Hortifrutigranjeiros produzidos pelos presos são distribuídos duas vezes por semana a entidades assistenciais

Oportunidade. Por meio do trabalho, presos têm direito a remissão de pena e abastecem diversas entidades do município com alimentos orgânicos

Cada três dias de trabalho reduzem um dia de cumprimento de pena

A reinserção de apenados é um dos maiores desafios do sistema prisional brasileiro. O conceito de “escola do crime” para caracterizar as nossas cadeias já faz parte do senso comum. Autoridades no assunto são unânimes em ressaltar que os presos saem desses locais piores do que entram, muitas vezes reféns de facções criminosas e obrigados a reincidirem no crime. Contudo, essa realidade pode ser diferente. E a Penitenciária Modulada Estadual Jair Fiorin, localizada em Montenegro, mostra isso na prática.

Há quatro meses, 19 detentos trabalham na horta da casa prisional e todos os produtos colhidos são doados para diversas entidades beneficentes do município. O local conta com duas plantações. Na maior delas trabalham 14 homens do regime fechado. São 1.500m² de área onde plantam alfaces, repolhos, rúculas, beterrabas, cebolinhas, dentre outros. Já na menor, atuam cinco mulheres e ali também se cultiva diversos chás.
Otávio tem uma pena de 30 anos a cumprir por participação em diversos assaltos. Era o motorista nos roubos. Já está pagando pelo crime há 15, sendo três na modulada. Também chegou a fugir do semiaberto e ficou 15 anos como foragido.

Agora tenta deixar tudo isso para trás. É um dos presos responsáveis por cuidar da horta. “É uma oportunidade que a direção nos dá e um bem que estamos fazendo. Com certeza, hoje já sou uma pessoa melhor. A gente precisa que alguém acredite no ser humano preso”, enfatiza.

O trabalho na plantação também dá direito à remissão da pena: a cada três dias, diminui um atrás das grades. “Além de permitir a remissão da pena, eles estão produzindo e dando um retorno para a sociedade”, comenta a assistente social da Modulada, Ana Caroline Ferreira.

As entidades assistidas são o Lar dos Menores, que também atende a outras cinco creches, a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Montenegro e o Asilo Santo Antônio.
As entregas aos beneficiados são feitas pelos servidores da penitenciária, todas as quartas e sextas-feiras, e rendem de 10 a 20 caixas por semana.

500 apenados trabalham
Com capacidade para 988 presos, a Modulada conta hoje com 1.650 detentos. Desse total, mais de 500 trabalham, não apenas nas duas hortas, mas também na faxina, manutenção do prédio e oficinas de artesanato. “Não estamos aqui para julgar o preso, mas sim para ressocializá-lo e reintegrá-lo à sociedade. E isso se consegue valorizando o trabalho”, ressalta o diretor da casa prisional, Loivo Machado.

Importância das parcerias
Machado salienta o fato de não ser investido um centavo sequer do poder público no projeto. Tudo é realizado por meio de parcerias. As sementes e bandejas para sementeira, por exemplo, são doadas pela floricultura Strack, de Campo Bom. A ideia da horta partiu do agente penitenciário Guilherme Almeida, que supervisiona e coordena o trabalho dos presos. Já o permacultor Paulo Roberto Lenhardt, da empresa Bio C, é quem auxilia no plantio e no preparo da terra, doando adubos orgânicos. Os pesticidas utilizados são os “cravos de defunto” — flores naturais que espantam os insetos.
Para a continuidade do trabalho, é muito importante a colaboração da população. Podem ser doados, entre outros materiais, plásticos para a construção de estufa, chapéus e protetor solar. O telefone para contato é o (51) 3649-9238.

Deixe seu comentário