Ações como furtar energia elétrica, os famosos “gatos”, são crimes sujeitos a punição da justiça. Fotos: Reprodução internet

INOFENSIVAS? Comprar produtos roubados e fazer “gato” são algumas das formas de contribuir para o crime

Receptação de itens roubados ou furtados é crime. Fazer ligações clandestinas de energia elétrica, internet, água ou gás é ilegal. Consumir bebida alcoólica e conduzir veículos automotores também é contra as regras e coloca em risco a vida de muita gente. Tudo isso é de conhecimento geral, ou ao menos deveria ser, mas na hora de ser beneficiado por uma dessas situações, muita gente “esquece” que está cometendo um crime e contribuindo para o aumento da criminalidade e da violência. Antes de tomar decisões que podem afetar toda a sociedade, o cidadão precisa parar, pelo menos por um segundo, e pensar no seu papel como agente social.

Colocar a culpa da violência nos governos, na falta de Segurança Publica e de caráter dos contraventores é fácil. Difícil é reconhecer que a cada próprio passo errado se está contribuindo para o aumento da desordem. Para o comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar (5º BPM) de Montenegro, tenente-coronel Rogério Pereira Martins, a violência e a criminalidade são causadas por vários fatores. Para mudar o atual quadro social, é preciso trabalhar alguns pontos principais.

Pereira Martins destaca que, para conter a criminalidade é preciso atuar na prevenção. O foco das ações deve ter início pela educação. A conexão dos órgãos de segurança e justiça, a criação de políticas públicas e a ressocialização de apenados devem ser tratados, paralelamente, com igual atenção. Contudo, cada ser humano pode auxiliar na conquista das mudanças que tanto se busca. Medidas simples como educar os filhos e não alimentar o crime são de grande importância para diminuir a violência.

Cada um deve ter em mente que, ao cometer o que pode parecer um pequeno deslize, como comprar uma TV, pneus ou outros produtos sem procedência, e com valor muito abaixo do vendido nas lojas, está incentivando ladrões a cometerem novos delitos. Assaltos, roubos e sequestros são os crimes mais comuns praticados por quem quer obter dinheiro fácil se valendo de pessoas trabalhadoras ou com maior poder aquisitivo. Uma simples reflexão pode ser fundamental na promoção das mudanças. Como você se sentiria se tivesse objetos roubados de sua casa e soubesse que um vizinho os adquiriu por menos da metade do valor que você se esforçou para pagar?

“Não compre produtos que não têm origem legal. Não movimente o mercado da receptação. Quando um cidadão adquire um produto abaixo do preço de mercado, está praticando o crime penal chamado receptação e está alimentando cadeias clandestinas de furtos e roubos. O cidadão que compra pneus usados em uma borracharia e não sabe a procedência, na maioria das vezes, está adquirindo um item de veículos furtados ou roubados que são depenados e vendidos por peças”, detalha o comandante do 5º BPM.

Pereira Martins destaca ainda que a violência e a criminalidade se dão mediante o descumprimento de regras. “Só temos o crime de tráfico de drogas porque temos pessoas que são clientes dos traficantes. Pessoas que, ao consumir drogas, alimentam essa cadeia do crime organizado, do roubo de veículos e estabelecimentos comerciais, sustentando indivíduos que precisam gerar dinheiro para comprar drogas”, explica. “A prevenção se dá, principalmente, no papel do cidadão e do Estado no desenvolvimento de políticas públicas que não são somente na área da segurança pública, mas que também abrangem a educação e outros setores. A prevenção à violência se dá pelas pessoas, o papel de cada cidadão na sociedade, em fazer o certo, cumprir leis e regras para que seja possível todos viverem harmonicamente”, reitera.

Prevenção é a saída contra os crimes
A prevenção primária se dá na atuação de cada indivíduo e, principalmente, dos municípios, através da oferta de educação de qualidade, serviços e obras públicas e áreas de lazer para as crianças que precisam disso para se desenvolver socialmente, defende o comandante Rogério Pereira Martins. Os municípios que mais se desenvolveram na prevenção dos crimes e da violência são aqueles que mais investiram na prevenção primária. “Como exemplo, no Brasil temos o município de Diadema, em São Paulo, que no ano 2000 tinha mais de 100 mortes a cada grupo de 100 mil habitantes, por ano, e desenvolveu planos de segurança municipal que não envolveram somente os atores da segurança pública, mas as áreas de educação, obras, colocou em prática uma série de restrições e medidas quanto ao uso e álcool e drogas, urbanização de áreas em deterioração. Esse conjunto de medidas, 19 anos depois, resultou na queda do número de mortes para 10 a cada grupo de 100 mil habitantes ao ano”, observa.

