Os marataenses Juliano e Marlise trabalham juntos na fábrica da Kildare. O sustento dos filhos do casal, Pietro e Emily, é atribuído à empresa

Impacto de grandes empresas em municípios de pequeno porte evidencia a importância do investimento empresarial

Harmonia e Maratá têm bastante em comum. Jovens municípios do Vale do Caí, ambos um dia pertenceram ao território de Montenegro, são referência em qualidade de vida, abrigam menos de cinco mil habitantes e devem à atividade industrial muito de seu desenvolvimento. Ainda que com economias baseadas no setor primário, o Maratá e o Harmonia que se conhecem hoje só foram possíveis devido à atuação de empresas que imprimiram sua marca e mudaram a vida de muitos dos munícipes.

Juliano Scherer que o diga. Em seus 37 anos de vida, já são 21 trabalhando na fábrica marataense da Kildare. Com sede em Novo Hamburgo, a empresa abriu sua unidade de fabricação de calçados no Município no ano de 1997. Maratá tinha apenas cinco anos de idade, após a emancipação. Juliano, tinha quinze.

“Eu me formei na oitava série do Fundamental, fiquei uns cinco dias em casa, parado, e eles já me chamaram para trabalhar lá”, recorda. “Meus colegas de escola todos foram para a fábrica”. A nova empresa aproveitou a mão de obra local, tornando-se opção viável de renda para o jovem que não queria atuar na agricultura, nem ter que sair de Maratá em busca de oportunidade. Acabou reforçando a zona urbana que, ali, ainda se constituía.
Recém transferido para o setor de almoxarifado, Juliano trabalhou por 20 anos no corte. A produção atual da Kildare, que gira em torno de 1.500 calçados por dia, começa no couro e termina com o sapato na caixa, pronto para venda. É um processo que envolve cerca de 110 funcionários. Muitos do Município.

Dentre eles está até a companheira de Juliano, Mara Marlise Lorenz, de 40 anos. Uma das primeiras funcionárias da fábrica, ela atua na parte da montagem. Graças ao emprego, o casal destaca que conquistou muito: a casa própria, o carro próprio e, mais importante, o sustento dos dois filhos: o Pietro, de 3 anos, e a Emily, de pouco mais de um ano e meio de idade.

E enquanto viam a vida mudar nestes anos de atuação na Indústria, os dois acabaram sendo testemunhas das transformações no próprio Município. A atividade industrial aumentou a participação do jovem Maratá no ICMS estadual e, por tabela, engordou seu orçamento. “Eu me criei aqui em Maratá e a cidade mudou muito. A nossa praça, o posto de saúde, o parque da Oktoberfest foram algumas transformação que vieram”, destaca Juliano.

Dados da Prefeitura mostram que, em dez anos, entre 2005 e 2015, o Valor Adicionado Fiscal do Município (fator que é utilizado para o cálculo dessa participação) mais que dobrou. O acréscimo foi de R$ 73,1 milhões. Muito por causa da empresa. Outro tanto pelo aumento dos investimentos locais no Setor Primário, que também é reflexo da atividade industrial.

Fernando Schrammel, prefeito de Maratá

Maratá investe em nova área para atrair mais empreendimentos
O prefeito de Maratá, Fernando Schrammel, sabe bem o valor da fábrica de calçados local. Além dos investimentos possibilitados e da geração de empregos, ele ainda cita a vinda de fornecedores e representantes de fora, que acabam consumindo na área urbana do Município. “O comércio todo acaba girando. Isso dá para se observar certinho”, aponta.

Criado em 2013, o Distrito Industrial de Maratá já atraiu novos empreendedores. Um segundo já foi anunciado

E a exemplo do esforço feito para a vinda da Kildare anos atrás, novos investimentos querem repetir o acerto e atrair mais empreendimentos do tipo. Um passo nesta linha foi dado em 2013, quando R$ 700 mil foram empregados no Distrito Industrial da localidade de Linha Progresso. Com recursos próprios, Maratá fez toda a infraestrutura dos lotes separados em três hectares de terra, bem como a construção de dois prédios, hoje cedidos para empresas interessadas. Ali funcionam uma fábrica de bolsas, uma panificadora e a cervejaria GoldBier, que já virou até ponto turístico da região.

