Pais questionam origem de manchas que apareceram no corpo de seus filhos. Fotos: Arquivo pessoal

FOME E SEDE. Pais querem o fechamento do local para evitar que outras crianças sejam prejudicadas

Seis casais estão mobilizados para conseguir o fechamento da Escola Infantil Jeito de Mãe. Uma ex-professora da instituição afirma que os pequenos eram submetidos a situações de maus-tratos, como castigo por não dormirem quando eram mandados, além de não receberem alimentação adequada. A escola é particular, mas possui convênio com a Prefeitura para venda de vagas. Desde que surgiram as suspeitas, a Administração retirou todas as crianças do local e as encaminhou para unidades do município.

Aline Poliana Zarth, de 35 anos, e Tarsis Froming, 34 anos, fazem parte do grupo de pais que pedem a cassação do alvará de funcionamento da escola. O casal relata que seu filho deu entrada no local com quatro meses de vida, através de vaga disponibilizada pela Prefeitura. “Ficamos felizes que nosso filho iria para uma boa creche”, diz Tarsis. Mas logo começaram a surgir dúvidas quanto ao atendimento prestado na escolinha.

Os pais queriam conhecer as instalações e o método de funcionamento do local, mas isso não lhes foi permitido. “Sempre éramos recebidos na porta, nunca nos deixavam entrar”, comenta Tarsis. Disseram que estavam mudando algumas coisas para se adequar às normas da secretaria municipal de Educação e pediram um tempo para, depois, mostrar as instalações”, acrescenta. “O tempo passou e pedimos, novamente, para conhecer a creche. O dono disse que não poderia mostrar para não expor as crianças que estavam lá”, detalha Tarsis.

O casal diz que chegou a pedir para marcar um horário de visita sem a presença das crianças no prédio, mas a solicitação foi negada. “Ele começou a se exaltar, principalmente com a minha esposa, que fez várias perguntas sobre a alimentação e os horários. Chegou ao ponto em que ele disse que, se não estivesse bom para nós, era para tirarmos o nosso filho de lá”, revela Tarsis sobre a conversa com o dono do estabelecimento. Diante da pressão, mais uma vez, foi pedido um tempo para adequações. “Ele disse que, em algumas semanas, nos mostraria o cardápio, faria reunião com pedagoga, nutricionistas… mas passaram-se quatro ou cinco meses e nada”.

A recusa em mostrar o local despertou o interesse da família em saber como o filho era tratado. Por muito tempo, Aline acreditou que o bebê recebia comida na chamada “jantinha”, até que questionou uma das responsáveis pela escola sobre horários e que tipo de alimento era dado ao filho. A mulher afirmou que eles recebiam apenas frutas, por volta das 15h.
O desligamento de uma professora trouxe à tona outras informações sobre o local. Segundo a educadora, que não quer ter seu nome exposto, as crianças eram submetidas a situações atípicas para que dormissem. Os pequenos eram enrolados em panos, tinham as mãos amarradas nas cadeirinhas de sono e o rosto coberto. No final do mês de outubro, a ex-funcionária procurou a secretaria municipal de Educação e relatou os acontecimentos.

Conforme Aline, a Administração Municipal foi orientada pela Procuradoria Geral do Município a retirar as crianças da escolinha e procurar o Ministério Público. “No mesmo dia da decisão, recebemos uma ligação no final da tarde para que, no dia seguinte, todos levássemos as crianças para outra escola”, conta a mãe.

Contudo, segundo os relatos, muitos pais foram até a secretaria de Educação para saber o porquê da transferência, e acabaram sem respostas. Uma das mães foi atrás de informações e descobriu a existência de um registro de ocorrência feito contra a escolinha. A partir daí, outros pais começaram a se manifestar sobre fatos a que, até então, não haviam dado atenção. Pelo menos três outros registros de ocorrência foram feitos na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) de Montenegro. Os B.Os de números 6738; 6739 e 6741 foram feitos no dia 1° de novembro.

