Palestra do professor Eduardo incentiva a adoção de uma cultura de inovação, tanto na área privada quanto na administração pública. Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Evento. Especialista da Unisc diz que um município desenvolvido se faz com bom aproveitamento de seus recursos

Em mais um movimento para alavancar o desenvolvimento local e regional, sua missão, a Universidade de Santa Cruz do Sul, por meio do campus de Montenegro, traz na próxima semana uma autoridade no assunto “Cidades Inteligentes”. Trata-se do empresário Eduardo Kroth, professor do Departamento de Computação da Unisc, presidente da Associação das Empresas de TI dos Vales do Rio Pardo e Taquari e presidente do Conselho Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação de Santa Cruz do Sul.

O café-palestra será no auditório da Unisc Montenegro, no próximo dia 16, às 8h. O objetivo é estimular uma cultura de inovação em vários eixos, como governo, economia, meio ambiente, pessoas e mobilidade — segundo parâmetros e modelos contidos no ranking Smart Cities. “Uma cidade inteligente é aquela que utiliza seus recursos da melhor maneira possível e entrega qualidade de vida aos cidadãos”, resume o especialista.
Se você tem interesse em participar, fique atento às inscrições, que são gratuitas até o próximo dia 13 pelo e-mail montenegro@unisc.br ou pelos telefones (51) 3649-4124 e 3649-4139. A seguir, acompanhe entrevista exclusiva concedida pelo professor ao Jornal Ibiá para antecipar tópicos que serão abordados na palestra:

foto: Freepik/Divulgação

O senhor leva essa palestra, “Cidades Inteligentes”, a vários municípios, principalmente no Vale do Rio Pardo. Por que vai vir a Montenegro?
Sou professor da Unisc, que possui um campus aí na cidade. A palestra é uma maneira de mostrar o que a universidade tem trabalhado internamente em pesquisas nesta área [de cidades inteligentes]. É também uma forma de conscientizar a população, tanto da área pública quanto privada, quanto a este conceito. Para as coisas darem certo, é preciso o envolvimento de todos. Não adianta levantar esta discussão apenas do ponto de vista do governo municipal. É preciso também envolver entidades, lideranças, pessoas. Todos precisam identificar-se e sentir-se parte do projeto. Em determinados lugares, quando o movimento inicia pelo prefeito, muitas vezes não dá certo porque algumas pessoas não gostam dele. Aí nada vai para frente. Em alguns lugares, a campanha começa pela sociedade e só chega à Prefeitura no final, então com mais chances de dar certo.

O que é, em seu conceito, uma cidade inteligente?

Importante ficar claro que não é uma questão que tem a ver somente com recursos tecnológicos. Uma cidade inteligente é aquela que entrega ao cidadão serviços com mais qualidade e, além disso, aquela que entrega mais qualidade de vida aos cidadãos. E isso não se dá somente pela área da tecnologia da informação. Cito como exemplo o Banco de Alimentos de Santa Cruz do Sul. Várias entidades coletam alimentos em diferentes eventos, mas o Rotary e o Lions Clube centralizam os donativos e os distribuem conforme a necessidade das entidades assistenciais, isto é, há uma gestão inteligente desses mantimentos. Também vemos bons exemplos de projetos de bairros, que se unem para melhorar a limpeza da praça, a segurança, entre outros problemas. A união das forças policiais, como Brigada Militar e Polícia Civil sentarem para conversar, é outro exemplo de cidade inteligente.

Como a tecnologia se alia a essa mudança de mentalidade?
A tecnologia pode estar em muitos lugares em benefício de uma cidade melhor para todos, como em um semáforo informatizado sincronizado com o movimento do trânsito, ou em um ônibus com sistema de GPS que mostra aos cidadãos as variações da mobilidade ao longo do dia, ou seja, de onde os carros mais estão saindo e para onde mais estão indo. Importante, também, o Município possuir um sistema informatizado que permite o cruzamento de dados, tendo metas e indicadores, para avaliar a gestão. Acreditamos nesta mudança de cultura, principalmente pela atitude dos jovens. Muita gente ainda tem uma visão assistencialista, esperando que a Prefeitura faça tudo, resolva tudo. Isso tem que mudar.

A Prefeitura de Montenegro pode ser considerada conectada?

Não conheço a situação atual para fazer um diagnóstico. Mas como Montenegro é bem conhecida pelas enchentes, se poderia pensar em um sistema que mapeie o Rio Caí mediante a colocação de sensores a, vamos dizer, 100 quilômetros de distância com o objetivo de disparar alertas sobre a elevação das águas com risco de enchente. Para estimular debates sobre soluções para as cidades, ocorrem em vários locais “maratonas de hackers do bem”, chamadas de Hackathons. Normalmente são estudantes que passam um final de semana dentro de uma sala de aula, junto de pessoas interessadas, com o objetivo específico de criar soluções para determinados problemas, como o desenvolvimento de um aplicativo para melhorar a segurança de um bairro X. A Unisc poderia realizar um evento desses em Montenegro, colocando sua estrutura e seus professores para dar suporte. Numa dessas podem surgir novas ideias, novos produtos, novos negócios. O desenvolvimento da tecnologia pode ocorrer localmente. Não precisamos comprar fora o produto capaz de solucionar a questão. Podemos desenvolver aqui, para toda a região.

Montenegro tem dificuldade em planejar o seu futuro, sobretudo sob o ponto de vista da administração pública. Também é complicado unir as forças políticas e demais lideranças em torno de um objetivo comum em benefício da coletividade. Essa falta de entendimento e de rumo não é um inimigo do movimento para tornar a cidade inteligente?

Sim, é. Em Santa Cruz e Venâncio Aires, temos iniciado essas discussões pelo Conselho Municipal de Desenvolvimento, que possui representantes do poder público e também de entidades, como a associação comercial. Esse grupo fez um plano de ações de longo prazo em parceria com a comunidade e depois lutou para que, a cada eleição, os eleitos se comprometessem a levar o planejamento adiante. No interior de São Paulo, como em Valinhos, temos bons exemplos.

O senhor é presidente do Conselho Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação de Santa Cruz do Sul. Quais projetos já deram certo aí e poderiam ser replicados em Montenegro e outras cidades aqui do entorno?
Debatemos a Cidade Inteligente há dois anos, chamando as forças da cidade, as entidades municipais, a incubadora da Unisc, a Prefeitura, o prédio integrado de segurança pública, entre outros, com o objetivo de disseminar essa cultura de Cidade Inteligente. Já realizamos duas Hackathons. Um dos vencedores da maratona ganhou como prêmio seis meses de incubação — período em que conseguiu se transformar em uma empresa que produz sensores de centrais de computação, os quais emitem avisos conforme a temperatura que atingem. Três ou quatro empresas da região já adquiriram o produto. Outro avanço que se verifica em consequência disso é a adoção de um programa de qualidade por parte da administração pública municipal. Diversos setores passaram a mapear indicadores a fim de otimizar os recursos e, com isso, prestar um melhor serviço à população. É uma cultura ainda nova, mas estamos avançando bastante.

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