OS EFEITOS da estiagem ainda não são percebidos nas frutas, mas a falta de chuva vai interferir no crescimento

A citricultura é a principal atividade primária em Montenegro e os produtores começam a temer os danos na safra

Assim como na maioria das regiões gaúchas, o Vale do Caí também começa a sentir com mais intensidade os efeitos da estiagem. A instabilidade tem chegado poucas vezes com intensidade e isso já deixa alguns agricultores em alerta. Na maioria das vezes, são apenas chuvisqueiros rápidos, como os deste domingo à noite, que não fazem muita diferença no solo.

Quem vive de produção de frutas já percebeu que o calor intenso, em alguns pomares, começa a comprometer a qualidade de laranjas e bergamotas ainda em fase de crescimento. O medo é que eles tenham seu ciclo de maturação interrompido e fiquem secas, como menor tamanho e queda na quantidade de suco.

WOLLMANN, de Passo da Pimenta

Para o citricultor Pedro Wolmann, de 57 anos, a situação ainda não causa prejuízos imediatos, mas merece atenção caso oi tempo continue seco e quente. “Cultivo bergamotas e essa é a fase inicial, em que realizamos o raleio. Nesse tempo, é preciso de umidade no solo, mas chuva em excesso também seria um prejudicial”, acalia.

Pedro, que também engenheiro agrônomo, concorda que o tempo seco pode vir a prejudicar o desenvolvimento da fruta. “Essa é uma questão que se avalia só na colheita, mas a preocupação com esse tempo fica em torno do tamanho e da qualidade da bergamota, que são fatores essenciais para a venda depois”, diz.

MARTIN Maurer, de Santos Reis

O citricultor Martin Meurer também espera que a chuva retorne, mas acredita que ainda é cedo para se preocupar. “De fato, estamos vivendo esse período de seca, que é ruim, mas já presenciei secas maiores, que não trouxeram tantos prejuízos”, comenta. Há cerca de 50 anos, ele cultiva laranjas e bergamotas. Para melhorar o desenvolvimento dos frutos nessas situações, é utilizado o biofertilizante e compostos orgânicos.

O agricultor compara o clima gaúcho com o de estados do norte do país e chega à conclusão de que a definição de seca ou estiagem é feita de forma equivocada em muitos casos. “Aqui, logo que começa um período de sol e pouca chuva, temos a mania de achar que trata-se de uma seca, porém em estados como o Rio Grande do Norte, por exemplo, os agricultores sofrem em situações em que simplesmente não há áreas verdes nas plantações. Tudo é perdido”, analisa. Martin conta que, no ano passado, teve uma colheita muito boa e espera que a situação se repita em 2018. Ele cuida de cerca de 30 hectares de citros e sua plantação também está em fase de raleio.

A engenheira agrônoma da Emater/Ascar de Montenegro, Luísa Leupolt Campos, em recente entrevista ao Ibiá, destacou que a falta de chuva pode provocar perdas e danos nas lavouras. “A água no solo é o que faz as plantas conseguirem absorver os nutrientes que precisam para seu desenvolvimento e produção. Com o solo seco por muito tempo, os nutrientes ficam indisponíveis”, explica a profissional.

Uma planta, independentemente da espécie, bem nutrida e bem manejada, sofre menos do que uma em condições opostas. Assim, a prevenção começa com análises de solo e folha, adubação e correção do solo conforme recomendação técnica. Para a citricultura, a irrigação pode ser utilizada, mas é muito incomum. Em Montenegro, por exemplo, há conhecimento de apenas uma propriedade que possui irrigação nos citros. Assim, o foco na nutrição da planta e também o cuidado no local de implantação do pomar são essenciais.

Previsão
De acordo com um levantamento do instituto de meteorologia Climatempo, a chuva deve retornar nos próximos meses, mantendo as estações com temperaturas e precipitações consideradas normais. Para Montenegro, há previsão de chuva já para esta quinta-feira, porém com probabilidade de apenas 5 mm.
Março –  91 mm
Abril –  116 mm
Maio  – 106 mm
Junho  – 34 mm
Julho –  145 mm
Agosto –  124 mm
Setembro  – 148 mm
Outubro –  141 mm
Novembro –  122 mm
Dezembro –  112 mm

Fonte: Instituto de Meteorologia Climatempo

SAIBA MAIS
* O Brasil é o líder mundial na produção de laranjas. Metade do suco de laranja consumido no mundo é brasileiro e o país domina 80% do mercado de suco concentrado.
* A Marvel criou, em 2014, um novo super-herói, o Capitão Citrus, que bebe suco de laranja e dá uma forcinha para os Vingadores. A Marvel recebeu um milhão de dólares de uma empresa de sucos para repaginar um herói que havia sido criado para representar a produção de laranja local.
* As primeiras sementes e pequenas mudas de laranja chegaram à América em 1493, levadas por Cristóvão Colombo, em sua segunda viagem, quando trouxe também sementes de limão. As plantações se multiplicaram pelas novas terras, chegaram ao Panamá em 1516 e ao México em 1518, na mesma época em que os portugueses as trouxeram para o Brasil.
* 85% das laranjas produzidas no mundo são convertidas em suco, que, em muitos povos, é ingerido principalmente durante o café da manhã.

SAFRA DE VERÃO
Um levantamento divulgado pela Emater/RS, durante a Expodireto Cotrijal em Não-Me-Toque, revelou que houve redução no total da área cultivada e na produção referente a algumas culturas.

Apesar disso, a safra de verão 2017/18 deve alcançar produção de 30,2 milhões de toneladas, o que causará impacto econômico de mais de R$ 27 bilhões. Com a confirmação desses números, esta será a segunda maior safra de verão do Estado, apesar dos efeitos da estiagem.

Efeitos sobre a produção
A falta de chuva nesta época do ano interfere no ciclo de produção dos citros de diferentes formas. Inicialmente, o maior impacto se dá no potencial de crescimento dos frutos, sobretudo nas variedades colhidas mais cedo. Eles crescem menos e a quantidade de suco tende a ser menor, o que reduz seu valor de venda nos mercados consumidores, principalmente, de frutos de mesa.

Caso a chuva demore a retornar, também é possível que, enfraquecida, a planta sofra mais com o ataque de fungos e outras pragas, que provocam queda e apodrecimento dos frutos. Neste caso, os citricultores são obrigados a ampliar a aplicação de defensivos, o que eleva os custos da produção.

A principal variedade de citros cultivada na região é a bergamota Montenegrina. Como a colheita inicia a partir de julho, se o fluxo de chuvas se normalizar em pouco tempo, as árvores ainda conseguirão se recuperar e o impacto será menor. Contudo, uma planta debilitada pela falta de chuva pode também sofrer mais em caso de geadas fortes no inverno.

Por todas estas razões, não é à toa que os agricultores olham com preocupação para o céu em busca de nuvens que podem indicar chuvas.

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