Kauã torce desde pequenino

Fundada há 43 anos, a Associação Chapecoense de Futebol coleciona admiradores e torcedores de diferentes idades. Em uma cidade com cerca de 210 mil habitantes, o clube é uma das grandes diversões, que fazem da Arena Condá o seu ponto de encontro em dias de jogos.

No Oeste Catarinense, na divisa com o Rio Grande do Sul, a comunidade de Chapecó mantém uma proximidade com o clube que impressiona quem é de fora. Para saber sobre as coisas da Chape, nada melhor do que falar com o seu torcedor nas ruas. E será este mesmo torcedor, que está pronto para voltar a fazer o clube protagonista do futebol brasileiro, assim como fez de 2016, que fará deste ano inesquecível.

Uma paixão passada por diferentes gerações
É um amor que passa de geração para geração. O aposentado Vadecir Rodrigues aproveitava o fim de noite para passear com o neto Kauã Pietro Rodrigues, dois anos e oito meses, na praça Coronel Ernesto Bertasso, no centro da cidade.

Apesar da pouca idade, o garotinho exibia, feliz da vida, a camisa da Chape. Com a experiência de ter atuado nas categorias juvenil e júnior do clube, Valdecir destaca que a cidade abraça o time, por isso a Chape tem conseguido se tornar tão forte nos últimos anos. Valdecir recorda que, não muito tempo atrás, mais ou menos em 2008, o clube esteve próximo de fechar as portas, mas graças à união entre torcedores, imprensa e empresas, a Chape superou o momento ruim para trilhar a série de conquistas dos últimos anos.

Valdecir espera este recomeço dos jogos, depois da tragédia, para ostentar novamente a camisa oficial. “Mas só vou voltar a usar a camisa à medida em que a resposta do time for à altura da Chape”, sentencia.

O segundo time do PM reformado de São Paulo
Policial militar reformado em São Paulo, Moisés Antonio Felisbino, 54 anos, foi para Chapecó acompanhado da amiga Ivanete Signor para rever familiares, entre eles, o concunhado Egidio Limberger, que o ciceroneou em visita à Arena Condá, na semana passada. Torcedor do São Paulo, o PM aproveitaria a estada na cidade para acompanhar a partida contra o Palmeiras, no sábado, no chamado Jogo da Paz, encerrada em 2 a 2.

Para ele, os novos jogadores que chegaram precisam vestir a camiseta do clube, assim como fizeram aqueles que partiram de forma trágica. “Eles precisam demonstrar amor, mas agir com sinceridade e honestidade para formarem uma nova família”, observa.

A identificação com o clube, sublinha, começou há cerca de quatro anos, mas os últimos acontecimentos afloraram o sentimento. Hoje, garante que a Chape é o seu segundo time. Por isso, diz que a perda de tantas vidas com a queda do avião é como se tivesse perdido um pedaço de si. “O dia 29 de novembro (de 2016) será um dia para ser lembrado assim como o da morte do Senna (Ayrton)”, considera.

Comerciante fazia churrasco para os jogadores
Natural de Porto Alegre, Deoclecio Kich, 62 anos, mantém há 37 anos um restaurante, atualmente localizado na rua Nereu Ramos. Neste endereço, está há 31 anos. Por si, só isso já chamaria atenção. Entretanto, embora diga ser um colorado doente, o comerciante é uma memória viva dos bastidores da Chape.
Deoclecio sabe tudo. Ou quase tudo que ocorre pelos lados da Arena Condá. Durante muitos anos, serviu de graça refeições para a meninada do clube nos tempos de vacas magras da Chape. O time profissional, antes de atingir o patamar atual, cansou de almoçar no estabelecimento de Deoclecio.

Tamanha identificação e proximidade com os jogadores rendeu até churrascos em sua casa para atletas e seus familiares. Em tempos antigos, chegou a abrigar em seu imóvel um jogador que não tinha onde passar a noite. Uma das referências de Chapecó, o restaurante era também ponto de encontro para os profissionais de imprensa que vinham todos os dias ao local para almoçar antes do terrível acidente.

