Folha de zinco pendurada em árvore em São José do Sul mostra que ainda há alguns reflexos do tornado pela região um ano após o ocorrido

Recuperação. Apesar disso, impactos da manhã de destruição ainda podem ser percebidos em comunidades de Maratá, São José do Sul e de Brochier

Ida conseguiu construir uma nova casa com a ajuda de familiares, mas não esquece o susto

“É, vai fazer uma ano. Então eu também vou fazer um ano, já que nasci de novo”. É com essas palavras que Ida Lucena Rhoden, 80 anos, recorda que nesta sexta-feira, dia 8, faz um ano que um tornado deixou um rastro de destruição por São José do Sul, Maratá e Brochier. A força da natureza naquele amanhecer cinza resultou em 14 imóveis destruídos nos municípios atingidos e outros 77 parcialmente danificados. Hoje, apenas uma residência em Maratá ainda não foi reconstruída. Apesar disso indicar que a vida volta lentamente ao normal, o 8 de junho de 2017 segue gravado na memória da região.

Se após o tornado uma das lamentações de Ida, que mora na localidade de Linha Progresso, em São José do Sul, era não ter um lugar para fazer sua festa de 80 anos – que acabou sendo organizada de surpresa pelos netos e filhos –, hoje ela possui um amplo espaço para reunir os amigos para celebrar os 81 anos, que serão completos dia 10 de julho. Desde dezembro, a aposentada mora numa nova residência, construída no mesmo lugar da que foi destruída. Durante seis meses, ficou hospedada na casa de uma filha.

Ida conta que ainda não se acostumou totalmente com a nova casa, que divide com um filho. Construída com o auxílio de familiares, a moradia possui dois quartos, uma sala conjugada com a cozinha, banheiro e despensa. “É muito grande, não precisava tanto”, comenta. Como também perdeu grande parte dos móveis e eletrodomésticos de sua casa, ela contou com doações para aparelhar a casa.

Telhado da casa de Loici foi arrancado e causou grande destruição. Hoje, tudo está arrumado

A idosa, que foi atingida por escombros e quebrou duas costelas no dia em que sua moradia foi destruída pela força do vento, segue com medo de ver o fenômeno se repetir. “Minha filha disse que isso não acontece mais, mas a gente não sabe”, comenta. Quem também segue ressabiada é Loici Elsa Fries Röder, 74 anos, moradora de Linha Boa Esperança, em Maratá. As recordações do que aconteceu naquele 8 de junho seguem vivas na memória dela.
Loici estava em sua cama quando começou a ouvir o forte vento. “Achava que minha janela ia cair, daí eu olhei para cima e estava tudo clarinho em cima de mim e começou a chover”, conta. O telhado da casa dela foi arrancado pelo tornado. Apesar das perdas que teve, ela agradece a Deus pelo fato de nenhuma vida ter sido perdida durante a destruição. “A vida não dá (para construir novamente), mas a casa dá”, sentencia.

Para reconstruir sua casa, ela contou com ajuda. A mobilização em Maratá foi tamanha que foram arrecadados R$ 222.044,47 em doações. O valor foi amealhado em eventos como brechó e trilha, depósitos bancários e vieram até mesmo da Alemanha, onde Maratá possui uma cidade coirmã. Deste valor, R$ 78.553,33 foram utilizados na aquisição de materiais para a reconstrução das casas e outros R$ 143.491,14 foram doados diretamente para as famílias atingidas em dinheiro e também insumos para construção.

Ainda há trabalho para ser feito nas propriedades
Dos 91 imóveis que sofreram danos em razão do temporal, 90 já foram reconstruídos nos três municípios atingidos. A exceção é uma residência em Maratá. Inclusive, as casas já voltaram a ser habitadas. No entanto, ainda faltam alguns detalhes para que tudo volte ao normal. Comunidade mais atingida pelo temporal, Esperança, em Maratá, teve sua geografia totalmente mudada.

