Pingo foi resgatado com uma fratura na coluna, recebeu tratamento, carinho e, neste ano de 2018 foi morar com Bibi, onde vive feliz

Se pudesse falar a linguagem dos humanos, provavelmente Pingo diria que 2018 foi o melhor ano, pois finalmente passou a ter um lar para chamar de seu. Ele era um cão comunitário que circulava pelas ruas de Montenegro, cuidado e alimentado por pessoas que lhe chamavam de “Sequinho”. O risco de atropelamento é grande para animais que andam sozinho pelas ruas, e a história de Pingo é um exemplo das dificuldades que eles vivem, mas também de superação.

Ele foi atropelado e, como ocorre na maioria dos casos como esses, o motorista não prestou socorro. Uma pessoa inclusive viu o cão se arrastando após o acidente, mas observou que ele caiu em um barranco e imaginou que teria morrido. Os dias passaram e as pessoas que o alimentavam deram falta do Sequinho. “Nove dias depois, uma protetora (de animais) estava passando por perto do barranco para ir resgatar outro animal, que tinha sido abandonado e, quando olha para baixo vê aquele cachorro deitadinho”, conta a estudante de veterinária Bibiana Teixeira Baptista, a “Bibi”.

Ela acrescenta que a voluntária era Betty Bloedow, que na ocasião ficou em dúvida se o cão estaria morto, então jogou uma pedrinha e observou que o animalzinho se mexeu. Ao perceber que estava vivo, realizou o resgate juntamente com Márcia Elisa de Mello, voluntária do Cachorreiros e Gateiros. Na consulta ao veterinário, foi verificado fratura na coluna. Era o início de um longo tratamento.

Pingo foi acolhido em um lar temporário, mas tinha necessidades diferenciadas devido à fratura na coluna. “Ele demandava muito cuidado e atenção, precisava de um lugar com alguém com tempo para cuidar dele”, recorda Bibi. “Precisa trocar fraldas, lavar, ele tem que ter supervisão, pois não pode ir a lugar com coisas muito ásperas porque machuca”, cita.

Bibi soube das dificuldades de Pingo por acaso e, ao vê-lo, foi “amor a primeira vista”. “Quando olhei a carinha dele, eu me apaixonei porque ele é um animal muito doce, muito amoroso”, afirma Bibi. A estudante de veterinária observa que, mesmo com todas as dificuldades que Pingo passou, percebe nele uma grande vontade de viver. “Ele traz em si uma vitalidade e isso me tocou”, diz. A partir daquele momento, Bibi decidiu adotá-lo, dar-lhe um lar e toda a atenção que ele precisa. “Ele e eu temos uma sintonia muito grande, parece que ele me olha e conversa comigo, que fala dentro do meu coração, uma coisa incrível”, resume.

Bibi salienta a crueldade no abandono de animais, que são descartados como se fossem objetos. “Isso é extremamente desumano, é provado cientificamente que os animais interpretam o mundo de forma semelhante a nossa, só não conseguem verbalizar”, afirma. Dessa forma, ela acrescenta que eles sentem a rejeição com o abandono e as dificuldades de uma vida na rua, onde precisam lutar pela comida, se esconder da chuva, disputar espaço com os carros e, enfim, sobreviverem. Por isso, Bibi defende a posse responsável, em que o tutor atenda às necessidades do pet e, se de fato não puder ficar com ele, promova uma campanha de adoção para que o bichinho tenha um lar adequado.

Carinho e atenção dão nova vida a Véia
Ela chegou cabisbaixa, não olhava no rosto e se abaixava quando alguém chegava perto. Atitude comum a um animal que carrega uma história de maus-tratos e de muitos motivos para temer os humanos. Com muita sarna, feridas, sem pelos e extremamente magra, a imagem da cachorra era chocante, tanto pela aparência como pelo sofrimento que a situação representava.

“Minha mãe e eu sempre alimentamos vários cachorros de rua e da mesma forma alimentamos ela na frente de casa”, recorda a servidora pública Juliana Fries. Até que uma noite muita fria, a mãe dela ouviu a cadela chorando de frio na rua. Diante disso, Juliana pediu ajuda a Márcia Elisa de Mello, voluntária no grupo Cachorreiros e Gateiros. A vida sofrida deixou o animal amedrontado, mas mesmo assim ela sempre foi muito carin

A Véia hoje, ao lado de Juliana, em nada lembra aquela cachorra de um ano atrás

hosa.