Acostumado a frequentar o estádio, o comerciante resistiu a colocar os pés na arquibancada contra o Palmeiras por conta das lembranças. Acabou convencido pelas filhas Samara e Mayara, que trabalham como voluntárias no grupo de apoio, executando funções nas catracas de acesso às arquibancadas em dias de jogo. “Será triste, mas em Chapecó só temos trabalho e a Chapecoense para nos divertir. O futebol é a nossa diversão”, opina.

Deoclecio mantém comércio no Centro

Há 30 anos na cidade, Egidio mantém confiança
Natural de São José do Cedro, também no Oeste Catarinense, Egidio Limberger está em Chapecó há 30 anos. Desde a chegada, passou a ser torcedor da Chape. Por conta disso, diz, com propriedade, que a tragédia passou e não se pode ficar preso a ela, só lamentando. Afinal, a vida segue.

“Foi construído outro time, temos que nos espelhar nos exemplos que ficaram, mantendo o mesmo espírito de luta, união, dedicação. Formar uma grande família”, sublinha. Confiante, Egidio acredita que esta nova formação obterá bons resultados, assim como o time que se foi. A convicção é sustentada por ter uma diretoria séria, um técnico capaz e a volta de Maringá (diretor de futebol).

Egidio chegou à cidade e passou a torcer pelo Verdão

“Estou com bastante esperança. Estes atletas que foram trazidos têm o mesmo perfil que os outros”, conclui Limberger. Para ele, o bom resultado na Copinha é uma demonstração de força.

Climene, por pouco, não conheceu seus ídolos
Funcionária pública, Climene Israel, 48 anos, trocou Belém do Pará por Chapecó devido a uma transferência do serviço, há pouco mais de um mês, com a expectativa de encontrar pessoalmente os ídolos que admirava apenas pela tevê. Tamanha devoção fez com que escolhesse um imóvel a uma quadra da casa da Chape. Quis o destino que a funcionária pública guardasse os jogadores apenas em sua memória.

No final de uma manhã, Climene, que é torcedora fanática do Remo, encarou o sol forte ao lado dos filhos e da irmã Cristiane Israel, 43, torcedora do Paysandu doente (fez questão de dizer que não é remista) na bilheteria. O objetivo era comprar ingressos para o amistoso de sábado contra o Palmeiras. Com o conhecimento do clube, por conta dos jogos transmitidos pela tevê, lembrava que passaria a torcer por um time que está na Série A do Brasileirão, enquanto o seu Remo amarga a Série D.

“Quando viemos para cá, a expectativa era bem diferente. Agora estamos participando da reconstrução do time”, pontua. Para a funcionária pública, será o momento de dar toda a força do ponto de vista emocional e emprestar solidariedade para o renascimento do Verdão do Oeste.

Climene (E), com os filhos e a irmã, trocou Belém por Santa Catarina

A caminho da praia, argentinos desviam a rota
Com dez integrantes, três famílias argentinas, naturais de Rosario, Santa Fé e Buenos Aires, desviaram a rota na segunda-feira ao entrar no Brasil para passar por Chapecó antes de chegar ao destino final – São Francisco do Sul -, em busca do sossego em uma praia. Conforme o operador de rádio Fernando Ernandez, 46 anos, a ideia do grupo era conhecer o estádio e o clube e registrar as recordações através de imagens e vídeos.

Para ele, a Chape é uma equipe nova, revelação no futebol a partir do que fez no ano passado, tendo chegado às decisões de surpresa. Isso chamou a atenção na Argentina antes e depois da tragédia. Fernando comenta que o clube está em evolução e fez questão de acrescentar que os moradores de Chapecó são um povo solidário e humilde.

Argentinos de três famílias, a caminho do litoral catarinense, pararam em Chapecó
Compartilhar

Deixe seu comentário