Informações sobre Paracetamol também foram compartilhadas

Boatos sempre existiram, mas com a ascensão da internet, tomaram proporções e uma velocidade muito maior

Rolar o feed das redes sociais e logo se deparar com o link de uma matéria que desperta a curiosidade do leitor não é difícil. O grande volume de informações associado à limitada capacidade de os leitores absorvê-las pode explicar o motivo para a proliferação de boatos e notícias falsas nas plataformas digitais.

O FGTS foi outro alvo de mensagens falsas que circulam nas redes

A justificativa é de que, mesmo tendo acesso a informações de veículos de comunicação confiáveis, o pouco tempo para se dedica à análise da notícia, e a quantidade de informação disponível contribui para que boatos tenham mais facilidade em viralizar. Esta teoria é abordada em um artigo publicado na revista “Nature Human Behavior”, estudo reforçado pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa).

 

Aqui em Montenegro mesmo, quem não se lembra do caso do caminhão que estaria descartando caixas de leite contaminado em um lixão? O caso aconteceu em julho e não passou de uma informação falsa, compartilhada e replicada pelas redes sociais (WhattsApp e Facebook), sem que fosse verificado se de fato era real. Mais tarde, o autor do áudio que viralizou acabou desmentindo a informação.

Em agosto, outro boato, de que o paracetamol P-500 estaria contaminado como vírus machupo. Essa semana, circulou a notícia de que trabalhadores com certeira assinada entre 1998 e 2016, teriam até dois salários mínimos para receber retroativamente. Ambas notícias mentirosas.

Para o Jornalista e editor da Boatos.org (site que faz checagem de informações), Edgard Matsuki, são três ítens que os leitores devem levar em consideração na hora de identificar uma notícia falsa: a primeira, e fundamental, é ler a mensagem com atenção e tentar identificar elementos comuns em boatos na internet. “Existem muitos, mas os mais comuns são erros de ortografia, caráter alarmista, pedido de compartilhamento e falta de informações mais detalhadas sobre o caso (quem participou, quando aconteceu, qual a fonte etc)”, orienta.

Áudio sobre caixas de leite contaminadas viralizaram

A segunda é fazer uma pesquisa sobre o assunto no Google. “Em teoria, resultados que desmentem uma história falsa devem aparecer antes do boato em si”, explica. A terceira é acompanhar páginas que checam informações duvidosas na internet. “Se um boato viralizou, quase certamente já foi desmentido por alguns destes sites”, afirma Matsuki.

 

Ainda, segundo o profissional, o boato pode reforçar um pensamento errôneo. Em um nível mais elevado, ela pode destruir uma reputação e prejudicar alguém, ou até acarretar em uma tragédia (como no caso de pessoas acusadas de crime que não cometeram ou de tratamentos de saúde que não funcionam).

Leitores preferem jornais e sites confiáveis
Everton Guilherme Franco diz que, quando se depara com uma notícia duvidosa, procura a mesma informação em vários lugares e compara o conteúdo. “Além de sempre tentar buscar em fontes ditas confiáveis”, argumenta. Para o jovem, é difícil saber em qual meio confiar, mas ele prefere basear-se nos veículos de comunicação mais conhecidos e que já tem tradição. “Ou que de alguma maneira provaram que são confiáveis”, ressalta.

Já para a jovem Carolina Michels saber se uma notícia é falsa é uma questão de senso comum. “Depende da notícia logo se percebe que é falsa, mas, caso contrário, só saberei que é falsa quando mais pessoas souberem e relatarem sobre o caso”, afirma.

Daniela Flores considera o local em que foi publicada e procura a informação em outras fontes. Foto:Arquivo pessoal

A estudante Daniela Flores de Brito é mais enfática quanto à veracidade de uma notícia. Para ela, é importante também observar onde a notícia foi publicada. “Em qual site ou página ela aparece direcionada. Caso a fonte seja de algum jornal conhecido, mas mesmo assim a notícia parece meio duvidosa, é interessante procurar observar se essa mesma notícia surge em outras páginas semelhantes”, posiciona.

 

Daniela destaca ainda que nas mídias sociais existem sites que se dedicam a curtidas ou compartilhamentos das notícias, o que acaba direcionando para a divulgação das páginas e deixando de lado a política de uma ética jornalística. “Títulos de notícias também podem distorcer o que está realmente dito na matéria, somente para que essa notícia seja lida e tenha assim o acesso do público”, ressalta.

Páginas se dedicam a desmentir boatos
“Fact-checking” é uma checagem de fatos. Quando se confronta a informação com dados e pesquisas ou registros. Esta checagem nada mais é do que uma forma de qualificar o debate público por meio da apuração e analisar qual é o grau de verdade. Muitos sites têm se especializado nisso, como o projeto Truco da Agência Pública; a Lupa, da revista Piauí; e É isso mesmo?, do O Globo.

A checagem de dados não é novidade no jornalismo. Nas redações tradicionais, um texto precisa ser revisado antes da publicação para garantir a veracidade dos fatos e a precisão com a qual eles são descritos. Mas, a partir dos anos 2000, começou a despontar uma checagem após a publicação – desta vez, voltada para as declarações feitas por figuras públicas.

Da forma como se apresenta hoje, a checagem de fatos surgiu em 2003, com o lançamento de um site com esta finalidade nos EUA. A prática cresceu, e hoje, os checadores do mundo têm uma rede internacional de colaboração.

Para Edgard Matsuki, a internet se tornou um campo fértil para a disseminação destas notícias. foto: arquivo pessoal

Algumas empresas têm investido na tecnologia para bloquear conteúdo falso, como é o caso do Facebook e do Google. “Porém, eu creio que a solução está na educação. É um caminho mais duro, mas é preciso conscientizar as pessoas sobre as mentiras na web. É preciso, urgentemente, investir em educação para a boa prática da internet”, constata o jornalista Edgard Matsuki, do site Boatos.org..

 

Para ele, a geração atual se encaminha para 8 ou 80, pessoas que têm afinidade com a internet e não sabem viver sem, mas que não tiram proveito positivo dela.

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