As disciplinas têm uma abordagem diferente, com o conteúdo voltado mais para a prática do que para a teoria

Proposta é corrigir a distorção de idade em relação ao ano dos alunos que estão concluindo o Ensino Fundamental

Em algum momento do percurso escolar, Maurício se perdeu nas disciplinas e reprovou. A primeira vez foi no 6º ano. Ele não desistiu, viu os colegas recém conquistados seguirem adiante e ele ficou. Mais um ano vendo o mesmo conteúdo. Passou. Foi para o 7º ano, mas reprovou de novo. Quando a ideia de desistir de estudar passou pela cabeça, ele teve a oportunidade de participar de uma Turma de Aceleração de Estudos.

Maurício, 15 anos, começou este ano na TA e já sente os resultados positivos da iniciativa

Maurício Cristiano da Rosa, 15 anos, aluno da Escola Municipal Doutor Walter Belian, agora, tem aulas com conteúdos das turmas do 7º, 8º e 9º anos. Se aprovado, no próximo ano, ele vai para o Ensino Médio.

“Ah, no outro colégio que eu ia era mais fácil, já aqui era mais difícil e no começo não peguei muito bem, aí rodei no 6º ano. Fiz de novo e aí consegui passar tranquilo, só que, quando eu fui pro 7º, comecei a ir atrás dos colegas e rodei”, revela.

Taís, 14 anos, reprovou no 6º ano e logo entrou para a TA a fim de recuperar o tempo perdido

Da mesma forma que ele, a jovem Taís Paloma de Moura Rodrigues, de 14 anos, era nova na escola quando começou no 6º ano. Tudo era diferente, os colegas, professores que exigiam mais, o conteúdo… A adaptação foi complicada. “Foi difícil, porque lá na outra escola aprendi coisas diferentes. Aqui aprendi coisas mais difíceis, daí, com o passar do tempo, comecei a me perder e aí rodei. Pensei até em desistir”, conta ela.

Mas, diferentemente de Maurício, Taís já começou a frequentar a turma de aceleração ainda em 2016. “Bah! Na TA (Turma de Aceleração) está sendo ‘tri show’. Aprendi mais, porque a gente conversa mais, os professores dão mais atenção e explicam mais.” Se aprovada nesse ano, Taís também segue direto para o Ensino Médio e, se depender da vontade dela, isso vai acontecer. “Eu estou me esforçando, mais do que o ano passado, até porque temos conteúdos novos e mais difíceis, e aí preciso me focar mais”, argumenta.

O caso desses dois estudantes não é isolado. Apenas na rede municipal de Montenegro, em 2016, quase 500 alunos estavam em turmas que não eram adequadas à sua idade. Percebendo isso, no ano passado, a Secretaria Municipal de Educação (Smec) colocou em prática o projeto de Turmas de Aceleração de Estudos. A ideia é formar novas turmas para que esses alunos possam dar continuidade aos estudos e se encaixarem nos níveis de ensino adequados com relação à idade.

“Esse é um problema que existe e que temos que tentar resolver, mas a gente não podia dar o mesmo que dava na sala de aula regular. Trazendo para as Turmas de Aceleração, a gente tinha que ter uma metodologia diferente”, explica a diretora de Educação da Smec, Rita Carneiro Fleck.

Projeto reduz as desigualdades de idade
Em Montenegro, a proposta das turmas de aceleração é corrigir a distorção de idade em relação ao ano dos alunos que estão cursando os Anos Finais do Ensino Fundamental, assim como garantir qualidade no processo de ensino-aprendizagem das turmas de aceleração de estudos. A distorção de idade em relação ao ano acontece quando os alunos reprovaram nas turmas regulares e acabaram ficando para traz. Muitos têm idade avançada, mas estão em turmas de crianças menores, portanto não estão na idade correta para a série.

São considerados alunos com defasagem de idade em relação ao ano, pelo programa, aqueles que ultrapassaram em dois anos ou mais a idade regular prevista para a série em que estão matriculados.

A secretári municipal de Educação, Silvana Schallenberger, explica que esses alunos acabaram tendo uma defasagem de aprendizagem e ficaram para traz. “Em algum momento se perderam e não conseguiram acompanhar a idade com a turma”.

Para que esses alunos retornem ao fluxo regular de estudos, de forma que com a idade que possuem estejam nas turmas adequadas, foram criadas as Turmas de Aceleração, que trazem uma intervenção pedagógica diferente.

No ano passado, Giane Campiol foi uma das professoras referência de uma turma de 6º ano. Para ela, o papel do professor nesses casos é de um vínculo maior. “Ele consegue dar mais atenção e dar explicações mais individuais”, diz. Além das aulas tradicionais, Giane conta que são utilizadas situações do cotidiano e ainda estratégias que buscam promover o interesse doas alunos nas disciplinas. “A gente usava, por exemplo, xadrez como forma de desenvolver o pensamento lógico, matemático, resolução de problemas, socialização, interação e relacionamento”.

Os alunos participantes das Turmas de Aceleração de Estudos poderão, ao final do ano letivo, acelerar até dois anos de aulas, ou seja, os do 6º ano do Ensino Fundamental poderão ser reclassificados para o 8º ano do Ensino Fundamental, e os alunos do 8º ano do Ensino Fundamental, poderão ser reclassificados para a 1ª série do Ensino Médio.

Em 2016, foram cinco turmas nas escolas da rede municipal, que atenderam a 86 alunos. Destes, 66 foram aprovados, resultando uma taxa de aprovação de 77%. Neste ano, são seis turmas com 113 alunos, entre as escolas urbanas e do interior.

Na prática, desafio também para professores
Para a diretora de Educação da Smec, Rita Carneiro Fleck, o medo principal dos professores, e até da comunidade escolar, era o de que os alunos em distorção de idade em relação ao ano deveriam ser aprovados sem que tivessem qualificações para isso. “Encontramos algumas dificuldades com os professores, mas tivemos muito cuidado, de em todo o processo trabalhar junto com eles”, explica.

A ideia foi participar de forma conjunta entre professores e coordenação para que as turmas pudessem assumir o seu papel de recolocar os alunos nas turmas adequadas. “A gente vê uma caminhada muito positiva das turmas nesse ano”, avalia Rita.

Para a professora de Matemática, Betina Hörlle, que leciona na Escola Walter Belian e integrou o gruo de estudos para elaborar a proposta das TAs, a satisfação de ver um trabalho tendo bons resultados é grande. “Vejo que temos alunos que cresceram muito. Alunos que não perguntavam, que tinham vergonha de dizer que não sabiam. Aqui, nessas turmas, não é assim. Eles estão todos no mesmo nível, então não tem mais essa vergonha de ir atrás do conteúdo”, afirma a educadora.

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