Constatação é que os custos de produção e de vida aumentaram, mas o valor da fruta se manteve o mesmo

Mercado. A oferta de frutas é grande e valores ainda estão aquém das expectativas dos produtores montenegrinos

Aberta oficialmente no final do mês passado, a safra de citros, principalmente a de bergamota, impõe desafios mercadológicos aos produtores. Depois de temporada de raleio em que poucos produtores conseguiram vender, a época da fruta madura, que começa com as variedades Caí e Ponkan, inicia com muita oferta e preço baixo.

Em Campo do Meio, o produtor Diogo Mundel vende a caixa de 25 quilos no valor de R$ 12,00 a R$ 15,00. Ele avalia que um preço justo seria entre R$ 18,00 e R$ 20,00 para a fruta in natura. “Hoje, tá o mesmo preço médio de uns cinco anos atrás. O problema é que tudo o mais subiu e a fruta ficou neste preço”, aponta. Destinada ao suco, a caixa sai por apenas R$ 5,00. Com maiores custos para produzir, repassar a despesa ao consumidor final não é uma opção viável.

“A população toda tá meio sem dinheiro. Pra vender, tu acaba tendo que vender com preço menor”, lamenta o citricultor. Recentemente, a Emater previu uma produção de 48 mil toneladas de citros em Montenegro, dos quais 36 mil são de bergamota. Diogo entende que a projeção ainda não indica uma “supersafra” – quando se produz em grande quantidade e a oferta acaba sendo muito superior a procura – mas diz que, mesmo hoje, o aumento da produção interfere no preço.
“Essa é uma fruta que é mais fácil de produzir e praticamente todo mundo planta. Acaba que vai muita para o mercado com uma qualidade inferior e valor mais baixo. Isso puxa também o preço da que tem qualidade melhor”, compara. Em entrevista no ano passado, o produtor e presidente do Sindicato Rural de Montenegro, Romeu Vergilio Esswein, já havia apontado que a expansão da produção da bergamota para outras regiões do Estado derrubava os preços.

Maria Regina, presidente do Sindicato Rural, avalia que pode haver produtores mudando de ramo. foto: Arquivo/Jornal Ibiá

No Sindicato dos Trabalhadores Rurais, as projeções não são das melhores. “Pode ter gente optando por trocar a plantação para outra cultura”, avalia a presidente da entidade, Maria Regina da Silveira, que também produz citros. “Muitos já trocaram pela acacicultura (mato de acácia), mas essa já é outra área que também está ruim. A gente acaba entre a faca e a espada.”

Na propriedade dos Mundel, em Campo do Meio, a opção foi diversificar os citros. “A gente tem plantado outras variedades. Começamos com a laranja também”, relata Diogo. Sem compensações, a variedade Caí já nem tem tido o pomar estendido na propriedade. Com ela, a Ponkan tem pouca força na exportação para outros estados. A próxima variedade que virá é a Pareci – fruta que é bastante sensível ao frio intenso e que não representa expectativa de variação de preço.

Raleio já sinalizava ano difícil
Antes da fruta madura, os citricultores já tinham uma renda garantida com a temporada do raleio. Prática comum na agricultura, ele consiste na retirada de algumas frutas ainda verdes do pé para não deixá-lo tão carregado e permitir que as que ficam amadureçam melhor. Essa fruta verde tinha procura por indústrias de perfumaria e cosméticos, que extraíam o óleo para utilizar como matéria-prima de seus produtos.

Se no ano passado, a caixa saía, em média, por R$ 7,55, nesse ano ela estava por R$ 4,60. De acordo com o presidente da Associação Montenegrina de Fruticultores, Fabiano Ost, cerca de 30% da produção é retirada no raleio. Com o baixo custo-benefício do valor praticado e com as indústrias já não procurando tanto, muitas frutas verdes acabaram ficando no chão.

Em entrevista recente sobre a situação, o responsável pelo setor de compras de matéria-prima e logística na BioCitrus, Paulo Roque Kunrath, confirmou as dificuldades no mercado de produtos originados pelo óleo extraído da bergamota. Contou que, com a baixa demanda pelos itens, sua indústria ainda tinha estoque de óleo da safra passada e, por isso, não previa comprar tanto dos citricultores.

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