Após um período respeitando a quarentena, catadores de papelão voltaram a circular pela cidade e encaram o perigo da Covid-19

O sol ainda estava nascendo quando a montenegrina Karina Padilha de Souza, 40, pegou seu antigo companheiro de trabalho e seguiu rumo ao centro da cidade. Era o carrinho de catadora de papelão, que depois de semanas parado devido à quarentena contra o novo coronavírus (Covid-19), voltou na circular pelas ruas de Montenegro. Sem nenhuma proteção para evitar o contágio da doença, pandemia expõe vulnerabilidade social dos trabalhadores de reciclagem no município, profissionais muito importantes para que os descartes de cada residência tenham a destinação correta.

Durante as semanas do decreto que determinou o fechamento do comércio em Montenegro, poucos catadores eram vistos e o material que lhes dá sustento também diminuiu muito. Aos poucos os estabelecimentos voltaram a funcionar seguindo, é claro, as orientações e normas do Governo do Estado para evitar o contágio da Covid-19 e os recicláveis também passaram a ser mais coletados.

Mãe solo, Karina Padilha de Souza revela a vulnerabilidade social desta parcela da população

Com a retomada gradativa da atividade econômica, novos hábitos e protocolos passaram a fazer parte da rotina de uma população que já enfrentava diariamente um inimigo invisível. Quem pode, segue a risca as orientações da Saúde como o uso do álcool em gel e máscara, mas para Karina e sua família, o acesso a esse tipo de proteção não é uma opção. “Não temos condições de comprar essas coisas, então trabalhamos como podemos”, revela a catadora ao lado da mãe, que integra o grupo de risco para o novo vírus.

Questionadas sobre o perigo de trabalhar sem proteção, Karina ficou pensativa e respondeu com lamento. “Ou eu trabalho ou passo fome”, disparou a catadora, enquanto dobrava e encaixava alguns papelões no carrinho da mãe. “Estamos vivendo de doações, mas isso não é suficiente. Precisamos de dinheiro para pagar nossas contas”, completou.

Com 67 anos, dona Santa de Lina – mãe da Karina – revelou uma trajetória cheia de desafios diários. Prova disso são as marcas em um dos joelhos, resultado da última queda que sofreu enquanto trabalhava. Agora, além do peso do carrinho que tem que puxar e do frio, a senhora de mãos calejadas também enfrentará o coronavírus. “Nunca tive medo de doença. Se tiver que dar alguma coisa será da vontade de Deus”, disse dona Santa, que se apega a fé. “A gente não pode ter medo, mas cuidado sim”, salientou.

Assim como dona Santa e Karina, essa realidade faz parte da vida de dezenas de catadores. Com a pandemia, a situação não ficou mais difícil apenas para quem descarta e coleta o material, mas também para quem compra, como revela a montenegrina. “Está tudo parado, até na cooperativa porque não tem para quem vender”, comentou a catadora. “Sou responsável pelas minhas duas meninas, então se eu não trabalhar, quem vai assumir as minhas contas?”, questionou.

Pandemia pode levar 500 milhões à pobreza, alerta Oxfam
Além do colapso no sistema de saúde, a crise econômica provocada pela pandemia do novo coronavírus pode levar mais de 500 milhões de pessoas para a pobreza em todo mundo, a menos que ações urgentes sejam tomadas para ajudar países em desenvolvimento. O alerta é da Oxfam, entidade da sociedade civil que atua em cerca de 90 países com campanhas, programas e ajuda humanitária.

O novo relatório da organização publicado no início deste mês, “Dignidade, não Indigência”, mostra que entre 6% e 8% da população global, cerca de 500 milhões de pessoas, poderão entrar na pobreza conforme os governos fecham suas economias para impedir que o coronavírus se espalhe em seus países. No Brasil, conforme a Oxfam, a situação é ainda mais preocupante devido às moradias precárias, à falta de saneamento básico e de água e aos desafios no acesso a serviços essenciais para os mais pobres.

Ainda, de acordo com a organização, as mulheres precisam de atenção especial, pois estão na linha de frente do combate ao coronavírus e sofrerão o impacto mais pesado da crise econômica. Além disso, elas são maioria nos empregos mais precários.

Prefeitura arrecada máscaras e álcool em gel para catadores
Questionada sobre a situação de vulnerabilidade social e riscos na saúde dos trabalhadores da reciclagem em Montenegro, a diretora de assistência Social e Cidadania, Mônica Müller, explica que logo que a quarentena foi decretada, muitos catadores procuraram o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) buscando ajuda. “Muitos solicitaram alimentos porque não estavam podendo ir para as ruas fazer seu trabalho”, disse Mônica, destacando que, além de cestas básicas, eles também receberam material de limpeza e orientações.

Agora, com a lenta retomada da atividade econômica no município, a campanha “Juntos Somos Mais Fortes”, promovida pela prefeitura, através da Secretaria Municipal de Habitação, Desenvolvimento Social e Cidadania (SMHAD), também arrecada máscaras e álcool em gel para distribuir aos mais vulneráveis. “Dentro da campanha, a gente também pede que a população doe esses itens para que a gente possa alcançar a quem mais precisa, principalmente para essas pessoas. Dessa forma, elas podem se proteger enquanto retomam as atividades nas ruas”, destacou.

Os interessados em contribuir com a campanha podem realizar as doações na SMHAD, localizada na rua Col. Apolinário de Moraes, 1705 , Centro. O telefone para contato é (51) 3632-9133.

Solidariedade dos comerciantes faz a diferença

Para facilitar o trabalho dos catadores de papelão, muitos comerciantes já deixam os materiais separados para a coleta, mas ao voltar a trabalhar, dona Santa ganhou muito mais que isso. Preocupada com a saúde da senhora, uma comerciante doou uma máscara de proteção para a catadora, que ficou emocionada com a atitude. “Ela disse que vai me dar mais uma [máscara]. Isso vai ajudar muito porque elas são caras, e se a gente compra uma, falta dinheiro para outras coisas”, disse dona Santa.

“Algumas pessoas nos deixam lavar as mãos dentro do estabelecimento, mas quando chegamos em casa, sempre colocamos as roupas que usamos para lavar, isso bem antes dessa doença surgir. A gente se vira como pode”, detalhou Karina Padilha de Souza.

Deixe seu comentário