Nelson, Rosane e a cadelinha de estimação do casal estavam no quarto quando
o vento derrubou paredes e arrancou o telhado. Hoje, moradia está reconstruída

As casas coloridas deram lugar para novas residências que, na sua maioria, ainda ostentam a cor do cimento nas paredes externas. Os matos de eucalipto e acácia que circundavam a comunidade já não mais existem. Derrubadas pelo vento, as árvores que ainda poderiam ser utilizadas transformaram-se em longas pilhas de lenha que ocupam a lateral das estradas da localidade. Nas propriedades, agricultores trabalham para recolocar tudo em ordem.

Nelson mostra a marca que indica qual parte da parede ficou em pé e qual foi refeita

Nesta semana, Nelson Aloísio Gaelzer, 64 anos, trabalhava na recuperação da cerca de sua propriedade. Ao lado da mulher Rosane Nied Gaelzer, 57, o seu foco foi reconstruir a casa deles e o galpão onde ficavam os animais, ambos atingidos pelo tornado. Da casa, ficou em pé apenas a parte dos fundos. A sua reconstrução só foi possível com a ajuda de familiares e desconhecidos. Inclusive com uma rifa promovida com o apoio da empresa Tramontina, onde o filho e a nora do casal trabalham, que angariou R$ 10 mil para o casal. Além de recuperar a cerca, o casal pensa agora em construir uma garagem para seu veículo.

Da destruição, também ficaram algumas marcas físicas. Enquanto que Nelson teve um corte na cabeça ao ser atingido pela janela, Rosane se machucou mais e ficou internada uma semana em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Ao ser atingida por parte da parede que desabou, ela quebrou duas costelas e precisou remover o baço.

Agricultores e empresários ainda sentem reflexos da perda
Dos seis aviários que Marcos Lamp, 45 anos, possui em sua propriedade em Esperança, Maratá, um foi parcialmente destruído e ficou inutilizado. Um ano depois, o galpão foi reconstruído, mas ainda não voltou a receber aves poedeiras para produzir. “Nem tudo está pronto porque eu não tinha condições de comprar tudo de vez. As gaiolas eu estou comprando agora”, conta. A expectativa é que os itens cheguem até o dia 15 deste mês. Com eles, o avicultor poderá alojar novas 3.500 galinhas e produzir mais 3.200 ovos ao dia.

Além de cuidar dos aviários, Marcos, auxiliado pelo filho Jonatas, produz carvão, atividade que também foi atingida em razão da queda de árvores

Marcos avalia que precisou gastar cerca de R$ 50 mil para reconstruir o aviário e colocá-lo em funcionamento novamente. Para recuperar a unidade, ele contou com doações e também injetou recursos próprios. O produtor conta que não possuía seguro dos aviários, mas optou por fazê-lo. “14 dias depois deu outro temporal. Eu não consegui mais dormir e me obriguei a fazer o seguro”, recorda. Como complemento da renda, o produtor ainda fabrica carvão, cadeia produtiva que também foi atingida em razão dos danos nos matos de eucalipto e acácia negra.

Em Maratá, estima-se que o prejuízo na agricultura foi de R$ 2.443.000,00 e R$ 906.300,00 na pecuária. Em Brochier, onde houve destruição nas lavouras de eucalipto e acácia negra, com a perda de madeira ainda não apta para o corte, o estrago econômico foi de aproximadamente R$ 100 mil. Já as lavoras e empreendimentos privados de São José do Sul tiveram um prejuízo avaliado em R$ 392 mil.

Jair trabalha para recuperar o perdido com o prejuízo e tempo parado

Em São José do Sul, um dos empresários atingidos foi o padeiro Jair Frühauf, 36 anos. O prédio onde seu empreendimento está instalado sofreu avarias e teve o telhado estragado. Com isso, ele acabou perdendo parte do seu estoque e teve que paralisar as atividades por 14 dias. Para conseguir retomar as atividades, Jair precisou recorrer a um empréstimo bancário. “Ainda estamos pagando, é um empréstimo de dois anos. Então tem mais um ano para pagar”, comenta.

