A venezuelana Maria de Los Angeles Blanco terá neste ano um Natal mais farto e espera que o Brasil lhe ofereça a oportunidade para recomeçar ao lado da família

Em Montenegro, famílias celebram a união e as novas oportunidades para viver em família

O Natal é uma das épocas mais aguardadas do ano. É quando a família se reune; há muita comida na mesa; ocorre a tradicional trocas de presentes e a diversão é garantida. Data que comemora o nascimento de Jesus Cristo, o Natal também significa amor e esperança, e é isso que particularmente duas famílias imigrantes em Montenegro sentem neste momento.

Há pouco mais de um ano Maria de Los Angeles Blanco chegava em solo brasileiro junto com a filha Gabriela Blanco e os seus três netos. A família de Caracas, na Venezuela, veio refugiada do país atrás de uma vida melhor, pois as perspectivas na cidade natal não eram das melhores. “Eu era enfermeira na Venezuela, e trabalhava às vezes em três lugares para poder sustentar a minha família, e mesmo assim não dava”, conta Gabriela.

Richard e Gabriela com a mãe Maria de Los Angeles

Com um salário mínimo mensal de pouco mais de US$ 1 (um dólar), ou seja, cinco reais, comprar itens básicos como comida, produtos de higiene e saúde era impossível. “A nossa vida estava muito ruim. […] Não dava para comprar um quilo de farinha, porque custava US$ 5 (cinco dólares)”, diz Maria.
Através da estratégia de interiorização coordenada pelo Governo Federal, com apoio de agências da ONU e de mais de 100 entidades da sociedade civil, uma parte da família chegou a Montenegro em setembro de 2019, mas dois filhos ainda aguardavam na Venezuela. “Não vieram todos da família, porque não tínhamos dinheiro, se não viriam todos”, explica a matriarca.

Em uma força tarefa, a família recebeu ajuda de dezenas de montenegrinos, e Richard Díaz junto com a sua esposa e seus três filhos se juntaram ao clã em 13 de dezembro, poucos dias antes do Natal. “Estou muito feliz com o filho e os netos aqui, a expectativa para o Natal é a melhor. Muita comida, porque aqui tem para fazer para eles”, diz Maria de Los Angeles.

No último Natal, Maria, a filha Gabriela e os três netos foram à Igreja e também foram convidados para a ceia de vizinhos, mas este ano a comemoração vai ser entre a família. Questionados sobre o que significa esta data, a resposta foi unânime: família reunida e amor. “Acreditamos em Jesus Cristo, e eu acho que nós estando aqui é um milagre de Jesus, porque pessoas morrem tentando sair de lá. Nós só queremos uma nova oportunidade”, desabafa Gabriela.

No Brasil, venezuelanos agradecem pela segurança
e alimentação de qualidade que conseguem ter

Há pouco tempo no país, Richard relembra que nos últimos Natais não havia comemoração, só fome e tristeza. “Agora podemos comprar frutas, eles (crianças) podem brincar com segurança”, fala. Mas apesar da alegria, Maria de Los Angeles segue angustiada e esperançosa pela vinda do último filho, Robert. “Espero que o meu filho possa vir com a sua família, porque estou muito triste com a situação dele lá”, declara.
Para ajudar na vinda de Robert Díaz, sua esposa e três filhos uma campanha foi criada para a arrecadação de dinheiro. O pedido é que seja doado um real, nada mais, e para isso basta depositar na conta 23642-X do Banco do Brasil em nome de Marcelo Cruz – CPF 82237786020, ou pelo Pix 82237786020. Para doações presenciais basta entrar em contato com Marcelo, quem organiza a campanha, pelo número 9.9978.1007. Além disso, também há uma vakinha disponível: http://vaka.me/1522789.

Acima de tudo, respeito
Apesar de muito especial na nossa cultura, o Natal é mais um dia comum para o casal Nigar Afrose, de 21 anos, e Kazi Maruf, de 27 anos. Naturais de Bangladesh, país situado no sul da Ásia, os dois seguem a religião islâmica e por isso não comemoram a data. Para eles Jesus Cristo é apenas um dos cinco profetas que vieram trazer a palavra de Deus ao homem, mas o mais importante é o último deles, Maomé.

Bengalêses possuem um estabelecimento que vende comidas típicas e também brasileiras

Seguindo a palavra do Alcorão e do seu Deus, Alá, Maruf conta que eles mantêm somente uma relação de respeito com o Natal. “Nós relembramos do nascimento de Cristo. Mas as nossas principais festas é Eid al-Adha e Eid wl-Fitr”, diz. O Eid al-Adha, também conhecido como Festa do Sacrifício, ocorre durante o Hajj (peregrinação à Meca) e com duração de 4 dias, a festa é uma homenagem ao sacrifício de Ismael, filho do profeta Ibrahim, seguindo a vontade de Alá. Maruf comenta que a comemoração é realizada após os 70 dias do Ramadã, e que ocorre a troca de presentes e o sacrifício de animais onde a carne é dividida com familiares e com os pobres. Já o Eid wl-Fitr marca o fim do jejum do Ramadã, mês em que os muçulmanos devem abster-se de fumar, comer, beber, ter relações sexuais desde antes do nascer do dia até ao anoitecer.

Maruf veio ao Brasil nove anos atrás também em busca de uma melhor oportunidade de vida, e ele conta que depois de viajar muito pelo país o local escolhido foi Montenegro. “Antes quando eu cheguei eu viajava muito, agora eu fico só aqui. Até porque agora tenho a minha esposa”, explica.
Recém chegado em São Paulo, o bengalês vendeu roupas pela cidade, mas achou a metrópole muito perigosa e após passar por diversos estados como Minas Gerais, Bahia e Santa Catarina, sem querer chegou a Montenegro. “Eu já acostumei (de morar) no Brasil, agora acho que não conseguiria mais morar em Bangladesh, aqui tenho tudo”, relata. Desde o início, Maruf se preocupa em mandar uma ajuda para os pais que continuam na capital Daca.

Amigos desde criança, Maruf e Nigar Afrose mantiveram o contato e há quase dois anos eles se casaram e ela pode finalmente vir ao encontro do esposo. Sem saber falar muito bem o português, Nigar fala sobre a adaptação em um novo país. “Eu ainda sinto muitas saudades de casa, dos meus pais e do meu irmão”, diz.

Muito fiéis a sua tradição, mesmo longe do seu país natal, o casal segue mantendo as tradições islâmicas em Montenegro como podem. Ele explica que no seu trabalho não tem um dia de liberação para comemorar as festas tradicionais da sua religião, mas que no Natal é obrigado a ficar em casa. “Às vezes não nos respeitam, mas entendo. Nós temos a nossa cultura, a nossa religião, assim como vocês têm”, fala. Entretanto Maruf conclui que para eles a sua oração pode ser feita em qualquer lugar, e isso não é um empecilho. “Pra nós o Natal significa a união entre amigos e família. […] E agora penso na chegada do meu filho e tudo que tenho que dar pra ele”, completa.

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