As novidades, agora, são uma indústria de produtos de limpeza, que deve incrementar a arrecadação do Município e que teve seu pavilhão construído com mão de obra da Prefeitura; e também um novo Distrito Industrial, nos mesmos moldes do atual, que deve ser feito na localidade de Maratá Alto. “Neste, nós não vamos fazer prédios. Serão terrenos de 4.500 metros quadrados que iremos doar”, adianta o prefeito. O investimento, de R$ 200 mil, deve ser encaminhado para autorização do Legislativo no próximo mês.

Há cinco anos, o suinocultor Décio é integrado da Cooperativa em Harmonia

Setor Primário é impulsionado pela Indústria
Um dos denominadores comuns entre Maratá e Harmonia é que, apesar da força das empresas, que diversificam a Economia e garantem incremento da arrecadação, ambos são baseados na Agricultura. Em Maratá, no ano passado, 89% dos ganhos partiu do segmento, que é impulsionado, principalmente, pelos aviários integrados à indústria da Naturovos, de Salvador do Sul, e pelos chiqueirões integrados ao frigorífico da JBS, de Montenegro. Oito novos empreendimentos do tipo já foram licenciados para construção até o final de 2019.

Em Harmonia, não é diferente. A Produção Primária é forte e impulsionada diretamente pela Indústria. No caso, por uma local. É o que mostra o suinocultor Décio José Nonnemacher, que é integrado à principal empresa do Município: a Cooperativa dos Suinocultores do Caí Superior (ou Cooperativa Ouro do Sul, como é conhecida).

Sua propriedade tem três galpões para criação de suínos, com capacidade total para 1.600 animais por lote. No sistema de integração, Décio os recebe da granja própria da Cooperativa ainda com cerca de 20 quilos, cada. Toda a alimentação, medicação e suporte ficam por conta da empresa, que deixa os animais para engorda em empreendimentos como o dele. 105 dias depois, o lote está pronto. Os animais, com quase 130 quilos, vão para o abate.

Envolvendo muitos produtores, a Cooperativa dos Suinocultores existe há mais de oitenta anos. O próprio pai de Décio era associado e vivia da criação de suínos. Na época, tomando para si o trabalho de plantar todos os insumos para alimentar os animais e com toda a lida bastante manual. Para o filho, hoje aos 52 anos de idade, essa realidade já é bem diferente. Transformações que são fruto do projeto de expansão da empresa, que deu início ao sistema de integração e incentivou os colonos a melhorarem suas instalações.

“É preciso destacar a importância dessa Cooperativa, que decidiu propor esse desafio aos produtores”, destaca Décio. Ele entrou no sistema há pouco mais de cinco anos, quando financiou a construção do segundo e do terceiro galpão da propriedade, ambos equipados com bebedouro e sistema automatizado de ração. “Mudou muito a nossa realidade”, salienta.

Mudou bastante para o Município, também. Resultado de investimentos como o dele, no ano passado, o Setor Primário representou 68% da arrecadação do ICMS local, impulsionando uma receita municipal que, em 2012, foi de R$ 16,7 milhões e, em 2018, chegou aos R$ 29,6 milhões. “Olhando dentro de Harmonia, todas as obras e os recursos de Educação e Saúde acabam vindo das nossas atividades, da produção rural”, avalia Décio, orgulhoso.

Ronei Alberto Lauxen, diretor geral da Cooperativa

Cooperativa é mais antiga do que a própria Harmonia
Criada em julho de 1935, a Cooperativa dos Suinocultores do Caí Superior nasceu quando Harmonia ainda era só um vilarejo em território montenegrino. Foi uma iniciativa de 38 produtores rurais da região que criavam suínos, mas precisavam levar os animais para venda na Oderich, em São Sebastião do Caí, ou no antigo Frigorífico Renner, localizado em Montenegro. Com estradas precárias, essas viagens feitas com carros de bois levavam até dois dias. Surgiu, então, a ideia de uma empresa local que industrializasse a produção.
O primeiro prédio foi construído com um mutirão da comunidade. A empresa se constituiu e teve, por anos, a banha como seu principal produto. Esta, exportada para fora do Estado e muito valorizada, recebeu o apelido de “Ouro do Sul” e assim nasceu a principal marca da Cooperativa.
“De lá pra cá, a história de Harmonia e da empresa meio que se confundem”, avalia o diretor geral, Ronei Alberto Lauxen. “Ela começou a crescer, começou a se criar uma vila em torno dela e, assim, o lugar foi se desenvolvendo e crescendo junto até que se transformou em um Município.” Harmonia foi emancipada no ano de 1988.

