Talvez você não saiba. Talvez você não queira saber. Talvez a sociedade prefira permanecer no escuro sobre esse assunto. Mas é necessário abrir os olhos. No mundo, a cada 40 segundos alguém coloca fim na própria vida. Isso significa a morte de 1 milhão de pessoas todos os anos. O número de tentativas alcança 20 milhões de casos. Apenas no Brasil, são 32 mortes por suicídio ao dia. Pior ainda é pensar que os números, na maior parte das vezes, estão subestimados devido ao grande número de subnotificações.

Os dados oficiais dão conta de que, no primeiro semestre, no Vale do Caí, 38 pessoas tentaram por fim na própria vida, sem obter o resultado desejado, sendo encaminhadas a um dos dois hospitais da região que contam com unidade de Saúde Mental, em Montenegro e em São Sebastião do Caí. Extraoficialmente, porém, sabe-se que o número é muito maior. Esses dados não incluem as tentativas que efetivamente terminaram em morte. Essas têm registro policial. Tentamos contato com a Polícia Civil para verificar a quantidade de casos no primeiro semestre de 2018, porém, não obtivemos retorno.

Segundo dados oferecidos pela Secretaria Municipal de Saúde de Montenegro, no Hospital Montenegro, deram entrada, em média, dois pacientes por mês, com esse perfil, totalizando 12 registros de janeiro a junho de 2018. Os números não são exatos, e sim uma média, porque o acompanhamento das fichas de notificação é manual, o que impede o levantamento mais concreto, conforme detalha a enfermeira Nicole Ternes. A maior parte desses atos de violência autoprovocada é feita por jovens – 15 a 29 anos – e por meio da ingestão de medicamentos. Referência para 14 municípios da região, o Hospital Montenegro conta com 26 leitos de atenção à Saúde Mental.

Giovane dos Santos, psicólogo do hospital Sagrada Família. Foto: Arquivo Ibiá

Já no hospital Sagrada Família, de São Sebastião do Caí, segundo dados apresentados por Giovane dos Santos, psicólogo da casa de saúde, no primeiro semestre do ano, 26 pacientes foram internados no Centro de Saúde do hospital caiense, por tentativa de suicídio, numa média de 4,3 pacientes ao mês. Desses, 18 foram por ingestão de medicamentos, seis por tentativa de enforcamento e dois por ferimento com arma branca. As idades ficaram entre 21 a 69 anos, média de 38 anos em sua maioria. No Sagrada Família, são 32 leitos particulares ou convênios e 28 do SUS, disponibilizados através da Central de Leitos do Estado.

Falar ou não a respeito?
Dificilmente você ouve na rádio, assiste na TV ou lê em jornais e portais de notícias a respeito de casos de suicídio. Trata-se de uma prática mundial e muito antiga entre os veículos de comunicação. O temor é que, ao noticiar, se acabe por incentivar novos atentados contra a própria vida.

O que, obviamente, nenhum veículo de comunicação deseja. Hoje, porém, é discutido se, sem notícias a sociedade não fica mais vulnerável ao não se dar conta do grave problema. Questionamos a psicóloga Daiana Gallas sobre o assunto. “Tem que se falar sobre, divulgar sim. Não se incentiva um homicídio por noticiar. Com o suicídio não é diferente. O que não se deve fazer é romantizar os casos e intrumentalizar, mostrar como fazer. Mas é importante que as pessoas saibam que ocorre e como identificar alguém sob risco. Falar da prevenção”, diz a psicóloga do Caps Montenegro.

Casos muito além dos registros
Os números não representam a gravidade da situação. Isso porque, apesar de haver uma campanha para reduzir a subnotificação de suicídios, grande parte do que ocorre fica sem registro ou é enquadrado de outra forma. A psicóloga Daiana Gallas, que atua no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Montenegro, localizado na rua Bruno de Andrade, não tem dúvidas de que o número 12 está muito longe de representar a quantidade de atentados contra a própria vida de Montenegro no último semestre.

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Pais devem ficar atentos a mudanças de comportamento em crianças e adolescentes. Foto: reprodução internet

“Suicídio ainda é um tabu. Então há tentativas que não chegam a um hospital e outras registradas como ‘um acidente’, um ‘descontrole’ da pessoa. Às vezes, quando se trata de uma criança se encara como “ele caiu”, quando na verdade não foi isso. Atualmente, já há um crescimento das notificações, mas, os números não representam a realidade”, diz Daiana. “Mesmo aqui, entre os pacientes que atendemos no Caps, há relatos de “eu tentei” ou “minha família impediu”, diz. “Imagine aqueles que estão com essa idealização suicida e não procuraram um serviço de saúde nem têm acompanhamento”, completa ela.

