Valdir e Elena, juntamente com Carlos e Iole, recordam a infância em meio aos costumes italianos

Embora Montenegro esteja inserida em uma região com forte influência portuguesa e alemã em sua formação, o município tem participação de outras etnias, mesmo que em grupos menores. Nesse contexto, o acadêmico Fernando Perotti realizou sua pesquisa de conclusão do curso de História, pela Uninter, sobre descentes de imigrantes italianos que residem no município. Por meio de fontes bibliográficas e entrevistas, ele buscou saber como preservam suas memórias e cultivam a herança cultural, em uma cidade onde são minoria.

Durante a colonização italiana do Rio Grande do Sul, vários grupos se estabeleciam em diversas regiões, tendo como porta de entrada as cidades de Porto Alegre, Montenegro e São Sebastião do Caí. Boa parte deles, no entanto, seguiu caminho até outras regiões, entre as quais a de Caxias do Sul. Perotti confirma que sua descendência de italianos influenciou na escolha do tema, mas sua preocupação foi pesquisar sobre um assunto relevante à comunidade, mostrando como vive um grupo social em uma região tipicamente alemã e portuguesa.

Na preservação da cultura, é observado o dialeto, a música, jogos e a culinária italiana mantida nas famílias descendentes. “Algumas entrevistas foram realizadas em dialeto italiano, a fim de capturar elementos históricos importantes, que não seriam evidenciados utilizando a língua portuguesa”, afirma o pesquisador. Ter algum conhecimento do dialeto foi um critério utilizado  na escolha dos entrevistados.

Fernando Perotti é descendente de imigrantes italianos

Foram ouvidas 19 pessoas, a maioria com mais de 56 anos de idade. Perotti percebeu que o dialeto não é comum entre os mais jovens e, por isso, não houve entrevistado com 20 anos ou menos, e apenas um na faixa entre 21 e 30 anos. Em seu trabalho de campo, ele observou que, diferente do que ocorre entre os mais jovens, os entrevistados com mais de 50 anos sentem orgulho em falar o dialeto italiano. “Se identificam como se estivessem mantendo viva uma cultura que lhes foi herdada”, diz ele. E diz ainda que a maioria conhece suas origens italianas, sabem a cidade em que a família vivia na Itália e o ano de chegada no Brasil, bem como onde se estabeleceram.

Nos relatos colhidos durante o trabalho de pesquisa, Perotti ouviu que entre os fatores para diminuir a fala do dialeto italiano é Montenegro estar inserida em uma região colonizada por alemães. Outro fator observado é a mistura de raças através do casamento com pessoas de outras etnias, que não entendem nem falam o dialeto italiano.

Os entrevistados citaram várias músicas em dialeto italiano, entre as quais, Perotti menciona La Bella Polenta, Moretomoreto, Mazzolindi Fiori, La Verginellae a própria Merica, Merica. Ele acrescenta que a mais lembrada é La Verginella.

“Muitos lembraram quando nos encontros de amigos. Sempre havia alguém que chiapavala gaita, expressão em dialeto italiano que significa o ato de tocar o instrumento chamado acordeom, para assim tocar e cantar essas músicas”, afirma Perotti, em sua pesquisa.

Lembranças de um tempo muito bom
A lembrança dos encontros em família, todos reunidos na casa do nono, em Galópolis, interior de Caxias do Sul, vem à memória de Valdir Braghini, 67 anos. Ele recorda a mesa grande e farta, com tios, tias, primos e primas sentados à volta. E ainda da hora em que o nono reunia as crianças em um canto da sala para contar histórias que transportavam à Itália.

Parentes reunidos, todos falando juntos e muita fartura são características típicas das famílias italianas, normalmente numerosas. “E, antes de dormir, todos rezavam o terço juntos”, recorda Valdir, observando outra característica dos italianos: a religiosidade.

Ele e a esposa, Elena Catarina Braghini, 63, participaram da pesquisa de campo realizada por Fernando Perotti. Valdir é descendente de italianos por parte de pai e mãe, enquanto, Elena, natural de São Marcos, é exemplo da mistura de raças. Sua família materna é descendente de italianos. “A do meu pai, é brasileira”, observa.

Iole Maria Sgarbi Casagranda, 57 anos, e o marido Carlos Casagranda, 62, também participaram do estudo. Os bisavôs deles, tanto maternos como paternos, eram imigrantes italianos. Ambos são naturais de Anta Gorda, na região do Vale do Taquari. Os quatro se reuniram para falar de suas origens com o Jornal Ibiá. Com muitos pontos comuns nas memórias de infância, eles demonstram saudades dos tempos em que o trabalho e as brincadeiras se mesclavam na casa dos parentes.

Valdir recorda o colacion, que era uma refeição levada para o trabalho em uma cesta, com vinho, polenta, pão, salame, queijo e marmelada. O nono dele cultivava uva, tudo era produção caseira e saboreada embaixo do parreiral. Valdir acrescenta que a cesta era aberta no início da manhã porque a ida para o parreiral era bem cedo, antes do sol nascer. Elena recorda a diversão na produção do vinho, pisoteando as uvas. “Aquele tempo era muito bom”, resume.

Enquanto os outros conviviam mais com os parentes nas férias escolares, Iole cresceu no interior e relata mais um costume entre os italianos. Seu pai era o caçula da família e, por isso, permaneceu na casa dos pais mesmo após se casar, para cuidar deles. “Então o pai e a mãe iam trabalhar na roça e a gente passava o dia com a nona”, acrescenta.

Carlos e Iole recordam o filó, tradição que consiste em uma reunião de vizinhos para conversar. Cada um levava algo para comer e o encontro virava uma festa farta, bem típica dos italianos, um povo alegre. Era uma forma de passar o tempo em época que não havia televisão e até mesmo a energia elétrica ainda não estava ao alcance de todos.

Pesquisa recebeu quase a nota máxima
A pesquisa científica de Fernando Perotti recebeu nota 97. “A pesquisa do Fernando é muito importante para as pesquisas em história de modo geral, mas também para a comunidade daqui”, observa o professor orientador desse trabalho de conclusão, Jaime Mansan.

Ele observa que a região tem grande influência alemã, mas que há também uma grande riqueza cultural, pela participação de outras etnias.

“Grupos diversos de pessoas que se relacionam e mostram que não temos apenas a bagagem alemã e portuguesa, mas também italiana, indígena, e outras”, afirma. “Está na hora de valorizar mais o que temos na região”, resume ele.

No desenvolvimento do trabalho, Mansan salienta a importância das entrevistas com os descendentes. “Fontes escritas são interessantes, dizem muito, mas a fonte oral, a entrevista é de uma riqueza muito grande”, opina o professor orientador do trabalho de conclusão de curso. Ele salienta que o fato de Perotti dominar o dialeto italiano também foi um diferencial significativo nas entrevistas.

A mudança para o município
Os dois casais mudaram para Montenegro por razões profissionais há décadas. Em casa, eles preservam a cultura italiana principalmente através da culinária. Iole fala o dialeto italiano, e aproveita quando vai visitar a mãe, em Anta Gorda, para não perder a pronúncia.

Na preservação da cultura, eles observam que na região os imigrantes e descendentes de italianos são minorias. “Antes se vivia as tradições na casa das nonas, mas a maioria vem pra cidade e aí não tem essa convivência”, observa Elena. Elas observam que em regiões onde há mais descentes de italianos ainda existem festas comunitárias que remetem a costumes antigos, preservando um pouco da tradição.

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