Os animais ficam confinados em uma área consideravelmente maior do que no manejo “convencional”. têm cerca de 100 metros quadrados por cabeça

Na localidade de Pesqueiro, atividade foca na qualidade da carne, sem desconsiderar o bem-estar dos animais

A Fazenda Gabardo, na localidade de Pesqueiro, trabalha com gado de corte há seis anos. Hoje com 2.600 cabeças – em um total de 4 mil, somando as demais propriedades dos fazendeiros, com animais de cria, recria e engorda – eles põem em prática o manejo “semiconfinado” e têm ganho destaque, inclusive, fora do Brasil.

Os empreendedores já foram visitados por laboratórios e produtores da Argentina e dos Estados Unidos e selecionados para participar do projeto “Pecuarista de Valor”, que oferece assessoria para negócios do tipo em todo o país. Da região Sul, a fazenda é uma das duas participantes.

Quem trabalha com gado de corte sabe: todos os processos podem influenciar na qualidade da carne que será obtida como produto final. Pela forma “tradicional” de criação e engorda, o gado é deixado solto, no pasto, e é dali que ele tira o seu alimento. Estima-se que, neste sistema, ele ganhe 0,5 quilo por dia.

A criação “confinada” veio para intensificar este processo, economizando tempo. Seguindo este método, os animais são colocados em um espaço restrito que, idealmente, tem 15 metros quadrados por cabeça de gado. Há registros de práticas onde o espaço é ainda menor. Nesta situação, a alimentação é reforçada com diferentes suplementos e oferecida periodicamente. O animal ganha peso mais rápido – mais de 1,5 quilos por dia – aumentando a produção.

Na Gabardo, foi posto em prática um meio termo entre o método original e o confinado. No “semiconfinado”, o gado de engorda fica preso, mas em um espaço bem maior, de cerca de 100 metros quadrados por animal. Eles recebem uma alimentação balanceada de duas a três vezes ao dia, com farelo de soja e silagem, que vem da própria propriedade, em quantidade equivalente a 3% de seu peso. Mesmo tendo espaço para correr e gastar energia, a fazenda garante um ganho de quase 1,4 quilos ao dia na engorda.

Daniel Guizzardi, administrador da Gabardo

“Muita gente vê o gado correndo e perdendo energia e acha que estamos perdendo dinheiro. Para mim, se ele está correndo no espaço é porque ele tem saúde”, avalia o administrador da produção, Daniel Guizzardi. Ele explica que, por oportunizar uma área maior de desenvolvimento ao animal, ele ganha muito mais facilidade no manejo, pois se cria um gado mais calmo. Além disso, aponta, o estresse de um confinamento pleno pode trazer consequências como doenças e falta de apetite, que prejudicariam a engorda.

“Pensando no bem-estar do animal, tudo se torna mais viável. Aqui é dar o respeito para ter o respeito”, coloca Daniel. Ele aponta que não usa cachorros para conduzir a mangueira e que busca trabalhar sempre em harmonia. Há horários fixos para tudo e também o trabalho técnico de diversos profissionais que acompanham o comportamento e a saúde dos animais, bem como os diferentes protocolos e regras sanitárias a serem seguidos.

Todo o processo se reflete na carne que chega ao consumidor lá na frente. “A mentalidade do nosso negócio é produzir carne e não engordar boi”, afirma o administrador. “Nós somos apreciadores de uma boa carne e tu vê a diferença no sabor, na cor e na textura dela.” Cada bovino é etiquetado e oferece toda a rastreabilidade de quem são os animais geradores, as vacinas tomadas e os protocolos sanitários realizados.

Produto mais caro, mas de confiança

Semiconfinados, animais recebem alimentação balanceada com farelo de soja e silagem

Seguindo os diferentes protocolos, procriando na propriedade, com dieta balanceada e garantindo toda a rastreabilidade do animal, a carne proveniente da fazenda é mais cara. “Nosso custo acaba sendo maior, porque demanda mais qualificação”, explica Daniel Guizzardi.

Ele afirma, no entanto, que, além da maior qualidade, o consumidor tem dado valor à confiança ao adquirir o produto. Isso foi potencializado desde o escândalo envolvendo a empresa JBS e a carne com papelão. “O mercado está mais preocupado em comprar de um fornecedor confiável, com um produto com procedência garantida”, avalia o administrador da Fazenda.

Produção o ano todo
No sistema “semiconfinado”, o período de engorda é de, em média, 90 dias. Baseado na alimentação complementar, sem depender só do pasto, a produção segue durante todo o ano, trabalhando para intensificar seus resultados durante os períodos em que os demais criadores – os “convencionais” – não têm tanto produto para suprir a demanda. Por ano, a produção média é de mil cabeças.

Trabalhando ainda com cria e procria, a fazenda no Pesqueiro – que também produz leite -, tem mais de 30 lotes onde mantêm os bichos. Eles são separados por categorias, como de engorda, novilhos, terneiros, vaca parida, vaca que vai parir, reprodutores, etc. Toda a produção é de gado de linhagem européia, preponderantemente da raça Angus.

Crias da própria fazenda

Cada touro chega a 1.300 quilos. Eles “cobrem” cerca de 90 vacas/ano

O gado da Gabardo nasce na Gabardo. A Fazenda realiza reprodução natural e artificial, dependendo do período, para sempre manter a produção. Cada touro – que chega a pesar 1.300 quilos – “cobre” cerca de 90 vacas por ano, em um rodízio. Quando nascem os terneiros, já aos 90 dias de vida, eles começam a ser estimulados a procurarem alimento no coxo, desligando-se, aos poucos, da mãe.

Para isso, a fazenda desenvolveu uma alimentação especial que nutre e é atrativa ao animalzinho. Quando ocorre a desmama, aos 180 dias, então, o terneiro já está com um peso considerável e não fica tão estressado ao ser separado da vaca e ir para o local de “semiconfinamento”. Consegue-se que ele chegue ao abate mais precocemente, sem ser necessária uma adaptação mais traumática.

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