Descontrole no trânsito promove agentes da violência
“O trânsito manifesta todo o descontrole que a sociedade apresenta. Temos cidadãos de bem, cumpridores das leis, pessoas responsáveis e trabalhadoras, mas que, quando estão na direção do automóvel, se transformam, seja pela potência do veículo ou pelo senso de que podem tudo”, observa o comandante Rogério Pereira Martins em relação ao comportamento de alguns motoristas.

Para ele, também neste caso, todos têm direitos e deveres, principalmente, de cuidar daqueles que estão fora da “gaiola de segurança”, que é o carro, como ciclistas e pedestres.

O comandante pede tranquilidade ao enfrentar situações adversas: “Se você for alvo de uma infração de trânsito, respire fundo, pense que qualquer ato que fizer terá consequência e, muitas vezes, serão danosas. Por uma simples infração de trânsito, nós podemos deixar uma pessoa paraplégica ou, até mesmo, tirar a vida de uma pessoa que vai fazer falta para sua família”, ilustra.

José de Jesus Cirne da Silva

A violência causada pelo abuso de álcool e outras drogas
Engajado em diversas campanhas de prevenção ao uso de álcool e drogas, o tenente-coronel da Brigada Militar, José de Jesus Cirne da Silva, assinala pontos importantes relacionados à ligação do uso de drogas, lícitas ou não, com ações que estimulam a violência.

José de Jesus lembra que evidências clínicas e científicas demonstram que o crescente consumo de drogas é um problema que impacta a sociedade de forma devastadora, representando um complexo problema de saúde pública, afetando homens e mulheres de diferentes idades, em especial os jovens. “Inegavelmente, estamos diante de um grave problema social, além de trazer grandes riscos à saúde das pessoas”, sublinha.

“Oportuno destacar que todas as drogas são maléficas. Todavia, sabemos que possuem diferenças e provocam danos comuns e danos específicos. A variabilidade dos efeitos provocados por cada tipo de substância sugere a contribuição de fatores sócio-culturais e de personalidade. Assim, temos uma interferência direta dos fatores individuais, sociais e culturais”, observa.

“A maior parte da população acaba experimentando álcool no final da infância e início da adolescência. É uma droga permitida e até mesmo estimulada. Há festas de 15 anos com bebida permitida. Há eventos culturais e esportivos patrocinados pela indústria do álcool, propagandas que estimulam o consumo”, trás o tenente-coronel em sua reflexão.

Rogério Pereira Martins comandante do 5ºBPM

As pessoas envolvidas com uso e abuso de álcool e outras drogas ficam mais suscetíveis à queda de produtividade física e intelectual, acidentes de trabalho, acidentes de trânsito, faltas freqüentes ao trabalho e relações familiares e sociais com problemas, bem como inúmeros impactos a saúde, entre outros problemas decorrentes. “Podemos afirmar que o álcool e outras drogas apresentam complexas relações com diversos atos de violência. Assim, impactam em condutas anti-sociais nos espaços públicos e privados. Potencializam comportamentos violentos em estádios de futebol, festas, relações familiares, bem como representam um agravamento da criminalidade e relações interpessoais em geral”, diz José.

Vários estudos reconhecidos na literatura científica comprovam que elevado percentual de mortes ocorridas por acidentes de trânsito apresentam o álcool como fator associado. Nesse sentido, os especialistas concordam que álcool e drogas freqüentemente têm papel importante nas atividades violentas, com nexo causal entre essas substâncias e atos violentos.

Estudos e evidências do cotidiano mostram que o abuso de álcool pode ser responsável pelo aumento da agressividade entre os usuários. Seu “status de legalidade” torna-o socialmente aceito e largamente consumido, ainda que se tente regular seu uso. É uma droga democrática: esta nas casas, nos bares, nas festas. O álcool é uma droga e não existem níveis seguros para consumo para jovens.

O álcool representa um dos maiores problemas de saúde, embora não seja tratado com o cuidado que merece. “Infelizmente, a visão da sociedade e da família sobre o uso do álcool é bastante equivocado e negligenciado o elevado potencial lesivo que representa”, julga. “Aliás, merece destaque que os pais são ‘espelhos para os filhos’. Em geral, o consumo de bebidas alcoólicas é comum em muitas casas. Como é relação dos pais com o álcool? Dirigem após beber? Exageram no uso? Associam o uso da substância ao relaxamento, comemorações?”, questiona o especialista.

