A popularização das redes sociais, ao mesmo tempo em que facilitou a interação entre pessoas e grupos, produziu um efeito colateral extremamente perigoso. A falta de controle sobre os conteúdos e a rapidez com que são disseminados confunde muitos usuários e promove estragos na economia, interfere em eleições e pode até mesmo causar a morte de alguém. As Fake news – notícias falsas – se multiplicam na proporção da irresponsabilidade dos internautas.

Ciente disso e fiel a sua missão de levar informação de credibilidade ao público, o Jornal Ibiá aproveita o seu 37º aniversário para lançar uma nova ofensiva contra a desinformação que viceja no ambiente on line. O objetivo é chamar a atenção para o problema e formar usuários mais críticos e atentos para não servirem de massa de manobra a interesses obscuros e ilegais. Para alcançar este objetivo, será ampliado o espaço, tanto no suporte impresso quanto nas plataformas digitais, para a denúncia destes crimes.

De acordo com a diretora do Jornal Ibiá, Maria Luiza Szulczewski, é preciso conscientizar o usuário das redes de que a informação de credibilidade é aquela que passa pelo crivo de profissionais treinados para checar a veracidade dos fatos. “Os jornalistas estudam vários anos para executar esse trabalho e obter as diferentes versões de um acontecimento. Com equilíbrio e ética, eles têm condições de informar o que realmente aconteceu”, pontua.

Maria Luiza observa, ainda, a necessidade de valorizar a credibilidade de veículos e profissionais que estão no mercado há muito tempo, sempre prontos a atender ao chamado do leitor. “Quando uma pessoa se manifesta nas redes, ela está dando a opinião dela e raramente existe o contraponto, a versão do ‘outro lado’, que é muito importante para saber quem está com a razão. Este papel os jornalistas desempenham muito bem”, assinala.

Usando como lema a expressão “Informação de verdade”, a iniciativa do Ibiá pretende desmascarar as principais mentiras criadas nas redes, que acabam prejudicando e colocando o cidadão em risco. Um exemplo: as falsas notícias sobre vacinas. Ano passado, circularam no whats app e em outros aplicativos informações falsas apontando que os medicamentos, na verdade, tornavam as pessoas doentes para aumentar o faturamento da indústria farmacêutica. “Muita gente deixou de vacinar os filhos e o efeito disso é que doenças como sarampo e poliomielite, já erradicadas, estão voltando”, comenta Maria Luiza.

Há situações ainda muito mais graves. Em 3 de maio de 2014, Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, foi linchada por moradores do bairro de Morrinhos IV, na periferia do município de Guarujá, no litoral de São Paulo. Casada e mãe de duas crianças, ela foi espancada e assassinada. O linchamento ocorreu porque a vítima foi confundida com uma suposta sequestradora de crianças, cujo retrato falado, que havia sido feito dois anos antes, passou a circular nas mídias sociais. O fato causou forte comoção nacional, principalmente por ter sido motivado por fake news.

Como identificar as notícias falsas
Nem sempre é fácil identificar uma notícia falsa na internet. Há, no entanto, algumas dicas bem simples que podem te ajudar a não cair nas Fake News e, principalmente, não passá-las adiante.
1 Fique com um pé atrás com as tais correntes de WhatsApp, principalmente aquelas que não citam fontes. Se, por exemplo, uma quadrilha de sequestradores de crianças está agindo numa determinada região, dificilmente o caso ainda não foi parar na imprensa tradicional. Correntes de Whats App não são fontes confiáveis.

2 Uma das formas de se prevenir contra Fake News é checar informações, ou seja, verificar se a informação foi divulgada por meios de comunicação tradicionais. Use o Google para isso. Ainda que você desconfie da chamada grande imprensa, uma coisa é certa: se uma corrente de Whats App faz uma revelação bombástica que não se encontra em nenhum veículo de comunicação (jornais, sites ou revistas), talvez seja a hora de começar a desconfiar da veracidade da notícia, não é mesmo?

3 O mesmo vale para quando lemos uma notícia em um blog ou site. É sempre bom diversificar nossas fontes de informação.

4 Além disso, é preciso ficar atento à identidade do autor da postagem ou do texto que se está lendo. Quem é essa pessoa? Para quem ela trabalha? O que é esse site ou blog para quem essa pessoa escreve? Será que esse veículo (blog, site) tem credibilidade?

