Pesquisa revela que maior parte da população se divide entre os que gostam de ter controle e os que dão um jeitinho

Os brasileiros poupam pouco, mesmo quando comparados a países de renda média menor que a nossa. Foi o que constatou pesquisa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). O estudo constatou que é preciso educar melhor as pessoas quanto à importância de investir. Somente assim elas serão capazes de tomar decisões maduras e conscientes na hora de lidar com o dinheiro, algo que é primordial para o crescimento sustentável dos mercados.

O levantamento também traçou os perfis dos brasileiros a partir da forma como eles se relacionam com o dinheiro: Construtor, Camaleão, Planejador, Despreocupado e Sonhador. “Saímos às ruas para entender os motivos que levam o país a ter uma das menores taxas de poupança da América Latina e concluímos que lidar com o dinheiro é uma questão que vai muito além de classe social e dos recursos disponíveis”, afirma a superintendente de Educação e Informações Técnicas da Anbima, Ana Leoni.

Conforme a entidade, o perfil predominante no país é dos construtores, ou seja, os que gostam de ter o controle das situações e cuidam do dinheiro dia após dia, mesmo que em pequenas quantidades, mas de forma consistente. Eles representam 30% da população e, dentro deste grupo, nove em cada vez dizem que pensam duas vezes antes de gastar.
Outra grande parcela, 29%, enquadram-se como “camaleões”, que são assim chamados justamente por conta das suas características de adaptação. São pessoas que não costumam guardar dinheiro. Elas costumam “se virar nos 30”, como diz a gíria popular. Para 80% delas, o salário cai na conta e vai direto para pagar os boletos. É a parcela da sociedade que mais precisa ser reeducada financeiramente.

A Anbima identificou também o grupo dos planejadores, que correspondem a 22% da população. Eles se caracterizam por possuir uma relação muito forte com o dinheiro e têm no crescimento do próprio patrimônio uma fonte de prazer. Neste segmento, 80% deles afirmam que possuem uma reserva financeira para emergências.

Um quarto perfil é chamado de despreocupados, porque não costumam ser organizados, gastam sem pensar, são imediatistas. Segundo o estudo, 11% dos brasileiros é assim. “Isso não quer dizer que os despreocupados sejam, necessariamente, endividados. Eles apenas não se importam em criar laços com o dinheiro”, ressalva Ana. Entre esses que não esquentam a cabeça e vivem bem o presente, 86% afirmam que o dinheiro foi feito para gastar e dar prazer.

Pequena fatia dos brasileiros, 6%, é rotulada no perfil de sonhador, isto é, são indivíduos inquietos que até sabem que precisam de dinheiro para suas empreitadas, mas acham que não é qualquer quantia que vai ajudar. Com isso, perdem a oportunidade de poupar pequenos valores do dia a dia.

Por que o consumo irracional é mais comum? E o que pode ser feito?
Em entrevista exclusiva ao Ibiá, o professor da Unisinos Carlos Henrique Benevenuto Rech, autor da palestra “Onde está o meu dinheiro?”, diz que o brasileiro não tem costume de poupar porque não aprende nada neste sentido em casa e na escola. Além disso, cita a influência dos costumes norte-americanos, ícones de consumismo. A recomendação dele é uma ação coletiva da sociedade para preparar as pessoas a cuidar melhor do dinheiro. Confira:

O Brasil apresenta uma das menores taxas de poupança da América Latina. Por que temos essa cultura de não pouparmos?
São vários os motivos, mas nossa falta de educação financeira é a principal causa de consumirmos mais do que guardamos. De maneira simplista, existem duas formas de consumo: o racional e o irracional. O primeiro leva o consumidor a pesar a relação custo-benefício de uma aquisição. O consumidor pensa antes de comprar, avalia necessidades e custos. Outra forma, mais comum, é o consumo irracional ou inconsciente, quando somos levados ao consumo sem perceber. Exemplo disso são as datas comemorativas, onde consumir é uma obrigação (Natal, Ano-novo, Dia dos Pais, Dia das Mães, Dia das Crianças, Dia da Avó, da Sogra, festas juninas, Halloween, etc.) Como não presentear a mãe ou o filho em datas especiais? Também, culturalmente falando, somos influenciados pela cultura norte-americana, onde o consumo é incentivado. Nem bem terminamos de adquirir um bem e já estamos pensando na próxima aquisição. Finalmente, como a maioria de nossa população possui baixa renda, há um enorme consumo reprimido, um enorme desejo de adquirir e que, de alguma forma, será exercido, mesmo que através de endividamento.