O delegado responsável pela DPPA e pela 1ª Delegacia de Polícia de Montenegro, André Roese, está de férias e não comentou o caso. Seu substituto, delegado Paulo Ricardo Costa, até o fechamento desta reportagem, não retornou às mensagens encaminhadas a ele. Conforme o chefe de Investigações da 1ª DP, Alisson Castilhos, os registros ainda não chegaram ao setor.

Ao ser contatada pela reportagem, a direção da escola se manifestou da seguinte forma: “Por orientação jurídica preferimos não responder as perguntas. Não recebemos nada oficialmente sobre o assunto, e com certeza ao recebermos iremos acionar todos os meios jurídicos e buscar reparações cabíveis a todos os envolvidos.”

Manchas no corpo e perda de peso são questionadas pelos pais
Aline Poliana Zarth relata que o filho se alimentava muito bem ao chegar em casa. “Eu pensava: que bom que ele come bem. Mas, na verdade, ele chegava da escolinha com fome”, diz. Em cinco meses na instituição, a criança não teve ganho de peso. “A professora disse que durante os 45 dias em que ela trabalhou no período da manhã, nunca viu nenhuma criança ser alimentada. Não existia fruta nem janta, como era divulgado. Ela saía ao meio-dia de lá e não sentia cheiro de comida nem via movimentação na cozinha”, acrescenta Aline.

O mesmo aconteceu com o filho de Daniela Bilheri. “Durante todo o tempo que meu filho ficou lá, quando havia algum probleminha, tudo que ele apresentava, a gente tinha um contra-ponto, por ele ser alérgico. Na questão do peso, acreditamos que ele tivesse algum probleminha para engordar. Dos quatro até os nove meses, ele não ganhou peso. Percebemos que o crescimento dele estava normal, mas o peso não”, sublinha a mãe. Até mesmo a água era controlada, diz a cidadã. “A gente procurou um nutricionista e ela recomendou dar a jantinha pra ele de noite, e ele sempre comeu muito bem. Foi ali que começou a ganhar peso”.

Os pais dizem ainda que as crianças podem ter sofrido traumas psicológicos. “O pai de uma menina de aproximadamente dois anos notou que ela enrola as bonecas quando está brincando e faz sinais para elas ficarem quietas”, comenta Aline. Outro menino estaria com dificuldades para dormir em ambiente fechado, o que é associado a algum castigo. Conforme a professora, as crianças que não dormiam quando mandado, eram trancadas na sala de troca de fraldas, ficando isoladas.

“Nós, pais, queremos que isso seja investigado. E que o fato das crianças terem sido retiradas de lá não encerre a investigação. A última coisa que pensamos foi que estivessem fazendo alguma maldade com nossos filhos. Nunca imaginei que não iam dar comida para o meu filho. Não consigo acreditar que a maldade do ser humano seja tão grande”, desabafa a jovem mãe.

Uma das famílias estranhou o sinal no braço do
menino e registrou a marca por meio de fotografia

Documento entregue ao Ministério Público pede providência
Na quinta-feira, 14, o grupo de pais procurou o Ministério Público para pedir orientações sobre como proceder. Nesta quarta-feira, 20, um ofício com assinaturas dos pais foi entregue ao Ministério Público. O documento, solicita a investigação do caso e o fechamento do estabelecimento, caso se confirmem às denúncias.

“Queremos saber o que está sendo feito para que a escola seja fechada. Meu filho hoje está bem, mas não sabemos se outras crianças estão. É uma creche particular. Não me sinto bem como pai em saber que talvez outra criança está passando por isso”, conclui Tarsis Froming.

Veja o que diz a Secretaria Municipal de Educação sobre o caso
O Jornal Ibiá encaminhou questionamentos sobre o caso à Smec. As perguntas foram respondidas pela secretária Rita Carneiro Fleck.

