O milho está entre as duas culturas mais afetadas pela falta de chuvas em todo o Rio Grande do Sul, inclusive na nossa região

Falta de chuva e calor intenso causam perdas em culturas como milho, hortaliças e melancia

Calor excessivo, restrição hídrica (seca) e sol forte são alguns dos atuais pesadelos dos produtores rurais do Rio Grande do Sul. Segundo a Secretaria Estadual da Agricultura, essa é a estiagem mais grave desde a safra 2011-2012 no Rio Grande do Sul. No Vale do Caí as maiores perdas foram verificadas nas culturas de milho e melancia.

5Ivan Azevedo teve de irrigar a sua produção para o milho crescer bemSegundo o coordenador do escritório da Emater Montenegro, Everaldo Vinicius da Silva, a estiagem acarretou em diversos problemas como a redução da produtividade de várias culturas, e o risco de incêndio. “Tem dado bastante problema na cultura do milho. Quem plantou cedo está em uma fase da formação da espiga, e é onde a água faz mais falta”, explica.

A safra da melancia também foi afetada, principalmente no início da florada para frutificação, quando choveu muito. Agora os agricultores ainda precisam lidar com a falta de chuva no final da produção. “Nós temos visto também esse problema com os produtores de leite. Diminuiu bastante a produtividade das vacas, porque a pastagem secou e esse calor demasiado provoca stress calórico nas vacas e elas diminuem a produção do leite”, diz Everaldo.

Produtores de hortaliças, mesmo os que possuem irrigação, com o calor demasiado também não conseguem produzir. Mesmo não sendo o principal cultivo da região, os consumidores acabam percebendo a diferença na hora da compra. “O pé de alface mesmo vai alto, mas porque não se consegue produzir direito nesse calor. Como se tem menos produtividade, e justamente no verão é um período que tu quer menos coisas quentes e mais saladas, se tem o aumento do consumo”, explica. Como ocorre uma menor produção de hortaliças, o preço acaba subindo inevitavelmente.

A diferença entre milhos que foram irrigados e os que não foram

De acordo com a Emater Montenegro, a precipitação ficará um pouco abaixo das médias históricas em janeiro e fevereiro. O próximo período não dará trégua e serão meses quentes e secos, com chuvas pontuais.

Para os produtores que sofrem com essa estiagem, há meios para não sair no prejuízo. O Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), por exemplo, garante a exoneração de obrigações financeiras relativas à operação de crédito rural de custeio, cuja liquidação seja dificultada pela ocorrência de fenômenos naturais, pragas e doenças que atinjam rebanhos e plantações de pequenos e médios produtores.

Para acessar o programa o produtor deve ter acessado o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) custeio. “Conforme o produtor comprovar as perdas e que fez o projeto de crédito, a partir daí se fazem vistorias e laudos e se encaminha o seguro para ver se o produtor tem direito”, completa a extensionista rural agropecuária da Emater, Luísa Leupolt Campos.

Vandoir observa que animais mudam comportamento em razão do clima extremo, o que reduz a produção e requer adaptações no manejo do rebanho

As chuvas ajudam, mas o volume não é suficiente
Apesar das chuvas fortes e esparsas que estão caindo no Vale do Caí nos últimos dias, o volume não é o suficiente para colaborar nas plantações. Ivan Azevedo é produtor de milho, uma das culturas mais prejudicadas na região. Morador do Passo da Amora, interior de Montenegro, Azevedo cultiva esta planta há seis anos, e declara que as chuvas esparsas até ajudam, mas não são suficientes para dar as condições esperadas para o plantio.
“Esse ano foi um horror comparado ao ano passado. Na semana de sol estava todo mundo com o ar condicionado, e nós tava aqui com chapelão de palha, manga comprida e metendo água, pra ver se dava uma amenizada no calor da lavoura, para dar um conforto pro milho”, diz. Com 18 hectares plantados, quatro serão para a silagem, e 14 hectares ficarão para o grão.

Segundo ele, o milho que está cortando para a silagem era destinado para grão, porém a necessidade foi maior. “Agora estou vendendo a silagem mais no verão, por causa da seca, que terminou com os campos. A grama secou, e os animais estão sem o que comer, por isso eu estou cortando um pouco mais de silagem”, conta.

Ivan teve até pedidos dobrados. Um pecuarista para quem fornecia silagem no inverno precisou comprar seis cargas do produto, pois com o campo seco não há o que dar para os animais. O produtor de milho conta que chegou a vender um saco de silagem por R$ 6,25 e hoje, devido à estiagem, está vendendo há mais de R$ 11, quase o dobro do valor.

Norberto Haas precisou apostar no consórcio das culturas para elas renderem

Para ele uns dos maiores problemas com a estiagem é que a falta de água não enche o grão e o milho fica pequeno, com muita palha, o que é um prejuízo comparado ao ano passado. Para superar o problema, Azevedo teve que colocar uma irrigação em algumas partes da plantação, para não perder tudo. “Pedi uns canos emprestados para uns vizinhos, e conseguimos irrigar parte da nossa lavoura para encher o grão, que é o importante para a silagem, para ter uma silagem de qualidade, mas o meu milho já está passando do ponto de silagem”, diz. Foram cerca de sete dias irrigando a plantação, e seis milhões de litros do açude. O custo aumenta, mas segundo o produtor, a qualidade e o preço do milho melhoram.

