equipe da Universidade acompanhar esses efeitos.
O diagnóstico aponta ainda que as comunidades ocuparam e se desenvolveram em áreas próximas aos rios que, naturalmente, são sujeitas a inundações. Com o crescimento da população gaúcha e a falta de planejamento para se evitar ocupação das várzeas, as inundações são recorrentes. “Assim, acompanhamos esses efeitos terríveis às famílias gaúchas”, apontou.

Os estudos quantificaram que, nas ultimas três décadas, aumentou a precipitação no Rio Grande do Sul, se comparado as décadas entre 30 e 60; realidade que faz sobressair o problema das ocupações em áreas para extravaso dos rios. Este fenômeno ocorre especialmente nas estações de outono, primavera e verão, quando é propício que ocorram eventos de chuvas extremas, agora potencializado pelo desequilíbrio ambiental.

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