Juliana a acolheu, inicialmente como lar de passagem, mas consciente de que dificilmente alguém adota um animal mais velho. Começaram, então, a tratar a sarna e as feridas da cachorra, que passou a ser chamada de “Véia”. “Por ela brigar com os cachorros da mãe, tive que deixar ela na minha sogra enquanto eu terminava a minha casa”, acrescenta.

Quando Juliana mudou, em fevereiro de 2018, a levou junto e adotou definitivamente a Véia. Com todos os cuidados e carinho que recebeu, a aparência da cadela já nem lembrava aquele animal doente e esquelético de alguns meses atrás. “Ela me agradece todos os dias me olhando bem nos olhos e me dando um beijo no rosto”, afirma.

Assim, para Véia, o final do ano de 2017 e início de 2018 foi período de passagem de uma vida sofrida para o lar aconchegante de uma nova família. Juliana recorda que, algum tempo após a recuperação da cadela, Márcia a reconheceu e percebeu ser a mesma atendida pelo grupo em 2015. Naquele ano, ela fugiu de uma casa onde sofria maus-tratos e foi atropelada. Na época, o Cachorreiros e Gateiros providenciou cirurgias necessárias para a recuperação dela após o acidente. A cachorra chegou a ser doada duas vezes, mas em ambas acabou sendo rejeitada. “A última deixou a casa e ela junto, foi aí que ela ficou no estado que encontramos”, lamenta Juliana.

A servidora pública e sua mãe, Asta Maria Arsego Fries, sempre tiveram cachorros adotados. Já foram vários, hoje são o Leco, a Luna e a Véia. “Minha mãe é meu maior exemplo porque cuidou dos animais de rua a vida toda, na realidade ela alimenta mais cachorros na rua do que em casa”, acrescenta Juliana. Ambas mantêm um potinho com água na calçada. “Hoje a Véia é a nossa companheirinha e somos uma família muito feliz, não vejo a vida sem um animalzinho”, afirma Juliana.

Animais também têm sentimentos
Em relação ao abandono de animais, Juliana Fries observa a falta de respeito e do reconhecimento deles como seres vivos, que sofrem, sentem dor, fome e frio. “Se todos aqueles que amam animais ajudassem pelo menos um, e aqueles que não gostam respeitassem e não machucassem, os pequenos abandonados poderiam ter vidas melhores e casas com famílias que cuidem deles”, analisa.

A servidora pública lembra que os animais não têm culpa por estarem na rua, estão apenas tentando sobreviver. “E nós podemos dar uma vida digna a eles”, salienta. “Posso garantir que o retorno que temos ao fazer o bem é a felicidade”, afirma Juliana.

Castração: caminho contra o abandono
A história de Faísca se assemelha a de muitas outras de animais abandonados e evidencia a necessidade da castração para combater essa situação. Ela foi resgatada no bairro Municipal, com 10 filhotes, por voluntárias do grupo Cachorreiros e Gateiros. Após, os pequenos contraíram parvovirose, foram tratados, mas um deles não sobreviveu.

Acolhida em um lar temporário, Faísca brigou com outra cachorra da casa, de porte maior que o dela, e acabou levando a pior. Ficou muito machucada e precisou de atendimento médico. Durante algum tempo ficou hospedada na Sapecão Banho e Tosa, onde a esteticista animal Suzana Pavanate cuidou dela, seguindo a orientação de um veterinário.

Faísca se recuperou e vive feliz em seu novo lar

O caso era difícil. Faísca precisou inclusive amputar uma pata e recebeu também transfusão de sangue. O doador foi o “Negão”, um cão de Suzana que acabou se tornando amigo inseparável de Faísca. “Me apeguei a ela e não consegui me desligar”, afirma Suzana, que adotou a cachorra. Faísca foi castrada e os filhotes encaminhados para adoção.

Parceira do grupo Cachorreiros e Gateiros, ela recebe com frequência animais resgatados, vítimas de abandono e outros tipos de maus-tratos. Susana conta que a cachorra se adaptou rápido a andar com três patas e costuma recepcionar os visitantes no portão de casa.

Para Susana, o combate ao abandono passa pela adoção responsável, o que inclui garantir os cuidados que o animal precisa. Ela salienta a importância da castração e defende a parceria entre o poder público e ONGs defensoras dos animais para viabilizar o procediento e campanhas de conscientização.

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