Antes do temporal, Jair planejava comprar uma nova caminhonete e investir na padaria. “Tinha planos, só que o dinheiro a gente usou para repor o que foi estragado”, destaca. Segundo ele, hoje as coisas estão fluindo normalmente. Quem não conseguiu manter seu empreendimento após o desastre natural foi o empresário que dividia o prédio com ele e que fechou seu atelier. “Ele teve mais de R$ 100 mil de prejuízo. O meu ficou em R$ 50 mil”, conta.

Prefeituras também tiveram prejuízos

Creche Laranjinha ficou fechada durante seis meses até ter seu telhado reformado

Entre os prédios afetados pelo tornado em São José do Sul, está a Escola Municipal de Ensino Infantil (Emei) Laranjinha. A instituição teve parte do telhado arrancada e diversos vidros internos foram quebrados. As aulas tiveram de ser transferidas para outro local até dezembro de 2017, quando foi finalizada a reforma. “A gente teve que improvisar muita coisa, tipo refeitório. As salinhas eram bem pequenas e as turmas eram grandes para o espaço que a gente tinha”, recorda a diretora Kátia Regina Ertel Haupt. Segundo ela, após a reforma ser concluída, o Círculo de Pais e Mestres (CPM) auxiliou com dois mutirões e também adquiriu móveis e brinquedos para substituir os que foram danificados pelo tornado.

Segundo a Prefeitura de São José do Sul, o município obteve R$ 71.885,35 para o restabelecimento da Creche Laranjinha, como é conhecido o educandário, e para recuperar uma ponte danificada na estrada Waldemar José Bohn. Além disso, o Executivo utilizou diversas horas-máquinas para limpar e liberar estradas do Centro e do interior. Houve estragos nas localidades de Linha Canavial, Linha Lerner, Linha Progresso, Dom Diogo Baixo e no Centro.

Em Maratá, além de Linha Boa Esperança e Esperança, foram registrados estragos em Linha Canavial e Encruzilhada do Maratá. A estimativa da Prefeitura marataense é de que houve prejuízo de R$ 1.222.250,00 para a economia pública. Para se recuperar dos estragos, o Município contou com ajuda da Defesa Civil estadual, que disponibilizou R$ 104.628,00. Este valor foi investido em horas-máquinas e também na compra de cestas básicas.
Brochier registrou danos apenas na comunidade de Nova Holanda. Conforme o Executivo brochiense, como o estrago no município foi pouco, houve a utilização de fundos próprios para o auxílio dos atingidos, além do encaminhamento de doações. A Prefeitura também criou campanhas e mobilizou voluntários para auxiliar Maratá em sua recuperação.

Prefeitos destacam impacto emocional
Líderes dos municípios mais afetados, Fernando Schrammel, prefeito de Maratá, e Silvio Inácio de Souza Kremer, chefe do Executivo de São José do Sul, observam que os impactos do tornado não foram apenas econômicos, mas também emocionais. “É uma data que, com certeza, ficará marcada para sempre na história da cidade de São José do Sul”, garante Silvio.

Entulhos ainda vistos em açude são parte de telhado que voou em Linha Boa Esperança, em Maratá

O chefe do Executivo lembra ainda que os danos causados mudaram a rotina de diversas repartições públicas. “A Prefeitura, na medida do possível, auxiliou os atingidos. Limpamos as ruas do centro da cidade e estradas vicinais atingidas, mas, mesmo assim, o prejuízo foi enorme”, comenta Silvio. O prefeito diz ainda que algumas poucas pessoas ficaram feridas. “A vida segue, com as casas sendo reconstruídas, mas isso aí vai ficar marcado na memória do povo de São José do Sul”, reforça.

Fernando recorda que a situação em Maratá foi bastante difícil de ser enfrentada. “Mas, graças a Deus, com união e muita ajuda a gente conseguiu superar isso”, afirma. O chefe do Executivo marataense também agradece a todos que, de alguma forma, ajudaram a cidade. “A gente teve uma grande união. Quero agradecer de coração a cada um que ajudou porque foi um momento terrível para as famílias, para a comunidade e para a Administração”, diz.

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