Estiagem também afeta a produção de leite
“Ameniza o calor, mas não alivia e nem nutre a planta com bastante água”. É assim que o produtor de leite Vandoir Oneide Borgmann, 44 anos, resume os efeitos das chuvas que atingiram a região nos últimos dias. As pancadas esparsas não são suficientes para desenvolver o milho para silagem, plantado em meados de outubro, ou fazer novo pasto brotar, influenciando diretamente na produção leiteira. A situação na propriedade dos Borgmann, localizada em Linha Kerber, no interior de Maratá, se repete em outros locais com produção de leite no Vale do Caí.

Com um rebanho de 30 cabeças, Vandoir diz observar uma queda de 15% a 20% na sua produção leiteira em razão da estiagem e das altas temperaturas. Em sete anos no ramo, ele diz que este está sendo o pior período enfrentado em razão da falta de chuva. O produtor observa, ainda, que as altas temperaturas também influenciam no comportamento dos animais, que comem menos e, assim, produzem menos.

Com uma plantação de milho feita em meados de outubro, Vandoir projeta que sua safra terá quebra de até 30%, além de não se tão nutritiva aos animais. “Um recurso é fazer o plantio de pasto de inverno mais cedo. Até fevereiro se consegue plantar milho, mas a produção é só de 50% da capacidade”, comenta sobre opções para disponibilizar alimento ao rebanho.

Para driblar essas dificuldades, os produtores buscam alternativas. Uma delas, adotada por Vandoir, é em dias de extremo calor manter o rebanho parado durante o dia e levá-lo apenas à noite para o pasto. Outra é uma orientação habitualmente dada por entidades que prestam assistência na gestão das propriedades leiteiras: manter reserva de silagem. De acordo com Vandoir, ele possui reserva suficiente até dezembro deste ano.

Porém, se a situação não mudar, é possível que haja reflexos em 2021. O produtor de Linha Kerber já prevê que precisará se readaptar caso a estiagem se repita no final deste ano e início do próximo. Inclusive, ele não descarta ser necessário reduzir seu plantel de animais. “O colono vai se adaptando”, resume. (ARH)

“Estamos fazendo milagre”
Essa foi a primeira declaração do agricultor, Norberto Jorge Haas, de Vapor Velho, sobre esta época do ano. Produtor orgânico de hortaliças, melancia e citrus, relata que esse ano foi bem pior que o ano passado, e que a chuva intensa que caiu mais cedo acabou prejudicando a plantação. “A gente começou a se programar nos lugares mais secos da plantação, e aí começou o calor intenso, conclusão, acabamos perdendo o úmido que era pra ser seco e no seco que era pra ser úmido”.

Com a temperatura oscilando, Norberto apostou no consórcio das culturas, que consiste na plantação de espécies diferentes próximas umas das outras. Essa é uma maneira do produtor ter o que vender nos seus pontos de feira, como a Casa do Produtor Rural em que tem uma banca fixa. “A gente está tentando consorciar o máximo para proteger as plantações mais baixas com as altas, e tentando reutilizar a água para aproveitá-la o máximo possível, porque está faltando água”, conta Haas. Além disto, ele trabalha com a cobertura verde, na qual utiliza de outros meios para proteger o seu plantio, como por exemplo, o pé de alface que é protegido por um capim mais alto.

Mesmo irrigando os seus 15 hectares, ele conta que a perda foi muita, foram ao menos 60% das suas culturas perdidas. “Todos eu perdi, praticamente. Eu tinha uma entrega de brócolis que era pra ser pras entidades até sexta-feira passada (3), mas sábado e domingo queimou todas, mesmo com água e cobertura verde”, diz. Norberto perdeu toda a sua plantação de cenoura, que chegou a cozinhar no chão com o calor.

As melancias e morangas do produtor também sofreram com o calor, e ficaram queimadas devido o sol quente. “Se não fosse a irrigação, nós não tínhamos mais nada”, comenta Norberto.

Como ficam os citros?
O citrus é o ponto forte de Montenegro e do Vale do Caí e, felizmente, é uma das culturas que a seca tem afetado muito pouco ainda. Segundo a Emater, a implantação de mudas novas é feita normalmente na época de setembro/outubro, onde se tem uma maior quantidade de chuva. Nessa época mais seca do ano, os produtores normalmente não plantam mudas novas de citros e também não é período de formação do frutos na maioria das variações de citros, o que reduz o risco de perdas. “Para as culturas que já estão instaladas é tranquilo. Elas têm raízes profundas, conseguem buscar água e é sem problemas”, diz o coordenador do escritório da Emater Montenegro, Everaldo Vinicius da Silva. Neste período é a época das podas, e é muito difícil a seca afetar o citrus. O que pode ocorrer é a queda das frutas verdinhas, diminuindo a produção da safra.

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