Reprodução de uma foto, a arte na parede da Casa do Produtor Rural, de Paulo Giovani Bender, aproxima o presente e o passado

Um muro pode ser local de lamentações, de promessas ou de reencontros, dependendo em qual cultura estiver construído. Em Montenegro, foi uma parede que adquiriu essa conotação especial, cheia de memória, história e significações, onde o presente encontra o passado.

Embelezando a fachada da Casa do Produtor Rural, a ilustração de trabalhadores em uma locomotiva nos tempos em que embarcava e desembarcava passageiros na Estação Ferroviária de Montenegro, soltando fumaça sob o apito do maquinista, conserva uma importante parte da história local.

A arte faz parte de uma iniciativa do projeto de extensão da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), em parceria com a Prefeitura de Montenegro, e idealizada juntamente à coordenação da Casa do Produtor. O responsável por esse resgate histórico é o estudante de Artes Visuais da instituição, Paulo Giovani Bender, 48 anos.

Imagem traz funcionários da antiga ferrovia em cima de locomotiva. Muitas das pessoas retratadas não estavam na original

Em seu quinto ano de graduação e com o trabalho de conclusão do curso em andamento, ele trabalhou aos sábados e domingos à tarde para pintar a fachada. A única ilustração de outro artista — de Erasmo Carlos — é o rosto gigante e o esboço do carro de boi iniciado por outro colega que não permaneceu no projeto, mas concluído por Paulo.

“A ideia de representar a locomotiva veio para homenagear, além da história, o bairro Ferroviário, onde ficava a antiga Estação e fica a parede pintada. A partir de uma imagem retirada da internet, resolvi reproduzi-la e a arte começou a ganhar vida com ajuda da população”, explica Giovani.
Inicialmente, sem conhecer as pessoas capturadas na fotografia, ele recebeu a ajuda do conhecido Nelson Oliveira, que identificou antigos funcionários, citando nomes e funções.

“Os cinco primeiros eu fui atrás. Pesquisei suas histórias. Os que não faziam parte da foto original e estão pintados foram surgindo por solicitação das pessoas que identificavam a história familiar vendo a criação. O trabalho urbano tem como característica essa interação com o público e a possibilidade de interferência. Nessa obra, em especial, optei por desenhar pessoas que trabalhavam na ferrovia e ainda têm familiares ainda na cidade como forma de homenagem”, enfatiza.

De acordo com ele, a pintura “Ilustres desconhecidos” ainda não está concluída. Falta acrescentar mais colaboradores que contribuíram durante o tempo de funcionamento da ferrovia. “Iniciou com cinco pessoas e agora já está em 12, com mais quatro para adicionar, que vieram de pedidos. As que não foram retratadas foi principalmente por falta de nome completo ou a função que exercia. Também solicito aos parentes alguma imagem da pessoa na época. É impossível entender como uma história riquíssima esteja se perdendo. As pessoas que viveram naquele tempo estão morrendo e não há ninguém que registrou essa época”, salienta.

Paulo Bender é o responsável pela pintura de quase toda a fachada, com exceção do rosto gigante

Retribuindo o bem investido
Com um sorriso descomplicado no rosto e nos olhos o brilho de quem espera a valorização da arte na cidade que carrega o título, Giovani lamenta a falta de políticas públicos e incentivos.

Ele afirma categoricamente que apenas mais um município do Brasil carrega o nome de “Cidade das Artes”.

“Eu assumi o projeto da fachada como uma forma de retribuir um investimento que a sociedade fez em mim, que foi a graduação gratuita. E nós, como alunos, temos o compromisso de ocupar espaços públicos, revertendo socialmente através da arte. Dentro do tempo certo, tenho certeza que Montenegro será efetivamente a Cidade das Artes”, anima-se.

O estudante considera, atualmente, a Casa do Produtor Rural à frente da Estação da Cultura e ao Cais em questões culturais, principalmente de origem colonial.

Além das obras e releituras que colorem as paredes do estabelecimento, ele chama a atenção para os encontros e reencontros que acontecem no local. “É onde há a possibilidade de voltar às raízes. Eu ainda pretendo enriquecer a fachada com detalhes e acabamentos, potencializando ainda mais a arte na cidade”, conclui.

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