Na Ghouta Oriental, 76% das residências foram devastadas. Região é dominada pelos rebeldes. FOTO: Abdulmonam Eassa/TT

Os recentes ataques têm gerado comoção nas redes sociais e até polêmica nos grupos de debates de Montenegro

País faz fronteira com Turquia, Iraque, Jordânia, Líbano e Israel

Do dia 18 de fevereiro para cá, mais de 580 pessoas foram mortas na guerra da Síria. As tristes imagens do ocorrido rapidamente circularam pelas redes sociais e foram compartilhadas, inclusive, por muitos montenegrinos. Acabou que, localmente, iniciou-se uma polêmica. Enquanto algum demonstravam sua solidariedade com o povo em sofrimento, outros questionavam a validade do movimento diante do que acontece no Brasil.
A Guerra na Síria começou em março de 2011 e se estende até hoje. É fato que, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2011 e 2015, foram registradas mais mortes violentas em terras brasileiras do que no país em guerra no mesmo período. Existem, ainda, outros conflitos pelo mundo. Os dados, no entanto, não invalidam o sentimento solidário com um povo que, mesmo a quase 12 mil quilômetros, também sofre. E existem, sim, formas das pessoas daqui ajudarem as que vivem lá.

O montenegrino Samuel Gonzaga conheceu um sírio enquanto fazia intercâmbio em Portugal. Ahmad era seu nome. O rapaz falava pouco na guerra. Tinha a mãe, o pai e a irmã no país em conflito, mas decidiu não voltar. Seguindo os passos do irmão, ele está em Portugal desde 2015. “Ninguém quer voltar para a Síria”, lembra Samuel, repetindo as palavras de Ahmad. O estudante montenegrino passou três meses com o estrangeiro, dividindo a mesma residência estudantil. Sobre a guerra, apenas uma breve história foi partilhada.

“Ele contou que estava na rua, com os amigos. Daí um deles disse que ia embora, deu tchau e foi. Depois, o Ahmad chegou em casa e ficou sabendo que aquele amigo morreu voltando pra casa”, recorda. “Aquilo me marcou. A pessoa está ali, contigo, vai tentar ir pra casa e acaba morrendo em um bombardeio com mais 300 pessoas. Este que é o contexto da guerra.”

Na imagem, os sírios correm do que restou de sua cidade para escapar do bombardeio. FOTO: Abdulmonam Eassa/TT

Samuel acompanhou as discussões nas redes sociais locais. Ele pondera que não se pode diminuir o que acontece na Síria, nem perder o senso de realidade do que ocorre no Brasil. Ao ver comentários como o de pessoas sugerindo que os traficantes, por aqui, precisam ser todos mortos, ele lembra que a intensificação do conflito sírio deu-se quando começaram a matar os rebeldes. “O que eu não gosto é destas conversas desconexas”, opina. “Eu conheci um sírio e a gente via nele, no semblante e na maneira de ele não falar muito sobre, que aquilo marcava.”

Como alguém daqui pode ajudar a Síria?
Existem alguns grupos e entidades que realizam ações diretas no país em conflito. Confira alguns deles e saiba no que você pode ajudar:
UNICEF – O Fundo das Nações Unidas (Unicef, em inglês), mantém uma campanha constante para recolher doações destinadas aos sírios. Segundo a organização, o dinheiro doado é voltado para vacinação, construção de abrigos e compra de alimentos, cobertores e kits de material escolar. A doação pode ser feita pelo site secure.unicef.org.br;
ACNUR – A agência de refugiados da ONU está promovendo campanhas específicas para arrecadar verba para famílias que estão na Síria. Com uma equipe de 635 pessoas atuando na região, a agência provê itens emergenciais, como cobertores, roupas e colchões, além de contribuir na reconstrução de escolas e desenvolver programas de educação. É possível doar pelo site doar.acnur.org;
INTERNATIONAL RESCUE – A ONG International Rescue Committee começou a trabalhar na Síria em 2012, dando suporte a cinco clínicas que oferecem serviços básicos de saúde na região e também atendendo a pacientes com traumas. Em seis anos, o grupo já ajudou a cerca de um milhão de pessoas, em sua maioria crianças. Doações são realizadas pelo site rescue.org/country/syria;
FONTE: BBC

Afinal, que guerra é essa?
Em 2011, antes dos conflitos, muitos sírios se queixavam de um alto nível de desemprego, corrupção em larga escala, falta de liberdade política e repressão pelo governo Bashar Al-Assad, que havia sucedido o pai. Com este sentimento, alguns adolescentes pintaram mensagens revolucionárias em um muro de escola no sul do país. Acabaram presos e torturados pelas forças de segurança.

O fato – também inspirado pela Primavera Árabe – provocou protestos por mais liberdades no país. As forças sírias, por sua vez, combateram as manifestações abrindo fogo contra estes ativistas e matando vários. As tensões se intensificaram e milhares de pessoas foram às ruas pedindo a saída de Assad. E, cada vez mais, a resposta do regime aumentava o uso de violência.

Quando simpatizantes do grupo anti-governo também pegaram em armas para se defender e, após, expulsar as forças de segurança de suas regiões, o conflito se intensificou. Os grupos rebeldes reuniram-se em centenas de brigadas para combater o regime e conquistar território. Em 2012, os enfrentamentos chegaram à capital Damasco e à segunda maior cidade do país, Aleppo.

A disputa foi adquirindo contornos de guerra sectária, com a maioria sunita do país contra os xiitas alauítas – braço islâmico a que pertence o presidente. Isso arrastou potências regionais e internacionais para o conflito, conferindo-lhe outra dimensão. Os rebeldes acabaram mudando, sendo superados por grupos radicais e jihadistas – entre eles, o Estado Islâmico – e a presença de outros combatentes criou uma verdadeira “guerra dentro da guerra”. No meio disso tudo, o povo foi sofrendo.

O Centro Sírio para Pesquisa de Políticas calcula que o conflito já tenha causado a morte de mais de 470 mil pessoas, ainda que não haja cifras totalmente confiáveis a respeito. Hoje, quase sete anos depois, especialistas avaliam que o levante contra Assad está perto do fim. As fotos do recente ataque, que reverberaram nas redes sociais locais, foram feitas na região da Ghouta Oriental – um território controlado por grupos jihadistas. Foi mais uma tentativa do governo de sufocar os grupos opositores, que têm perdido força com o passar do tempo.

Segundo a Onu, neste ataque, 76% das residências da região foram devastadas e 400 mil moradores precisaram se mudar para abrigos subterrâneos. Apesar de ter sido negado, há suspeitas de que a ação tenha usado gás sarin, um composto químico extremamente tóxico que age no sistema nervoso.

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