Na avaliação de muitos, Harmonia só existe por causa da Cooperativa dos Suinocultores. Empresa, hoje, emprega 540 funcionários e conta com 80 famílias no sistema de integrados

CRESCIMENTO

Em anos de história, a Cooperativa dos Suinocultores enfrentou períodos de crises. O principal deles foi o movimento, a nível mundial, que transformou o óleo animal em um “vilão” para a saúde e priorizou o uso do óleo vegetal. Com o mercado da banha diminuindo, a empresa precisou se reinventar, com um projeto que teve início nos anos 2000. Investiu no melhoramento genético para obter uma carne mais magra, com foco em outros produtos derivados do suíno, e também diversificou a linha de negócios.

“Hoje, ela está com a parte de supermercado, tem posto de combustíveis, fábrica de rações e a produção própria de suínos, com genética controlada, que são encaminhados aos integrados”, conta Lauxen. “Com este sistema, o associado não precisa investir individualmente tanto; e se conseguiu organizar a produção, crescer e qualificar.”

Com filiais em Salvador do Sul e São José do Sul, a empresa emprega, hoje, 540 funcionários e tem 80 famílias de produtores no sistema integrado de suinocultura. No frigorífico, abate 500 suínos diariamente, com diversos tipos de corte. Na parte industrial, exclusiva da planta de Harmonia, processa cerca de dez toneladas por dia de carne que viram diferente embutidos, como linguiças, mortadelas e salsichas. A venda dos industrializados é exclusiva no mercado gaúcho; e os cortes, além do Rio Grande do Sul, são exportados para estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais. O faturamento anual da empresa está na faixa de R$ 230 milhões.

Antônio Kunzler, secretário municipal de Administração e Fazenda de Harmonia

Subsídios para o agricultor e o empresário
Se, de um lado, a Cooperativa é um atrativo para que os suinocultores harmonienses qualifiquem sua produção, entrando no sistema integrado; de outro, o Poder Público traz incentivos para manter os investimentos. É o que destaca o secretário municipal de Administração e Fazenda, Antônio Kunzler.

“Nós oferecemos o serviço da terraplanagem e também tivemos um programa de subsídio de juros para os financiamentos”, coloca. “Nos últimos anos, temos tido obras grandes nesse sentido. Produtores que investiram R$ 1 milhão, R$ 1,5 milhão; inclusive jovens se fixando no Setor Primário e visando uma renda melhor e mais qualidade de vida.”

O projeto rendeu a Harmonia dois prêmios “Gestor Público”, do Sindicato dos Servidores Públicos, em 2006 e 2013. E assim como em Maratá, a Prefeitura tem suas atenções voltadas, também, à captação e ao desenvolvimento de outras empresas que gerem renda e incrementem sua Economia. R$ 200 mil já foram investidos em uma área para o segundo Distrito Industrial do Município, na localidade de Morro Azul.

O local já tem empreendimentos certos: uma indústria de bebidas em processo de expansão e uma nova fábrica de sucos, que promete absorver a produção dos citricultores locais. “A citricultura é o nosso terceiro principal item na Produção Primária do Município e, com essa fábrica, o próprio produtor terá valor agregado na fruta, podendo vender direto aqui seu produto”, prevê Kunzler.

Na rua Léo Hans, onde funciona o Distrito já existente, estão outras onze empresas. Todas com lotes doados pelo Município e também com possibilidade de participação no programa de subsídio de juros. Nele, o empreendimento pode buscar financiamento junto às financeiras e, comprovando anualmente seu retorno com geração de emprego e renda em Harmonia, tem os juros do contrato subsidiados pela Prefeitura.

É vantagem para todos. Tendo no retorno do ICMS a sua principal Receita, a atividade das empresas é revertida em melhorias à comunidade. “Além de estarmos com as contas em dia, fizemos bastante obras. Temos o asfalto, em andamento, entre Morro Santo Antônio e Linha Fortaleza, fizemos a galeria central e a ampliação da praça”, exemplifica o secretário. “Esses recursos são para melhor atender aos moradores.”

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