Trecho do quadro A batalha dos Farrapos, de Wasth Rodrigues

Farrapos e Imperiais passaram por aqui numa época em que o território da atual Montenegro ainda pertencia a Triunfo

Nos tempos da guerra era comum enterrar as economias

Nos limites de onde se fundou Montenegro, havia grandes estâncias, sem ruas, vilas ou qualquer traço da cidade que hoje conhecemos. Durante a Revolução Farroupilha, os moradores do Faxinal de São João do Montenegro ficaram divididos, com cerca de 20 chefes de famílias, estancieiros, para cada lado. É o que aponta o teólogo Eduardo Kauer. Na época, o que hoje conhecemos como as cidades de Montenegro, Carlos Barbosa e Bento Gonçalves, eram pertencente a Triunfo, terra natal do presidente da República Rio-grandense. Daí a suposição de que Bento Gonçalves tenha cruzado inúmeras vezes por aqui.

A localização geográfica, também de muitos “passos” e com provisão de gado e cavalos, fazia desta região zona de trânsito contínuo, ora de Farrapos, ora de Imperiais. Em Montenegro houve alguns combates, conflitos menores dentro da revolução. “Por vezes com 45 homens, outras com 200 combatentes”, afirma. Portanto as mortes repercutiam com muito impacto nas estâncias, que se somadas em população, não deviam passar de mil habitantes. “Então 20 mortos em um só dia era uma tragédia de grande magnitude para os moradores”, aponta. Uma curiosidade é de que não há registro de estancieiro ou morador destas bandas que tenha se alistado para os grandes combates.

A guerra consumiu a riqueza dos charqueadores e donos de estâncias. Porém, ao término do conflito eles gozaram de prosperidade no fim do período imperial. “Teve um boom econômico a partir de 1842, quando Duque de Caxias assume governo da província. O pólo calçadista de São Leopoldo se firmou, por exemplo,” afirma Kauer.

Lendas de Tesouros enterrados
O Teólogo aponta que as lendas sobre moedas imperiais enterradas na região têm fundamento em uma prática comum nos tempos de guerra. Era uma espécie de poupança manter o dinheiro enterrado à sombra de uma árvore nos fundos da estância. “Quem vendia gado, acumulava o dinheiro para investir dali um ano, dois. Tudo era enterrado e com a guerra o medo de ser saqueado era maior ainda”.

Por outro lado, somente os pais de família tinham esse conhecimento. Não comentavam nem com a esposa ou filhos. “Muitos desses chefes de família morreram em combate e levaram com eles esse segredo, deixando os filhos e a esposa sem acesso a localização das moedas”, aponta o Kauer.
Porém, desde a guerra, não se tem registros oficiais de que alguns desses tesouros tenham sido localizados nos domínios de Montenegro.

Moringue – O Algoz dos farrapos
Nossa entrevista com o historiador Flávio Patrício Vargas começou pelos imperiais, mais especificamente pelo Moringue, também conhecido como Coronel Chico Pedro de Abreu. Segundo o IBGE, Moringue recebeu as terras pertencentes a Montenegro e Maratá da coroa brasileira no pós-guerra e vendeu essas terras para os novos moradores que aqui se instalavam na segunda metade do século XVIII. “Tu sabes as terras da igreja evangélica aqui (rua Fernando Ferrari) , foram doadas pelo Moringue. A Rua Buarque de Macedo e a rua Osvaldo Aranha, foram traçadas a mando dele”, revela Flávio.

Conta a história que Moringue, o Barão do Jacuí, foi um homem sanguinário, valente e de muita sorte na guerra. “Ele foi um dos algozes dos farroupilhas. O pior algoz. Ele e o Bento Manuel Ribeiro”, ressalta.