O tenente-coronel chama atenção para a facilidade de acesso ao álcool pelos jovens e a população em geral. “Os anúncios publicitários condicionam os jovens a perceberem o álcool como uma substância que pode conferir realizações pessoais e sociais (amizades, inclusão social, status, momentos de prazer, etc.), o que estimula o desejo pela droga, em um período da vida, onde a curiosidade e a experimentação são características presentes”, diz.

“Temos que alertar que as estratégias de vendas da indústria do álcool têm forte impacto no crescimento do padrão de consumo de bebidas alcoólicas entre adolescentes brasileiros, sendo um forte indutor de consumo, visto que busca sempre o lucro. Urge oferecer à população campanhas educacionais que tratem das conseqüências do consumo de bebidas alcoólicas pelos jovens e das nefastas conseqüências que representam na violência do trânsito, com perdas prematuras de vidas e aos sobreviventes dos sinistros, não raras vezes seqüelas físicas decorrentes dos vários traumas sofridos”, conclui.

A psicóloga Paulina Pölking estimula a reflexão sobre os inúmeros fatores que geram a violência

Cabe aos adultos avaliarem as consequências
A psicóloga Paulina Pölking avalia a necessidade da reflexão sobre os fatores que geram a violência. E para ilustrar seu raciocínio, traz o diálogo entre Sigmund Freud e Albert Einstein, dois dos mais conceituados pensadores e filósofos de todos os tempos, em uma atividade de troca de correspondências, promovida pela Liga das Nações. Nela, Einstein questiona Freud sobre o porquê da Guerra, referindo-se aos prenúncios da Segunda Guerra Mundial.

“Einstein questiona se é possível controlar a evolução da mente do homem de modo a torná-lo à prova de psicoses, do ódio e da destrutividade. Freud fala que a agressividade faz parte de todo o ser humano. A agressividade é um componente constitutivo do ser humano, nos diz Freud.”, sublinha Paulina.

Segundo Freud, para mudar o caráter violento carregado por cada pessoa é preciso usar como ferramentas de transformação a cultura e a educação. “A educação deve estar a serviço de dar outro destino àquilo que é agressivo dentro do homem”, diz Paulina.

Quando se investe em educação, é oferecida a oportunidade de desenvolvimento humano para a população e viabiliza-se outro destino para aquilo que é chamado de núcleo da violência no ser humano. Para a psicóloga, vivemos tempos adoecidos, onde a violência é estimulada nos mais diferentes âmbitos. “A gente observa materiais audiovisuais que circulam, precisamos reconhecer o quanto isso está calcado na violência, tanto no mundo da fantasia como na vida real, nos noticiários, nos fatos acontecidos”, indica.

“As crianças vivem tempos onde acabam tomando contato com a banalização da violência. Não se vai a fundo nas consequências, em observar o que aquilo causa nas pessoas, na questão da dor, do desamparo. Acho que cabe aos adultos uma visão crítica frente aos fatos que se apresentam”, avalia Paulina. Cabe ao adulto avaliar as consequências das condutas. “De nada adianta gritar com uma criança dizendo para ela que não grite. A gente precisa ter uma coerência entre aquilo que diz e aquilo que se pratica”, enfatiza.

O outro ponto muito importante, segundo Paulina, é investir na cultura solidária, nas ações de cuidados com a vida. “Ações como Um Segundo Contra a Violência podem ser pensadas por um outro viés, que é Um Segundo a favor da Vida. Essas campanhas são fundamentais, precisamos estimular o pensamento, a reflexão, que são constitutivas do ser humano. Esses são caminhos possíveis para o resgate de um cenário social menos violento”, pontua Paulina.

Desconfie, não existe dinheiro fácil
Muitas pessoas se aproveitam de determinadas situações para tentar obter benefícios e acabam caindo em golpes, como o famoso bilhete premiado. Tem aqueles que se acham espertos e acreditam que vão levar vantagem, quando na verdade estão sendo vítimas de malandros treinados para enganar.
Outra situação que testa o caráter das pessoas é a possibilidade de desfrutar de serviços aos quais não têm direito. Um exemplo comum desse tipo de situação é o furto de energia elétrica, água, internet e outros.

Os órgãos de segurança estão de olho para punir quem faz “gato”. “A pessoa vai ser responsabilizada. Então, cumpra seu papel de cidadão. E lembre-se que cidadão é sujeito de direitos e deveres”, orienta o comandante Rogério Pereira Martins.

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