Essa crise por que estamos passando tem algum efeito pedagógico quanto à forma como o brasileiro administra o seu dinheiro, ou seja, ela é capaz de deixar as pessoas mais cautelosas?
Quem fica mais cauteloso com a crise são os bancos. Para evitar aumento da inadimplência, aumentam taxas de juros e ficam mais rigorosos na concessão de crédito. Isto reduz o poder de consumo de grande parte dos brasileiros. Também os que se encontram incluídos nos serviços de proteção ao crédito têm seu poder de compra reduzido. E aqueles que perderam ou receiam perder o emprego vão, de alguma forma, tentar reduzir seus gastos. Da parte do consumidor, ele tenta ajustar o seu orçamento substituindo produtos caros por outros mais baratos e cortando gastos possíveis. Não vejo como uma forma de educação e sim como uma adaptação ao momento. Tão logo os financiamentos retornem ou a renda melhore, este consumidor voltará a comprar e não a poupar.

O brasileiro é bem educado do ponto de vista financeiro? As escolas poderiam fazer mais?
O brasileiro não recebe, em qualquer nível, educação financeira. Não está no currículo nem mesmo de formação universitária (salvo honrosas exceções). Sabe-se que alguns países da Ásia iniciam a educação financeira nos primeiros anos de educação escolar.

Como os adultos, os pais, podem ajudar os seus filhos a cuidar melhor do dinheiro desde cedo?
Os adultos têm um papel fundamental na educação financeira dos filhos, mas como ajudar se eles próprios não sabem como guardar dinheiro? Necessitamos de um esforço amplo e voltado para toda a população. Escolas, universidades, entidades de classe, empresas. Todos precisam se engajar para educar rapidamente uma grande massa populacional. E esse esforço precisa ser permanente, não ocasional.

Qual o percentual mensal dos ganhos que se recomenda poupar no fim do mês?
Separar parte de sua renda para fazer poupança (não caderneta de poupança, mas para guardar) é importante, mas é fundamental saber quanto se ganha e onde se gasta. É preciso acompanhar seus gastos por algum tempo (anotar tudo mesmo) para ver o que é ou não primordial. Enxergando isso, é possível fazer algum planejamento e programar um recurso para poupar. Culturalmente temos a mania de guardar só o que sobra ao final do mês. Sobra tem conotação pejorativa (aquilo que colocamos fora). Precisamos é separar uma parte daquilo que ganhamos para montarmos nossa reserva como sendo um item de nosso orçamento.

Saiba mais
– Os resultados mostram que o relacionamento com o dinheiro é um reflexo da visão de mundo das pessoas, da forma como elas encaram a vida, a família, seus relacionamentos pessoais.
– O compromisso com a educação do investidor foi um dos motivadores do estudo. A Anbima defende o estímulo à cultura de investimento, porque favorece a formação de pessoas capazes de tomar decisões maduras e conscientes na hora de lidar com o dinheiro. Essa é uma condição para o crescimento sustentável dos mercados.
– Conduzida pela Anbima, a pesquisa foi realizada em duas etapas. A qualitativa foi organizada pela consultoria Na Rua e ouviu 400 pessoas em quatro capitais brasileiras. A fase quantitativa ficou a cargo do Datafolha e englobou 2.653 entrevistados em 130 municípios, com a população economicamente ativa, inativos que possuem renda e aposentados, das classes A, B e C, a partir dos 16 anos.

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