Morro da Fortaleza, 13 de Julho de 1837
Na famosa batalha do Morro da Fortaleza, travada em solo montenegrino Moringue escapou da morte pelas mãos do capitão farrapo, Joaquim Alves Fanfa. Segundo o historiador, os imperiais vieram com 500 homens de Porto Alegre por embarcações até o pontal, na foz do rio Jacuí, quase com o rio Caí, após um estancieiro aliado ao império avisar o governo na capital. Os farrapos que estavam acampados no Morro, já entrincheirados, aguardavam pelo combate. Eram cerca de 150 homens e não esperavam tantas tropas de infantaria e de cavalaria do império. Tão logo a batalha começou, para preservar as vidas dos revolucionários, o capitão Fanfa deu toque de recolher. “O cap. Fanfa ficou pra trás para assegurar a retirada e nisso trocou tiros com o Moringue. O cavalo foi atingido e Moringue ficou preso nos arreios”. Um alvo fácil para um experiente capitão de Bento Gonçalves.
Prestes a ser morto pelo capitão Fanfa, o líder imperial ainda desembaiou a espada na tentativa de atingir o oponente, quando se ouve um tiro do meio do mato, que tirou a vida do capitão farroupilha. “O disparo foi de um imperialista da Fortaleza, Custódio Garcia que com tiro de garrucha livrou Moringue da má sorte que lhe aguardava”, aponta Flávio Patrício.

Na contabilidade oficial neste combate, morreram 20 farroupilhas, quatro feriados e sete prisioneiros. Do lado imperial, resultou em um alferes ferido e o próprio Moringue.

Entre os 500 soldados de Porto Alegre, estavam 50 homens aqui do Faxinal do São João de Montenegro, afirma Flávio Patrício. “A tropa era mantida aqui pelo Cel. Manuel José de Simas, de uma família de imperialistas. A tropa era para impedir a passagem de farrapos por estas bandas”, aponta o historiador. O apoio vinha de São Leopoldo . “O Doutor Hillebrand, dava suporte aos aliados do império do Faxinal”, aponta seu Vargas. Ainda hoje existe uma cruz no morro da Fortaleza, da época do combate farroupilha travado na localidade, segundo relata o historiador.

Bento e a negra Maria
Versa a história que o general tinha no rastro da tropa, uma amante, descendente de escravos, reconhecida por sua beleza, chamada de Maria da Conceição. Grávida de Bento Gonçalves, na passagem por Triunfo, ela teve as dores de parto. “O general deu alto nas tropas e depois do nascimento parou em um bolicho do amigo Antônio Azeredo, para deixar a mãe e a criança amparadas”, afirma Flávio Patrício Vargas.

Bento Gonçalves tinha ideia de voltar, mas a história não o permitiu. Passados dois anos, a jovem aparece grávida novamente. “Era o filho do seu Antônio, um jovem de 20 anos. Seu Antônio o chamou as responsabilidades e eles casaram”, afirma. O casal Azeredo foi morar na fazenda e deixou o bolicho para o filho, nora e os netos. “O casal teve outros seis filhos, além do mais velho, e até hoje há descendentes dos Azeredo aqui em Montenegro”, ressalva o historiador.

Ossadas no arroio da Amora e da Cria
Anos depois da guerra, foram descobertas ossadas humanas no Arroio da Amora e no Arroio da Cria. O historiador também explica o episódio. O coronel Simas fazia suas incursões e, ora vencia, ora tinha que fugir. “Para chegar à estância em segurança, o coronel deixava sentinelas que davam combate até ele chegar em casa. Daí a origem dessas ossadas”, aponta Flávio Patrício.

Outra participação montenegrina teria sido no combate de Taquari, que nunca aconteceu. “Bento Gonçalves tinha seis mil homens e o império fugiu do confronto. O presidente da República Rio-grandense passou pelo menos duas vezes por aqui”, destaca.

1 comentário

  1. Parabéns ao jornalista Eduardo Silva e ao Jornal Ibiá por esse registro histórico impecável. Orgulho de ser assinante ao lado de Tiana Drower Silveira que tem raízes muito antigas no Faxinal. Montenegro sacrificou-se pelo ideal de liberdade da Revolução.

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