Mudança no perfil dos casos

Até cinco anos atrás, os dados apontavam que o maior risco ao suicídio estava na terceira idade. E a causa estaria na solidão e isolamento, realidade de parte dos idosos. Hoje, porém, apesar desse público ainda apresentar altos índices, crescem as estáticas quanto aos jovens. A também psicóloga do Caps de Montenegro, Neida Rocha, questiona que a causa pode ser similar. “A solidão e o isolamento também estão afetando os jovens. Muito em função das novas tecnologias”, comenta. Já Daiana Gallas questiona casos ainda menos comentados. “Falamos que tem aumentado os casos entre jovens e consideramos nessa faixa dos 15 aos 29. Mas e os que acontecem antes dos 15? Fato é que eles existem”, destaca.

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Neida Rocha e Daiana Gallas, psicólogas do Caps de Montenegro

Outro dado é o da chamada “efetividade das tentativas”. No caso das mulheres, sabe-se que há uma maior quantidade de tentativas sem conclusão fatal. Já os homens são mais efetivos. Principalmente nos chamados “homens maduros”, fora da faixa etária considerada jovem, há um contexto diferente. Eles não são os que mais tentam, mas, quando o fazem, são casos que costumam terminar em óbito. Uma leitura que Neida Rocha faz disso é que, nas mulheres a tentativa talvez não represente a real vontade de se matar, mas sim um pedido de socorro.

Mas o que leva alguém a desistir de viver? Para as psicólogas do Caps, nunca será algo isolado. A decisão vem ao “transbordar” de um balde de sofrimentos. As principais causas dos suicídios estão na depressão, uso de drogas e transtornos mentais. Uma das grandes dificuldades, que levam a concretização do ato, sendo que esse poderia ter sido evitado, é o descrédito aos avisos. “Quem fala não faz, dizem. Não é verdade. A grande maioria das pessoas que tenta suicídio avisou que faria. A fala é um pedido de ajuda. Então não subestime quem diz que irá se matar”, alerta Daiana Gallas.

Para o psicólogo Giovane dos Santos, o ato de tirar a própria vida de forma intencional pode resultar de um conjunto de fatores: psicológicos, sociológicos, biológicos, genéticos, culturais e ambientais. “Alguns ‘gatilhos’ favorecem o suicídio, como decepções amorosas, perdas de pessoas queridas, problemas familiares ou financeiros, baixa autoestima, fracasso escolar, vivência de situações humilhantes, bullying e cyberbullying, jogos como o da ‘Baleia Azul’, além de problemas de saúde, como depressão, esquizofrenia, estresse, transtornos de personalidade, abuso de álcool e outras drogas’, diz ele. Dependendo do problema mental, destaca Giovane, o suicida pode até mesmo ouvir vozes de comando que ordenam que ele cometa suicídio.

Quanto aos casos em crianças e adolescentes, é indicado que os pais mantenham atenção para mudanças de comportamento sem uma razão clara e ao que eles andam acessando pela internet. Não é que a internet ou o acesso às novas tecnologias estejam causando casos de suicídio, mas, através da rede mundial de computadores, é fácil encontrar todo tipo de informação, inclusive as que levam a cometer o ato fatal.

Como pedir ajuda?
Se você está depressivo e/ou com idealização suicida, ou tem algum familiar nessa situação, procure ajuda. Uma alternativa é o Centro de Valorização da Vida (CVV), no qual, pelo telefone, número 188, numa ligação gratuita, é possível conversar com voluntários. A busca de auxílio pode ocorrer indo diretamente ao Caps, ao Ambulatório Interdisciplinar de Saúde Mental, na SMS, ou em qualquer Unidade Básica de Saúde.

Estima-se que a cada 10 suicídios, nove poderiam ser evitados. Para prevenir que algum familiar perca a vida por suicídio, é importante manter sempre um bom diálogo na família, observando quaisquer mudanças no comportamento das pessoas próximas. “A pessoa que pretende cometer suicídio, frequentemente fala frases como “não aguento mais”, “eu queria sumir”, “eu quero morrer”, e ao contrário do que se pensa, na maioria das vezes ela não está apenas querendo chamar a atenção”, reforça Giovane dos Santos.

Cada processo de atendimento é individual e não há um tempo para que a pessoa siga em tratamento. O objetivo é estabilizar o quadro e tirar a pessoa de um momento de risco. “Está comprovado cientificamente que o tratamento mais eficaz para ajudar alguém que esteja sendo acometido por depressão, ideação suicida ou tentativa de suicídio, é a combinação de medicação prescrita por um psiquiatra para regular a química do cérebro e o tratamento psicológico com psicólogo para mudar o sistema de pensamentos conscientes e inconscientes, melhorando o estado emocional e mudando a forma de ver a vida e enfrentar as situações difíceis”, finaliza Giovane.

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