BRINCANDO, José lembra de muitos conhecidos que passaram perto da propriedade e lamentaram que, pela mata fechada, a ideia não estava indo pra frente. Não sabiam que a mata é um dos principais fatores da aplicação do conceito

No Zootecnia, produtor pratica a agricultura sintrópica e pretende difundir seu conhecimento por toda a região

Preocupado com a saúde do planeta e dos alimentos consumidos, o técnico agrícola José Carlos de Oliveira, 58 anos, largou um emprego de sete anos no Pólo para se dedicar à agricultura na propriedade de sua família. Há três anos, ele trabalha recuperando o solo de um campo de gado que tinham no bairro Zootecnia, colocando o conceito de agricultura sintrópica em prática para cultivar diferentes tipos de alimentos em equilíbrio com a natureza e sem o uso de nenhum insumo externo.

A ideia vai além do produto saudável vindo da terra, tendo como principal objetivo a conscientização dos demais produtores. José Carlos projeta o que ele chama de “Escola de Conhecimento”, onde pretende – quando a produção estiver mais avançada – receber pessoas de diferentes idades e localidades para ensinar-lhes os fundamentos da prática que aplica, frisando que há uma alternativa de plantio que não emprega veneno ou adubos comprados que, mesmo orgânicos, são caros.

“Esse é o interesse maior: o de divulgar para as pessoas”, aponta. “O objetivo não é nem cobrar por isso. Meu pagamento é ver as pessoas se conscientizarem.” O projeto demanda trabalho e foi pensando nele que o técnico agrícola largou seu emprego estável, buscando renda extra atuando como jardineiro e cuidador de idosos. “Para manter isso aqui, não tinha como eu ter emprego com horário fixo”, explica. E assim ele alia a lida no campo com suas demais atividades profissionais, ansiando pelo momento em que possa viver da venda do que planta.

“Meu pagamento é ver as pessoas se conscientizarem” resume José Carlos de Oliveira sobre o seu projeto da “Escola de Conhecimento”

A propriedade no Zootecnia tem três hectares e foi herdada dos pais de José, que já faleceram. Foi ali que o agricultor cresceu. “Eu sempre convivi com o meio rural. Meus pais plantavam, usavam agrotóxico, mas eu nunca aderi à forma deles de plantar. Acho que as pessoas meio que se acostumaram a usar aquilo”, lembra.

O montenegrino avalia que, quando as aplicações do veneno iniciaram, a facilidade do uso para acabar com as pragas atraiu a maioria das pessoas. “Usou, matou os bichinhos, daí na próxima eles já queriam colocar antes do bicho aparecer. Acho que por uma questão de insegurança e falta de conhecimento, criou-se uma dependência.”

“Com o veneno, a planta vem bonita e rápido, mas com deficiências, até de minerais. Quando a gente consome, os venenos vão se acumulando no nosso organismo. A maioria das doenças, hoje, vem desse uso”, ressalta. “Essa ‘outra agricultura’ está destruindo a terra.” José Carlos ainda não tem data para a abertura oficial da “Escola”, apesar de já ter recebido visitantes “extraoficialmente”. Ele sonha, com ela, mudar a mentalidade de cada vez mais pessoas para uma agricultura mais saudável.

Agricultura sintrópica: plantio com equilíbrio
Com muita leitura e pesquisa, José chegou ao conceito de agricultura sintrópica. Ele foi desenvolvido pelo cientista suíço Ernst Götsch e consiste, basicamente, na produção agrícola em equilíbrio com a natureza, sem o uso de nenhum insumo externo. Tudo vem do próprio ambiente e é ele que faz a maior parte do “trabalho”. Cabe ao produtor interagir com seu espaço de acordo com a necessidade do que está plantando.

No Zootecnia, José se preocupou com a biodiversidade. No local onde a família mantinha um campo para a criação de gado por anos, ele introduziu diferentes culturas, como aipim, abóbora, amendoim, café, guaraná e muitas outras. O produtor também deixou crescer árvores nativas, iniciando um manejo agroflorestal que assegura sombra, inibe pragas e reduz a proliferação do inço. Quem olha para o local hoje nem imagina o pasto que um dia houve ali.

Dentro do conceito de agricultura sintrópica, José realiza capina seletiva e podas que controlam a entrada de luminosidade e calor. Os resíduos dessa retirada são colocados no próprio solo com o intuito de adubá-lo. Insetos e organismos vivos não são vistos como inimigos do plantio ou como causa de alarme, mas como sinalizadores de deficiências no sistema que ajudam o produtor a compreender as necessidades de cada cultivo.

O solo, que era degradado pela pastagem do gado antigamente, aos poucos, é recuperado. Ao contrário de uma monocultura, onde ele vai perdendo nutrientes conforme passam os ciclos de plantação, no sistema sintrópico ele é enriquecido, pois a matéria orgânica remanescente das colheitas é saudável e fica disponível. O montenegrino conta que, nos três anos em que trabalha na propriedade, viu a qualidade da terra aumentar significativamente. Pouco esforço é necessário para que a produção se desenvolva. Muito foi apenas introduzido uma vez e já se espalha por conta.

José explica que a aplicação do conceito é mais comum em pequenas e médias produções, mas diz que sabe de propriedades de maior parte que já utilizam a agricultura sintrópica. “Só é necessário adaptar maiores tecnologias a ela”, ressalta.

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