Foto: reprodução banco de imagens

A vida apresenta histórias de heroínas de carne e osso. Com força e coragem, elas superam a Mulher Maravilha. As vítimas de violência doméstica mostram, diariamente, a importância de nos empenharmos para vencermos os problemas, muito deles dos mais graves, e seguirmos em frente com passos firmes.

Maria é uma dessas guerreiras. A montenegrina viveu uma relação extremamente abusiva, que durou dos 19 aos seus 27 anos. O companheiro, 13 anos mais velho, a agredia de diversas formas. Não raras vezes, fez sexo com ele sem ter vontade, por medo de apanhar. “Eu não trabalhava, era totalmente dependente do meu ex financeiramente. Apanhava e não sabia como viver sem ele”, conta, repetindo uma história bastante comum entre o público feminino.

Ela vivia com medo de seu algoz “estourar” a qualquer momento. Temia seus momentos de raiva sem razão aparente. “As agressões ocorriam por motivos banais, por eu discordar de qualquer coisa que ele fosse fazer, por eu dizer não para qualquer coisa. Eu sempre ficava quieta para não deixá-lo bravo”, lembra.

Após muitas lágrimas e sofrimento, ela resolveu contar para a família como era sua vida em casa. Foi o pontapé inicial para conseguir romper com o ciclo de violência. Mas o pesadelo ainda não estava perto do fim. Então, ela decidiu ir morar com os pais. “Quando eu me separei as agressões pioraram. Ele me agredia em público, onde me via. Minha vida se transformou em um inferno”, afirma. Em um episódio, o homem chegou a rasgar as roupas da vítima na rua.

O cenário só mudou quando tomou coragem e formalizou a denúncia. “Quando fui agredida na rua, fui de viatura para o hospital e depois para delegacia. Na época, não tinha a Delegacia da Mulher, eu toda machucada, com as roupas rasgadas, tive que enfrentar uma delegacia comum, com olhares machistas com perguntas do tipo ‘o que você fez para acontecer isso com você”, comenta, ressaltando a importância da implantação da Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher (Deam).

Após superar os anos de medo, a moça conseguiu se reerguer. Está em um segundo relacionamento, há sete anos, no qual recebe atenção, amor carinho e, acima de tudo, respeito. O casal tem uma filha de 6 anos. A mais velha dela, atualmente com 17, mantém contato com o pai, mas ele nunca mais se aproximou da mãe, devido a existência de medida protetiva.

A heroína da vida real, agora, torce para a sua história servir de exemplo para outras vítimas não sofrerem caladas. Ele participa de eventos sobre violência doméstica, como rodas de conversa. “Fico muito triste em ver inúmeros casos ainda acontecendo nos dias de hoje. Sempre digo para mulheres quando tenho oportunidade que não fiquem para si esse sofrimento, falem com a família, procurem ajuda, vão à Delegacia da Mulher, denunciem. É sofrido e doloroso, ficamos com sensação de que tivemos culpa por ser agredida“, relata ela, tendo na voz a experiência de quem sentiu o pesadelo da violência doméstica na pela. O nome da personagem desta matéria foi alterado para preservar a identidade da vítima.

A presidente do Conselho Municipal de Defesa da Mulher (Comdim), Carliane Pinheiro, a “Kaká”, também salienta a importância de as vítimas deste tipo de crime buscarem apoio. “São muitos os casos de violência contra a mulher. Elas demoram muito tempo para relatarem, com vergonha e com medo. Quando se fortalecem em rodas de conversa, ficam seguras para falar. A história de uma é parecida com a da outra. É importante um espaço seguro de acolhimento, sem julgamento, fortalecendo e orientando a vítima. Isso faz toda a diferença. A mulher precisa saber que não está sozinha que existe uma rede de proteção”, ressalta.

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