Grandes quantidades de máscaras descartáveis já são encontradas nas praias da Ásia. Foto: reprodução

A pandemia do novo coronavírus tem afetado diversos segmentos em todo o mundo. Saúde e economia são os setores que mais preocupam a população, mas o meio ambiente também é impactado – positiva e negativamente – pela Covid-19. Para combater a disseminação da doença, a Organização Mundial de Saúde (OMS) indica medidas como higienização das mãos com sabão e álcool gel, uso de lenço de papel para limpar secreções, assim como evitar o contato direto com outras pessoas.

Isso, no entanto, acarretará em um aumento significativo de descarte de papel toalha e embalagens, além do consumo exacerbado de água. Medidas como o armazenamento correto de resíduos, higienização e destinação ambientalmente correta contribuem para minimizar os riscos de contaminação e transmissão do novo coronavírus.

A disseminação da Covid-19 acontece também pelo contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos. Por isso, é de suma importância a realização da gestão de resíduos adequadamente, a fim de evitar a proliferação da doença através do contato com resíduos contaminados. De acordo com a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), o tempo de permanência do novo coronavírus em resíduos é:

Tempo de permanência do novo coronavírus em resíduos
Alumínio 2 a 8 horas
Luvas cirúrgicas 8 horas
Aço 48 horas
Resíduos de vidro 4 dias
Madeira 4 dias
Resíduos plásticos 5 dias
Resíduos de papel 4 a 5 dias

Emissões de poluentes atmosféricos são reduzidas
Para evitar os impactos ambientais, é fundamental que os resíduos sejam acondicionados e destinados de maneira segura e ambientalmente correta. A coleta dos materiais é essencial em meio à crise da Covid-19. A medida evitará que esses resíduos fiquem muito tempo expostos, eliminando o risco de contaminação.

A pandemia pode ser positiva em vários aspectos para o meio ambiente, como destaca o biólogo Rafael Altenhofen. As restrições às atividades humanas, principalmente às indústrias e de mobilidade, reduziram consideravelmente emissões de poluentes atmosféricos no globo. Especialmente na China e na Europa, há registros de redução de 10 a 30% nas emissões de dióxido de nitrogênio (NO2 – um gás emitido principalmente por veículos movidos a combustíveis fósseis, termelétricas a carvão e indústrias – responsável por graves riscos respiratórios e milhares de mortes anuais).

A China apresentou redução de até 25% nas emissões de gás carbônico (CO2) na atmosfera (pela redução do consumo de petróleo) durante as medidas de isolamento social, que agora se ampliam também para a América do Norte e do Sul – com projeções de redução global de até 7% para 2020 – valor muito próximo aquele definido como meta do Acordo Climático de Paris.
Além disso, o biólogo destaca que as estimativas esse ano, somente para a China, de redução de mortes por doenças originadas na poluição atmosférica – devido à redução das emissões – é de 4 mil crianças e 73 mil idosos.

Rafael observa ainda que ocorreu uma drástica redução das emissões em termos de efluentes líquidos (no caso, esgoto cloacal) em diversas regiões onde, antes da pandemia, havia grande movimentação turística. “É o caso de Veneza, na Itália, onde, por exemplo, os canais voltaram a ficar límpidos, permitindo o retorno da fauna aquática. Aqui no Brasil, na Baía de Guanabara-RJ, até tivemos registros (raros na atualidade) de tartarugas-marinhas, que estão associados à redução da movimentação de embarcações devido às medidas de restrição social”, ressalta.

O biólogo montenegrino acrescenta que não há dados conclusivos que apontem redução significativa em relação à produção de resíduos domésticos nas residências neste período. “O que há, sim, é a redução de material jogado nas ruas e em locais de maior aglomeração que, quando não recolhidos, eram carregados para corpos hídricos e para o mar”, frisa.

Foto: divulgação / depositphotos

Destino das máscaras preocupa
Durante a pandemia, a população é orientada a ficar em casa e, quando precisar sair, usar máscara. Para evitar a contaminação e disseminação do vírus, a máscara é um equipamento fundamental. No entanto, o destino das máscaras descartáveis de proteção respiratória tem preocupado os ambientalistas, tendo em vista que, na Ásia, já estão sendo encontradas em grandes quantidades nas praias. “No Brasil, na medida em que as máscaras passarem a fazer parte do nosso dia a dia, infelizmente sabemos que em boa parte poderão ter o mesmo destino”, observa Rafael Altenhofen.

O biólogo alerta que as principais preocupações dos cientistas, técnicos e ambientalistas, entretanto, residem em aspectos de magnitude muito maior, ligadas principalmente a oportunismos por parte de grupos específicos – contrários ao interesse da coletividade – que operam se aproveitando da ausência ou redução da atuação das estruturas de fiscalização do Estado em meio à pandemia, assim como do desvio da atenção da sociedade para questões ambientais, devido ao foco na crise de saúde e economia.

Dados de monitoramento divulgados recentemente pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Imazon indicam que o desmatamento da Amazônia no mês de março de 2020 aumentou 279% em comparação com o mesmo mês no ano de 2019. Lideranças indígenas da região também denunciam o aumento das invasões de garimpeiros em suas áreas, que se aproveitam da redução do efetivo de fiscalização e policiamento.

Rafael salienta que, devido à quarentena, não estão mais ocorrendo reuniões de colegiados e conselhos de direitos na área ambiental, como o Comdema de Montenegro – que já vinha sem conseguir quórum desde o final de 2019 –, Consema-RS e Conama. “Perdem-se, assim, espaços de participação, construção e fiscalização da implementação de políticas públicas na área ambiental”, relata Altenhofen.

O montenegrino acredita que a população deve refletir sobre esse momento de distanciamento social e crise devido ao novo coronavírus. “Devemos aproveitar as lições da pandemia para repensar e redefinir prioridades e princípios nas relações sociais e na economia, incluindo nossos modelos de desenvolvimento, discernindo entre as reais necessidades humanas e aqueles que apenas são desejos culturalmente impostos”, declara.

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