5 Fique atento às datas. É comum recebermos notícias que não são fakes, mas são antigas. Convém abrir a notícia e verificar a data em que ela foi escrita. Isso pode evitar sérios equívocos.

62% dos brasileiros não reconhecem notícias falsas
Quase dois terços dos brasileiros não sabem dizer quando estão diante de uma notícia falsa. Esse é o resultado de uma pesquisa divulgada em fevereiro pela empresa de cibersegurança Kaspersky, que se aprofundou em entender como a America Latina lida com as Fake News. De acordo com o estudo, por nacionalidade, os cidadãos que menos conseguem reconhecer notícias falsas são os peruanos (79%), seguidos pelos colombianos (73%) e chilenos (70%). Mais atrás estão os argentinos e mexicanos, com 66%, e então os brasileiros (62%).

A pesquisa também mostrou que 16% dos entrevistados desconhecem completamente o termo “Fake News”, um aspecto em que os peruanos também se destacam, com 47% dos indivíduos alegando que não sabem o que a expressão significa. Por outro lado, os brasileiros são os mais familiarizados com o termo, visto que apenas 2% o desconhecem realmente.

Felizmente, o levantamento também traz algumas boas notícias. Apenas 2% dos latino-americanos consideram as notícias falsas inofensivas, enquanto a grande maioria as classifica como perigosas e, eventualmente, danosas. E ainda: 72% dos entrevistados acreditam que as Fake News viralizam para que alguém receba algo em troca ou para causar dano a algo/alguém. Mesmo assim, menos da metade dos brasileiros (42%) ocasionalmente questiona o que está lendo na web.

João Vitor Santos é mestre em Ciências da Comunicação e pesquisador. FOTO: RICARDO MACHADO

“É preciso educar para a mídia”, afirma especialista
O estudo “O que os estudantes sabem e podem fazer”, conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicado em 2018, traz um dado perturbador: apenas 9% dos adolescentes brasileiros de 15 anos conseguem diferenciar fatos de opiniões. E, apesar do resultado ter medido apenas uma faixa etária, essa é a realidade de grande parte da população. Segundo pesquisa do Instituto Ipsus, a sociedade brasileira é a que mais acredita em Fake News (notícias falsas), considerando 27 países.

Porém, as Fake News são apenas uma parte (a mais conhecida) de um fenômeno bem mais amplo: o da Desinformação. “É algo muito maior. Inclui o mau jornalismo, o excesso de informação, a falta de habilidade digital dos mais velhos e a ingenuidade digital dos mais novos, por exemplo”, afirma o brasileiro Alexandre Sayad, que foi eleito recentemente diretor-geral (chairman) global da GAPMIL, a aliança internacional da Unesco para parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional, sediada em Paris.

É também para esta realidade que olha o jornalista João Vitor Santos, mestre em Ciências da Comunicação e pesquisador e graduando em História. Montenegrino, no início da carreira ele chegou a trabalhar no Ibiá como repórter, mas acumula também passagens por outras mídias, como TV, rádio e sites. É do alto de sua experiência profissional e da vivência acadêmica que ele faz um alerta: muito mais do que denunciar as notícias falsas, é preciso instrumentalizar a população para reconhecê-las.

“Acredito que a melhor forma de combater as notícias falsas é a educação para a mídia ou a comunicação para formação”, propõe Santos. Ele lembra que, ainda nas décadas de 1980 e 1990, houve várias iniciativas, grupos que se reuniam para discutir o que se chamou de educação e mídia para a formação e libertação. “Foram atividades em partidos políticos, entidades estudantis, associações de bairros e grupos e clubes de leituras, mas destaco, em especial, o trabalho realizado nesse sentido pelas Comunidades Eclesiais de Base, as CEB’s, da Igreja Católica”, enumera.

Inspiradas nas ações de ver, julgar e agir da Teologia da Libertação, as CEBs, entre outros trabalhos, propunham uma leitura acurada e especialmente crítica dos veículos de comunicação. “O mundo mudou, as mídias também e parece que deixamos de lado essas ações formativas e de criticidade. Não adianta apenas criar mil dispositivos para checagem de informações se as pessoas não forem educadas e formadas a aprenderem a lidar com essa realidade de notícias falsas”, defende João Vitor.