Jornal Ibiá – O funcionamento do local chegou a ser acompanhado por alguém da SMEC? Com que frequência eram realizadas vistorias no local?
Secretaria de Educação: A SMEC, como é de rotina em todas as escolas de educação Infantil da Rede Municipal de Ensino e conveniadas, faz acompanhamentos sistemáticos nas instituições. Quanto à Escola Jeito de Mãe, mais especificamente, o município mantinha contrato de compra de vagas emergenciais, com acompanhamento da Fiscal do Contrato, pela responsável pela Central de Vagas da Smec, a diretora do departamento de Educação e por membros do CME.

JI – Havia um acompanhamento quanto à alimentação das crianças?
SMEC – Quanto à alimentação, apresentavam um cardápio assinado por nutricionista, com CRN.

JI – Por que todos os pais que possuíam filhos no estabelecimento, por meio do convênio da Prefeitura, não foram informados quanto ao motivo da transferência das crianças? Houve uma tentativa de manter o assunto “abafado”?
SMEC – Todos os pais que tiveram seus filhos transferidos da escola foram chamados até a Smec e informados da nova vaga, ou seja, no momento que existe  “Vaga Emergencial”, sabe-se que a qualquer momento podem ser chamados para outra vaga do seu zoneamento (é um contrato de vaga emergencial), e esses encaminhamentos e decisões de encaminhamentos seguem trâmites internos e legais.

JI – A reportagem apurou que as crianças foram transferidas em função de denúncias. Isso não procede?
SMEC – Denúncias que estão sendo apuradas em âmbito jurídico, junto ao Ministério Público. A Smec buscou, assim que chegou a denúncia, imediatamente resguardar e proteger as crianças, independentemente de confirmação ou não da mesma.

JI – A Procuradoria Geral do Município (PGM) orientou a SMEC a retirar as crianças da escola, a confeccionar boletim de ocorrência e a comunicar dos fatos ao Ministério Público. Isso foi ou não feito pela Administração?
SMEC – Houve orientações da PGM quanto às providências legais cabíveis. Cabendo a Smec, conforme acima descrito, independente de qualquer confirmação, ou não, resguardar e garantir imediatamente a proteção dos infantes, alocando-os em outras escolas do Sistema Municipal de Ensino e comunicando fato ao Ministério Público, para que esse tome as medidas cabíveis.

JI – A Administração tomará alguma medida para que o estabelecimento tenha seu alvará de funcionamento cassado?
SMEC – Quanto ao alvará cassado, esse item, compete a outro setor.  Não é uma atribuição da Smec e sim de outras instâncias. Quanto a responsabilidade da Gestão Municipal, a Secretaria de Educação e Cultura, dentro da parte que lhe cabe, fez encaminhamentos às autoridades competentes, pondo a par das denúncias recebidas, entre estes, fez BO (boletim de ocorrência) comunicação ao Ministério Público, zelando assim pelo bem-estar de crianças, que possivelmente poderiam vir a frequentar a escola investigada. O CME (Conselho Municipal de Educação), dentro das suas competências, está emitindo parecer indeferindo o pedido de renovação de credenciamento e autorização de funcionamento da escola, e determinando a suspensão das atividades, enquanto são apuradas as denúncias recebidas. O Parecer será encaminhado para Promotoria, PGM e Setor de Alvará.

JI – Ao formar convênio com escolinhas particulares, de que forma é realizada a verificação se o estabelecimento realmente apresenta as condições ideais para acolher crianças?
SMEC – Conforme já dito na primeira questão, todas as escolas são avaliadas e acompanhadas dentro de critérios de qualidade, que são estendidos a todas as escolas da Rede ou conveniadas. Caso haja apontamentos a corrigir, são abertos processos e seguem prazos legais para adaptações necessárias.

JI – Quantas crianças estavam no local, através do convênio da Administração?
SMEC – Oito crianças com encaminhamentos diretos da Smec e uma criança com encaminhamento indireto.

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