O mestre em Comunicação ressalta ainda que as Fake News sempre existiram e, agora, foram potencializadas pelas redes sociais e pela internet 4.0. “Retomemos, nesse novo mundo, a velha educação para a mídia. Antes de secar gelo, é preciso evitar a água, impedir que as verdades construídas se consolidem como blocos duros e irredutíveis, quase como monolíticos”, propõe João Vitor.

Você já compartilhou Fake News nas redes?
Roberta Cardona, advogada – “Não me lembro de ter reproduzido Fake News. Busco informação apenas nos meios confiáveis e não compartilho fofocas de Whats app com ninguém.”

João Vilso Cruz, agricultor – “Nunca compartilhei nenhuma Fake News. Dificilmente compartilho notícias e, menos ainda, se for referente a política. Quando faço, asseguro-me da confiabilidade da fonte.”

Karl Heinz Kindel, empresário – “Lembro de ter compartilhado duas vezes. Mas, seguramente, devo ter feito mais antes disso. Depois da última vez, fiquei muito constrangido. A partir disso, quando compartilho alguma notícia, realizo pesquisas na internet em fontes conhecidas e de credibilidade. Dependendo do assunto, também converso com outras pessoas para confirmação. Quando uma dessas fontes não confirma, não faço mais o compartilhamento. Compartilho quando todas as fontes confirmam a mesma notícia.”

Tânia Iró da Motta, professora – “Nunca compartilhei notícias falsas. Normalmente não repasso nem compartilho nenhuma notícia. Para minha própria informação, somente para considerar ler ou não a notícia, sempre verifico antes a fonte da publicação.”

Kellen de Mattos, assessora parlamentar – “Sim, já divulguei uma campanha de leite para uma menina. A matéria era totalmente fictícia. Ficamos de mãos atadas. Por mais que tenhamos cuidado, há informações difíceis de averiguar. Por isso, hoje eu reproduzo menos matérias que possam configurar Fake News. Vamos ficando mais cuidadosos ou até medrosos com o tempo.”

Adriano Bergamo, advogado – “Sim, já compartilhei, mas não com a intenção de dar seguimento à notícia e, sim, com a intenção de perguntar, em grupos de amigos, se aquilo era verdadeiro ou falso. Para prevenir, a partir da informação contida na matéria, acesso o Google e escrevo o título, junto com a expressão ‘Fake News’, e normalmente funciona. Outra medida é buscar a informação junto a jornalistas mais experientes e confiáveis, principalmente em suas páginas no twitter.”

Diandra Lopes, funcionária pública – “Não lembro de ter compartilhado alguma matéria falsa, pois procuro sempre olhar a data da postagem. Nas redes sociais, costumo publicar somente aquilo que poderia defender, aquilo que tenho conhecimento. Tomo muito cuidado pois, assim como pode nos ajudar, a rede social também pode nos prejudicar.”

Mara Mello, advogada – “Não lembro de ter reproduzido ou compartilhado, mas logo que o Facebook iniciou, lembro de ter comentado em posts falsos, sim. Normalmente busco a fonte para saber se é confiável. Se é algo relacionado a leis, procuro ver se já está sancionada ou se não passa de um projeto apenas. Se é lei em vigor, sempre estará no site www.planalto.gov.br.”

Maria Beatriz Rodrigues, servidora pública – “Não lembro se já compartilhei Fake News. Para evitar, digito o assunto no Google primeiro e, só se encontro mais de uma fonte confiável, replico a informação. Sendo algo de Montenegro, faço contato com pessoas envolvidas no assunto. Senão, aguardo.”

Marcos Alexandre de Moraes, estudante – “Com certeza já compartilhei Fake News, especialmente sobre temas da Política. Nas eleições para presidente, era quase impossível saber o que era verdade ou mentira, de todos os lados. Mas quando me dei conta disso, eu parei e hoje não passo nada sério para ninguém. Só mesmo fotos das baladas e dos rolês. Quando quero informação mesmo, eu leio jornais e procuro nos sites especializados.”

Maria Eronita Flores, dona de casa – “Eu com certeza já passei Fake News, mas sem saber. Quando me disseram, fiquei envergonhada. Hoje verifico tudo antes e raramente compartilho informações.”

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